       
  Zlia Gattai
  
Cho 
de Meninos
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
http://groups.google.com/group/digitalsource



       
       
       
       
       
       
       
       
       OBRAS DA AUTORA
       
       ANARQUISTAS, GRAAS A DEUS
       UM CHAPU PARA VIAGEM
       JARDIM DE INVERNO
       PIPISTRELO DAS MIL CORES
       O SEGREDO DA RUA 18
       SENHORA DONA DO BAILE
       
  Zlia Gattai
  
  Cho
  de Meninos
       
       
       
       
       
       
       
         
         
         CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte 
         Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
         
         Gattai, Zlia, 1916-
         G235c    Cho de meninos / Zlia Gattai. 
         Rio de Janeiro : Record, 1992.
         
         1.  Gattai, Zlia, 1916-
         2.  Amado, Jorge, 1912-
         3.  Escritores brasileiros - Biografia. I. Ttulo.
         
                                   CDD - 869.98
92-679 CDU  - 869.0(81)-94


         Copyright  1992 by Zlia Gattai Amado
         
         
         Capa: Floriano Teixeira
         
       
         Direitos exclusivos desta edio reservados pela
         DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A.
         Rua Argentina, 171  20921-380 Rio de Janeiro, RJ  Tel.: 580-3668
         
         Impresso no Brasil
         ISBN 85-01-04014-2
         PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL 
         Caixa Postal 23.052  Rio de Janeiro, RJ  20922-970
       
       
       
       
       
       
       
       
       Para Jorge, nos seus 80 anos, 
       com amor
       
      A MEMRIA DA VIDA
       
       Eduardo Portella
       
       
       O Cho de Meninos, novo livro de Zlia Gattai, contm e irradia uma vitalidade contagiante, como se Zlia se escrevesse o tempo todo, do jeito que ela , sem jamais recorrer ao truque ou  encenao. O que se afirma, ao longo destas pginas verdadeiras,  antes o canto de amor  vida   vida spera, desafiante, cercada de obstculos por todos os lados mas, de qualquer modo, vida para ser vivida: de frente, cara a cara, nenhuma fuga, nenhuma dramatizao. A vida como vontade, sem medo e sem resignao. Sem permitir que o desnimo contamine episdios freqentemente desanimadores, e sem deixar que o ressentimento substitua a generosidade. O livro de Zlia  como ela  um livro de bem com a vida e, por isso mesmo, destinado a nos animar com a sria alegria do viver.
       O Cho de Meninos reconstitui o percurso humano, social, poltico, de Zlia Gattai, e o seu personagem principal  Jorge Amado, esse exemplar criador de personagens. Mas na cena espaosa dos Gattai Amado os amigos so sempre bem recebidos, alvos de atenes especiais, e nunca extenses de aventuras personalistas ou motivos para rememoraes fraudulentas.
       Os gneros pessoais se desacreditaram no Brasil. Menos por uso do que por abuso. Os dirios, as memrias, os depoimentos perderam boa parte da sua antiga credibilidade. Os usurios, ou os abusurios de hoje, tornaram-se mais conhecidos como fabricantes de mscaras, ou de bustos, ou de esttuas, com que procuram trapacear a sempre duvidosa imortalidade. A literatura pessoal, por excesso de maquiagem, e por recorrncia freqente a todas as formas de prtese, passou a ser uma edificao enganosa a servio da egolatria. Enredado na prpria peripcia individual, a fraqueza do proselitismo solitrio supe substituir o vigor do olhar solidrio.
       O texto de Zlia Gattai est vacinado contra esse vrus do exibicionismo. Um saudvel contraponto de cenrio imediato e horizonte histrico, de sonho poltico e realidade nacional, orienta e conduz o Cho de Meninos. A cotidianidade, quando vivida enraizadamente,  o minuto e a permanncia; mais do que a usura,  a partilha, talvez a doao. Somente os livros votados a essa proeza silenciosa so capazes de nos acompanhar para sempre.  o que acontece com estas lembranas vincadas sobre a memria da vida.
       
       ABRIL DE 1963
       
       Acordei num pulo, sobressaltada com o toque do telefone. Por que tanto susto se estava ali  espera da chamada? Recostada na poltrona enquanto aguardava, adormeci. Que horas podiam ser? Quanto tempo dormira? No devia ter sido muito, ainda no dera meia-noite.
       Do outro lado do fio Joo Jorge me falava: "Me, pode vir..." Ainda bem que eu no devia ir longe para apanh-lo, ainda bem. Estava morta de cansao, trabalhara o dia todo. O carro ficara em frente ao edifcio, me pouparia de manobr-lo na garagem sempre repleta quela hora. O apartamento do colega, onde se dera o "arrasta", ficava logo ali no Leme, a dois passos do nosso; residamos no posto 2, em Copacabana.
       Tratei de recomendar: "Aguarde dez minutos antes de descer, meu filho, no fique esperando na rua..."
       
       PORTO DO RIO DE JANEIRO  JUNHO DE 1952
       
       O dia apenas amanhecera. Parado ao largo, o Giulio Cesare aguardava que as autoridades chegassem para a visita rotineira. Enquanto no abriam o restaurante para o caf da manh, Jorge e eu, no tombadilho, contemplvamos emocionados a beleza da Baa de Guanabara. Regressvamos ao nosso pas aps quase cinco anos de ausncia durante os quais rodamos mundo, fizemos amigos, conhecemos povos e costumes, paisagens as mais surpreendentes, vivemos o bom e o mau, alegrias e tristezas. Deixramos o Brasil levando um filho de poucos meses e voltvamos com dois, nossa filha Paloma nascera em Praga. Terminara o governo Dutra, durante o qual partramos para o exlio, Getlio Vargas voltara ao poder, desta vez eleito pelo voto popular, tudo indicava j haver espao no Brasil para Jorge e sua famlia.
       A viagem fora tranqila at o dia em que nosso filho Joo Jorge nos pregou o maior susto e a toda a populao do navio. Fizramos mais de metade da travessia quando, uma tarde, de repente, o menino sumiu. Ficara sob a guarda do pai enquanto eu, no camarote, me ocupava de Paloma, que amanhecera febril. Convidado para uma rodada de pquer, Jorge jogava, despreocupado, e ao procurar pelo filho, que deixara sentadinho tomando lanche na mesa ao lado, j no o viu. Correu para o camarote, no camarote ele no estava, no estava em parte alguma, desaparecera. O alarme foi dado, sirenes tocaram, alto-falantes berraram, tripulao e passageiros de todas as classes juntaram-se a ns na busca da criana. As horas se passavam e nada de Joo. Jorge e eu na maior angstia no queramos admitir a hiptese de que nosso filho tivesse cado no mar. At na casa de mquinas ele fora procurado, e as esperanas de encontr-lo j se esgotavam, entrvamos em desespero quando, por acaso, ele foi localizado no cinema, dormindo.
       Joo assistira ao concerto da hora do ch, coisa que adorava, em seguida acompanhara os msicos ao cinema da primeira classe  ns viajvamos na segunda , sentara-se na primeira fila e l adormecera, encolhidinho, acomodado na larga poltrona. O filme terminara, todo mundo fora embora, fecharam as portas e l ficou ele dormindo at ser encontrado e despertado. Desde esse dia, passamos a ser conhecidos como "o pai do menino", "la madre del nino" e " la sorellina del bambino".
       
       
       PRIMEIRO CONTATO
       
       No restaurante lotado tomvamos nosso caf quando disseram que a lancha das autoridades se aproximava; estranhamos, pois ainda era cedo para a sua chegada. Antes mesmo que terminssemos de comer, a sala de refeies foi invadida por fotgrafos e reprteres de jornais. Os flashes comearam a espocar em cima de Jorge, assombrando os vizinhos de mesa, que no entendiam o que se passava, o porqu de todo aquele movimento em torno do "pai do menino". Um sacerdote que tomava seu mingau, pacificamente, ficou de boca aberta, a colher parada em meio do caminho; um italiano gordo, olhos espantados, juntou os cinco dedos, balanou a mo, "...ma... chi ?"
       Com Paloma sentada em seus joelhos, Jorge ouvia as novidades, respondia s perguntas. Ficamos sabendo que haveria, no cais, manifestao de boas-vindas, organizada por um grupo de camaradas. Soubemos tambm que a polcia ia estar presente ao desembarque: baixamos  terra entre boatos contraditrios.
       Fomos os ltimos passageiros a ser atendidos na alfndega, sob as vistas da polcia ali, firme. Nossa bagagem, enorme, foi toda aberta, mala por mala, caixa por caixa. Policiais comandavam a operao, nariz enfiado nos volumes, farejando pea por pea das roupas desdobradas, examinando os sapatos, de adultos e de crianas, por dentro e por fora, objetos, livros... tudo, absolutamente tudo foi esmiuado, apalpado. Constrangidos, encabulados, os funcionrios da alfndega que executavam o trabalho a contragosto desculpavam-se a cada momento, estavam sendo coagidos. A polcia levou horas para nos liberar, s o fez depois de tudo visto e nada encontrado.
       
       
       O APARTAMENTO DA RODOLFO DANTAS
       
       O apartamento na rua Rodolfo Dantas, em Copacabana, era espaoso e claro. Espaoso porm pequeno para o nmero de pessoas que nele habitavam. Pertencia aos pais de Jorge, que h anos o haviam comprado. Nele moravam, ao chegarmos da Europa em 1952, o Coronel Joo Amado e dona Eullia  nesse tempo ainda no chamvamos dona Eullia de Lalu, apelido inventado pelo marido e s por ele empregado , Janana, filha de James, irmo de Jorge, Joelson Lisboa, sobrinho de dona Eullia, vindo da Bahia para estudar medicina, e Jos de Jesus, faxineiro de uma casa de modas em Copacabana, que ocupava as dependncias de empregada em troca de fazer o caf da manh para os velhos e lavar a gaiola do papagaio, personagem importante que alegrava a casa, um louro falador que acompanhava Jorge havia muitos anos. Durante nossa ausncia ele ficara aos cuidados de dona Eullia, que se afeioara  ave e at lhe mudara o nome. "Chamar um papagaio de Louro todo mundo chama", dizia ela, "nome mais bobo..." Batizou-o de Floro, "menos comum, fidalgo".
       Havia ainda uma hspede itinerante, Emlia Jacob David, Milu, amiga e conterrnea de seu Joo, sergipana de Estncia, solteirona por opo: "Tenho horror a homens... nojo!...", repetia exaltada, sempre que a provocavam, provocao que fazia parte das brincadeiras com Milu. Mulher de quarenta e tantos anos, uma fora da natureza, ela movimentava a casa ao surgir, ningum sabia de onde, nem para onde ia depois dos dias passados conosco. Sua vida era correr coxia. No dava trabalho a ningum,.se acomodava em qualquer canto, s vezes muito mal acomodada  por vontade prpria , procurava se alimentar com restos de comida "para no dar despesa". Verdadeiro furaco, sempre disposta a ajudar ou "colaborar", como gostava de dizer, na arrumao da casa  pagava assim sua estada , mas fazia questo de explicar: " S tiro o grosso, comigo nada de limpezas inteis., de luxos bestas..."
       Com a nossa chegada  Jorge, eu e as duas crianas , o aperto aumentou, Lisboa passou a dormir na sala de jantar, as trs crianas e uma empregada a dividir o mesmo quarto. Jos de Jesus continuou onde estava, mesmo no tendo que preparar mais o caf da manh, apenas cuidar do asseio da gaiola de Floro. "No tenho coragem de botar esse moleque na rua pra voltar a dormir em banco de praia...", desculpava-se o Coronel. Seu Joo no tinha corao para isso, tampouco ns, embora Jos de Jesus me atrapalhasse a vida, ocupando o nico quarto de empregada. Morou de favor em nossa casa durante ainda algum tempo e s partiu ao mudar de emprego e de cidade.
       Ao entrar no apartamento da Rodolfo Dantas, no mesmo dia da chegada, diretos do navio, recebi de dona Eullia as chaves do apartamento: "Esta casa  tua, minha filha, de teu marido e de teus filhos. Tome conta dela. Tu merece. Eu no me envolvo mais. J trabalhei muito na vida, aquele palacete me comeu as carnes..."
       Dona Eullia no perdia oportunidade de relembrar e queixar-se do trabalho que lhe dera o "palacete"  era assim que todos chamavam o sobrado construdo pelo Coronel em Ilhus, nos tempos das vacas gordas, quando o cacau era vendido a peso de ouro. Um casaro, construo e moblia das mais requintadas, o que havia de melhor na poca, vendido anos depois quando resolveram fixar residncia no Rio de Janeiro.
       Encargo difcil, pesado, cuidar daquele apartamento repleto, apertado, atender s crianas e aos velhos, atender ao vaivm de pessoas atrs de Jorge com problemas os mais diversos... mas, no havia escapatria, aceitei o "presente" e as honras, assumi o comando da casa. Que jeito?
       
       
       APARTAMENTO DE FUNDOS
       
       
       Nosso apartamento era de fundos e tinha seus encantos. Por um espao entre dois edifcios  esquerda, avistava-se a avenida Copacabana e, por coincidncia, podamos ver de nossa janela o apartamento de Joelson, irmo de Jorge, situado na movimentada artria. O lado direito dava para os fundos de edifcios da avenida Atlntica, moradias de gente de posse que, em dias de muito calor, ao abrirem as amplas janelas,  frente e atrs, nos ofereciam a vista da praia e do mar. Num desses prdios morava um pianista que tocava pela manh exerccios de vrias horas seguidas.
       Via-se de meu quarto, da janela quase sempre aberta de um apartamento,  esquerda, um enorme quadro, um nu. Assim, a distncia, dava a impresso de ser realmente uma mulher de carne e osso, mais carne do que osso. Esse quadro, certo dia, impressionou Vera, minha irm, ingnua e recatada, de passagem l por casa:
         Venha ver s, Zlia  chamou-me apontando o quadro, escandalizada , que mulher mais sem-vergonha! Fica junto da janela, se exibindo... Imagine s se Jorge v uma coisa dessas!... Voc j pensou?...
       Para sua grande surpresa eu lhe respondi:
         At que ele ia gostar...
         Gostar? No acredito... Aproveitei a ocasio para me divertir:
         Cuidado, Vera, no fique olhando, no! O homem se zanga!
         O homem? Que homem?...
       Inventei na hora uma histria: "Ali mora um pintor, uma fera, e a moa  modelo. A pobrezinha fica posando, parada, horas a fio, para ganhar um msero dinheirinho, seu sustento..!' Vera acreditou: "Profisso mais triste!... Deus me livre!" Com o passar dos dias, porm, depois de fiscalizar a janela em horas diferentes, ela chegou  concluso de que a irm no passava de uma boa gozadora. No gostou, com toda a razo.
       Bem em frente s janelas da sala, debaixo de nosso nariz, sobretudo de nossos ouvidos, havia o Beco das Garrafas, com entrada pela rua Duvivier. Quem visse esse beco durante o dia nem diria: verdadeiro jardim-de-infncia, crianas moradoras dos edifcios em redor brincando de roda, de amarelinha, de cabra-cega... jogos infantis em lugar adequado onde no entravam automveis.  noite, no entanto, a coisa mudava de figura. No beco funcionavam trs boates elegantes com shows de cantores da melhor qualidade. No Little Club, podia-se encontrar Dolores Duran interpretando composies de sua autoria, romnticas e doridas, com Ribamar ao piano. As outras duas costumavam apresentar intrpretes estrangeiros; eram o Bacar e o Arpge. Ou seria Ma Griffe? Nome de perfume francs, lembro-me. As trs boates encarreiradas no davam conta do recado, viviam sempre repletas de uma clientela assdua, homens e mulheres amantes de shows, de usques, de mulheres, de homens... Era muito comum chegarem de surpresa l em casa amigos de passagem para o beco. Foi o que aconteceu naquela noite quando apareceram, sem avisar, Eduardo Portella, Joo Conde e Antnio Maria comboiando Louis Malle, meteur-en-scne, um dos pais da nouvelle vague, que viera ao Brasil para a estria de seu filme Les Amants. Louis Malle completava 26 anos naquele dia, e eles pensavam comemorar a data no Little Club; acabaram comemorando em nosso apartamento. Ao saber do aniversrio do cineasta, no perdi tempo, fui  cozinha e voltei trazendo o bolo de puba que fizera para o caf da manh; espetara nele a nica vela que encontrara pela frente. Cantando parabns pra voc..., levei o bolo para o aniversariante. Lembro, como se fosse hoje, de sua surpresa e de quanto se emocionou.
       A elegncia e a qualidade dos artistas das boates no impediam, no entanto, os fuzus sucessivos no meio da noite, alvoroando Deus e o mundo. Acontecia despertarmos de madrugada com gritos, insultos e at tiros nos rififis do beco aonde mulheres iam surpreender os maridos com outras e maridos flagrar as mulheres com outros, desencadeando a pancadaria. Os vizinhos de cima, cansados da barulheira noturna, muniam-se de garrafas vazias e as atiravam sobre os beligerantes. Por isso o nome Beco das Garrafas.
       
       
       MILITANTE DO PARTIDO
       
       
       Militante do Partido Comunista, Jorge j no tinha tempo para escrever. Nem tempo nem cabea, sempre s voltas com reunies e tarefas partidrias, tarefas que o obrigavam, muitas vezes, a fazer viagens pelo Brasil e no estrangeiro.
       Eu tambm me ligara ao Partido, mesmo no sendo inscrita. Indisciplinada por natureza, nunca me inscrevi em partido algum, sempre prezei minha independncia e minha liberdade. Liberdade de pensar por minha cabea, dizer no ao que acho errado, aplaudir o que acho certo. Um exemplo: quando da eleio presidencial, em 1960,  qual concorriam Jnio Quadros e o Marechal Henrique Teixeira Lott, o Partido se empenhou na campanha a favor de Lott, e a palavra de ordem aos militantes era votar no Marechal. Ao receber a diretiva transmitida por Giocondo Dias, da direo do Partido, que fora l em casa conversar com Jorge, lhe disse com todas as letras que em Lott no votaria nem morta, jamais! Na vspera mesmo, ele estivera na televiso e dissera no querer votos de comunistas. No fosse por outra razo, esta j me bastava. Giocondo sorriu, no tentou me dissuadir. Creio at que ele, pessoa da maior dignidade, pensava como eu, mas era disciplinado e uma resoluo do Comit Central devia ser cumprida  risca, sem discusso.
       Eu trabalhava com prazer, no media sacrifcios, consciente de estar fazendo uma coisa certa, de estar ajudando a resolver os problemas de nosso povo sofrido ao lado de um Partido srio.
       Designada para a comisso de finanas, incumbncia das mais ingratas, eu a executava sem reclamar. Participava de reunies nas quais entregava o dinheiro da minha quota semanal.
       O Partido vivia de contribuies, de donativos, da renda de atividades culturais e de festas, da venda de objetos e obras de arte. As visitas de finanas eram feitas em geral por duas pessoas; minha companheira constante era Vitria Sampaio Lacerda, que no era inscrita no Partido, apenas solidria com o marido, Joo Felipe, antigo militante que tambm fazia parte de nosso grupo de finanas. Pessoa simptica e agradvel, Vitria e eu nos dvamos bem, juntas estudvamos as visitas a fazer, voltvamos de nossas andanas muitas vezes desanimadas mas, mesmo assim, no desistamos de recomear tudo no dia seguinte.
       Era duro e difcil conseguir-se dinheiro para um Partido ilegal, sobretudo para o Partido Comunista, e eu vivia dando tratos  bola, imaginando como cumprir minha quota.
       Em geral as pessoas com posses, que poderiam contribuir, no se dispunham a alimentar um Partido cuja linha era contrria aos seus princpios e aos seus interesses financeiros. No adiantava querer convenc-las a nos ajudar, esforo intil, no davam nada.
       Havia os que no desejavam a vitria do comunismo mas, como no acreditavam nela, contribuam com pequenas somas simplesmente por amabilidade, para atender a moas to simpticas, coitadas.
       Havia os que davam um dinheirinho com medo de... se por acaso... Esperando sempre que no houvesse nunca esse por acaso, que sua ajuda financeira no fosse pesar na balana, no fosse contribuir para a vitria da foice e do martelo. Mas, quem sabe?
       Em compensao, havia os que ajudavam por convico, com prazer, no medindo sacrifcios, e esses eram muitos. Mas a esses eu no procurava, pois j tinham quem deles se ocupasse. Por exemplo, Oscar Niemeyer, membro do Partido, era contribuinte cativo de Maria Barata, e mesmo sendo Oscar nosso amigo, nunca lhe toquei em assunto de dinheiro, respeitava os direitos de Maria.
       Embora me sentisse constrangida ao fazer essas visitas de finanas, distraa-me ao mesmo tempo estudando a reao de cada vtima, divertido estudo de psicloga amadora.
       Quando o dinheiro apertava, a comisso de finanas criava uma emulao entre os grupos e a as quotas aumentavam, iam parar l nas alturas, exigindo esforos ainda maiores dos estacanovistas.
       O Coronel Joo Amado se interessava e se divertia muito com as minhas proezas para conseguir dinheiro e, algumas vezes, ao ver-me aflita, me emprestava o que faltava para completar a quota, dinheiro sagrado que nunca deixei de devolver. Certa vez precisei recorrer  venda de um colar de mbar do qual gostava muito, para devolver o dinheiro ao velho. Mas disso ele nunca soube.
       Certa ocasio, a seu conselho, acompanhei-o a Pirangi, no sul da Bahia, onde possua uma fazenda de cacau. "Venha comigo, menina, l na roa tem muito coronel grado, tu pode dar boas facadas." O conselho deu certo, por incrvel que parea, consegui o prodgio de convencer alguns fazendeiros atrasados e reacionrios a contribuir para o Partido.
       Dessa viagem, quase levo para o Rio uma galinha de trs pernas  duas normais e a terceira pendurada atrs. Chegava gente de longe para ver o fenmeno, e isso me deu a idia de lev-la para o Rio e fazer uma financinha, colocando-a numa gaiola, cobrando entradas a quem quisesse v-la. Joo Jorge, que fora comigo, ficou eufrico, "...deixa comigo, me, eu tomo conta do negcio". O que dir Jorge, pensei, ao me ver chegar com uma galinha aleijada debaixo do brao? No! A maluquice era grande demais, acabei desistindo.
       Trouxe tanto dinheiro dessa viagem que, mesmo sem a ajuda da galinha, dobrei minha quota. Ganhei como premia um vale de 20 cruzeiros para retirar livros na livraria Vitria, que pertencia ao Partido, uma medalha e uma coleo de pequenos budas de marfim, recebidos numa das reunies festivas que eram realizadas para premiar os campees.
       
       
       VISITAS DE PESO
       
       
       A campe de nosso grupo era Maria Barata, mulher de Agildo Barata, tesoureiro do Partido, que vivia em semi-ilegalidade. Maria dedicava seu tempo ao trabalho de finanas, tarimbada e competente como ela s. Mulher sofrida mas corajosa, passara maus pedaos na mocidade com o marido encarcerado e um filho por criar. Anistiado em 1945, Agildo concorrera s eleies e fora eleito vereador pelo Rio de Janeiro, mas, com o retorno do Partido  ilegalidade em 1947, ele e os demais companheiros de direo voltaram a agir clandestinamente.
       O filho, Agildo Ribeiro, era a menina dos olhos da me. Desde pequeno, ao revelar seus dotes de artista, enchera-a de vaidade. O sucesso crescente do jovem ator em programas de televiso e teatro compensava-a dos maus momentos passados, o filho era seu orgulho, sua alegria e sua glria. Com Maria Barata fiz apenas duas visitas, duas visitas de peso, como ela costumava dizer.
       A primeira foi a Maria Gouveia, filha do clebre Delmiro Gouveia, da fbrica txtil de Pedras, em Paulo Afonso. Delmiro Gouveia deixara fama de liberal e progressista. Um pedido  sua filha, portanto, no era coisa descabida.
       amos cheias de esperanas ao apartamento da senhora, imaginando conseguir mundos e fundos. Chegamos depois do jantar,  hora combinada. Conversa vai, conversa vem, falou-se em assuntos os mais diversos, a anfitri, inteligente, esperta, sabendo do objetivo da visita, desviava caminho... Maria Barata tambm era esperta e, num dado momento, aproveitando uma brecha, entrou no assunto, buscou explicar que nosso trabalho se destinava exclusivamente  ajuda das famlias de presos polticos, famlias de companheiros na ilegalidade... Crianas precisando comer, precisando estudar... precisando de roupa... no pedamos dinheiro para fazer revoluo, nem pensar!...
       Eu no sentia necessidade de reforar to convincentes argumentos, colaborava emprestando apenas minha insignificante presena. Calada, assistia ao duelo entre as duas Marias e, por experincia prpria, aos poucos fui desanimando, perdendo a esperana. A adversria no se comovia! Ocorreu-me naquele momento uma expresso muito de minha me: "Deste mato no sai coelho."
       Os argumentos comoventes de Maria Barata, como eu previra, no convenceram, no amoleceram o corao, nem abriram a bolsa da dona da casa, que nos concedia a honra de visit-la e j era bastante.
       Samos tarde da noite daquele luxuoso apartamento em Copacabana, as mos abanando. Maria Gouveia sozinha fora mais competente do que ns duas juntas.
       
       
       VISITAMOS OS DUPR
       
       
       A segunda visita no tinha sido programada, aconteceu por acaso. Eu estava em So Paulo para ver meu filho, numa de minhas peridicas viagens de dois ou trs dias, e encontrei Maria Barata na rua: "Veja s que coincidncia... estava pensando em voc! Que bom ter te encontrado! Estou com uma visita marcada para hoje  noite, visita de peso, e voc  a pessoa indicada para me acompanhar." A visita de peso seria ao senhor e  senhora Leandro Dupr. "Visitar os Dupr?", perguntei admirada. "E voc acha que eles tm alguma simpatia pelo Partido?" Maria estava muito confiante, no contava apenas com a senhora Leandro Dupr  escritora de muito nome em So Paulo, seu livro de estria, ramos Seis, fizera sucesso junto ao pblico e aos crticos  mas, sobretudo, com esperanas no marido, o engenheiro dr. Leandro Dupr, homem conceituado e rico.
       Eu conhecia o casal pessoalmente, mas nunca me ocorrera fazer-lhes uma visita de finanas, coisa que jamais poderia passar por minha cabea, achava a idia absurda. Eles viviam noutro mundo que no o nosso, no deviam, certamente, se interessar pelos problemas do Partido Comunista. No quis, no entanto, desanimar Maria e, embora certa da inutilidade da empreitada, marquei encontro com ela para depois do jantar.
       Os Dupr moravam num sobrado rodeado de jardins. Receberam-nos com simpatia, embora admirados de me verem, pois no contavam com minha visita.
       Acomodadas numa luxuosa sala de visitas, a conversa se iniciou, conversa sobre literatura, o casal interessado, querendo saber dos projetos de Jorge, se estava escrevendo, querendo saber sobre a nossa estada no mundo socialista, sobre o movimento literrio nesses pases, assunto inesgotvel, uma conversa sem fim. Bons anfitries, nos ofereceram usque do melhor e, sempre atento, dr. Dupr no deixava que nossos copos esvaziassem, ia sempre completando a dose.
       O tempo passava e Maria Barata, inquieta, apenas ouvindo aquilo que ela devia considerar uma enfadonha lenga-lenga, sem futuro. Agoniada ela buscava, sem conseguir, entrar no assunto que a interessava, mas qual! No conseguia... Eu podia at estar enganada, mas tive a impresso clara de que o casal, ciente da inteno da mulher de Agildo Barata, ao que ela vinha, se divertia no lhe dando vaza, num jogo de gato e rato, procurando outras conversas com a mulher de Jorge Amado. Maria devia estar arrependida de ter me levado.
       L pelas tantas, depois de dois ou trs usques, Maria resolveu: consultou o relgio, ostensivamente, quase meia-noite, era demais, passara da conta! Encheu-se de coragem, mostrou sua competncia interrompendo uma conversa pelo meio e entrou de sola: "Bem, o motivo de nossa visita..." Falou com veemncia, como s ela sabia fazer, desfilou com maestria seus argumentos e suas pretenses. Comoveu a mim mas no comoveu nem convenceu o casal a comparecer com a soma que ela pedia. Nem com a que ela pedia nem com nenhuma.
       Ainda uma vez tnhamos perdido nosso precioso tempo, Maria gastara seu latim  toa. Minha presena no adiantara coisa alguma, s fizera atrapalhar, e samos do palacete dos Leandro Dupr com as mos vazias e mais uma triste experincia.
       
       
       A MOA DE CARUARU
       
       
       Tantos encargos a pesar em minhas costas, casa difcil de cuidar, difcil a labuta com as empregadas, uma pior do que a outra... Entre as vrias empregadas que passaram l por casa, Maria Jos merece destaque.
       Ao pedir-lhe referncias do ltimo emprego, ela no entendeu.
         Referncias? Nem sei o que  isso... mas se a senhora quer saber se costumo roubar, pode ficar descansada, madama. Nunca roubei em minha vida! Deus me livre! A senhora pode deixar solto por a, ouro de todo jeito... vai encontrar tudinho no mesmo lugar.
       Ao v-la quase ofendida com uma possvel desconfiana de minha parte, tentei tranqiliz-la, no era isso o que eu dissera... Mas ela voltou  carga:
         Olha aqui, madama, na minha famlia, graas a Deus, nunca teve ladro, nunca! Assassinos tem muitos! Mas ladro, de jeito nenhum  arrematou com orgulho.  Sou de Caruaru, terra de gente valente...
         De Caruaru?  me interessei lembrando que nossos amigos Elsio, Jos e Joo Conde eram de Caruaru.  Ento voc conhece a famlia Conde?
       Mana Jos espantou-se:
         Os Conde? Deus me livre! Gente importante demais! Gente fina, nunca nem cheguei perto...
       Mesmo sem referncias contratei a moa, ela me agradou, me inspirou confiana. Trabalhava bem, nunca roubou, como jurara, tampouco matou ningum embora de famlia de assassinos, como se vangloriara. Um dia, enquanto almovamos, o telefone tocou. "Atenda a, Maria Jos", gritou Jorge. Em seguida ouvimos uma gargalhada estrepitosa e ela reclamando: "Ah! No brinca, v! Diga seu nome direito..." Novas gargalhadas me fizeram sair da mesa, "o que  isso? O que  que est acontecendo?" Maria Jos continuava rindo: " um cara a querendo se divertir  minha custa, est dizendo que se chama 'ch de sanduche...'"
       Tomei-lhe o fone da mo. Do outro lado da linha, o fotgrafo Sacha Harnich desejava falar com Jorge.
       Dias depois, nosso amigo, o escritor Eduardo Portella, espirituoso como ele s, gozador inveterado, telefonou querendo falar com Jorge. Maria Jos atendeu:
         Doutor Jorge no est, saiu com dona Zlia.
         Voc tem certeza? Ser que ele no est escondido por a?
         No est, no senhor! Eu vi os dois saindo...
         Voc vai me fazer um favor  disse Eduardo , espie atrs da porta.
       Maria Jos largou o fone e espiou atrs de todas as portas.
         No est, no senhor, espiei atrs de cada uma...
         Ento ele deve estar debaixo da cama, v ver...
         Mas seu Eduardo Gomes  ela trocava o nome de Portella com o do ex-candidato  Presidncia da Repblica, Brigadeiro Eduardo Gomes, que, segundo ela, estivera uma vez em Caruaru , a cama  muito baixa...
         Muito baixa? Ora, muito baixa, com Jorge Amado nunca se sabe...
       Maria Jos suspirou, largou o fone novamente, ordens so ordens. Olhou debaixo da cama, nada, aproveitou para dar uma espiadela embaixo dos mveis, tambm nada, abriu a porta do refrigerador, quem sabe?, olhou de cima abaixo... s ento notou a presena de Paloma ali, em seus calcanhares  Paloma a acompanhara passo a passo nas buscas. "Espio tudo de vez, viu, Paloma?, pra fazer uma viagem s...", explicou-lhe Maria Jos. "Esse amigo de teu pai  desconfiado demais!"
       Um dia despedi Maria Jos no por sua xucrice s vezes at pitoresca e divertida mas porque, durante nossa ausncia, certa noite, trancou as crianas no quarto e foi fazer trottoir na avenida Atlntica. Maria Jos rodando bolsinha? Espantamo-nos: mal-ajambrada daquele jeito, sem dentes... Quem diria? O fato de andar caando homens na praia nos surpreendeu muito, mas deixar as crianas trancadas  chave nos indignou e nessa mesma noite a despachamos.
       
       
       A MOA DA BAHIA
       
       
       Ainda uma vez dona Zlia ia para o fogo, assumia os trabalhos pesados da casa at que outra ave rara casse do cu para substitu-la.
       Minha irm, Vera, estava morando no Rio com Paulo, seu marido, e Fbio, seu filho, e aparecia sempre para me dar uma ajuda, sobretudo com as crianas, levando-as a passear, acompanhando Paloma  aula de bale... Ainda bem que podia contar com minha irm, sempre contara. Em circunstncias difceis de minha vida, ela fora meu porto de arrimo.
       Felizmente, depois de muita consumio, conseguimos uma tima empregada, Roberta, vinda de Feira de Santana  cada do cu , mandada por um amigo, Joo Falco, homem rico e membro do Partido Comunista, da comisso de finanas, na Bahia (diga-se de passagem, com Joo Falco fiz algumas visitas de finanas, em Salvador, quando ainda no morvamos l).
       Sabendo o quanto necessitava de algum para me ajudar, Joo Falco conseguiu Roberta, pessoa de confiana e competente cozinheira, doutora em vatap e caruru, em frigideiras de toda a espcie, xinxim de galinha... um regalo! Ai, meu Deus! Eu no pedira tanto!
       Agora sim, me sentia aliviada, cabea fresca, tempo sobrando. Podia dar mais assistncia s crianas, cobrir minhas quotas semanais, cada vez mais altas, sem tanto sacrifcio. Francamente, eu j no estava dando conta do recado, pesado demais. No estava mesmo!
       
       
       SURTO DE POLIOMIELITE
       
       
       Jorge viajara para a Europa comboiando a delegao brasileira que participaria do Congresso Mundial da Paz, em Viena. Na comitiva, Maria Delia Costa e Sandro Polnio, Djanira e Vanja Orico, entre outros. De Viena iriam  Unio Sovitica, visitariam a Armnia.
       No quarto, sozinha, estranhei, ao acordar naquela manh de domingo, no ver Paloma ao meu lado, pois, desde que o pai viajara, logo cedo ela passava para a minha cama, se metia debaixo das cobertas, adorava curtir aquele finzinho de manh aconchegada  me. Por que no estava ali comigo? Certamente perdera a hora, dormira um pouco mais.
       Combinara com Joo e Janana irmos  praia nesse dia, antes que o sol esquentasse. Meu cunhado Joelson recomendara cuidado com as crianas pois no Hospital Jesus, onde era mdico, tinham aparecido nas ltimas semanas, diariamente, casos de poliomielite: "Sol at onze horas no mximo e evitar aglomeraes", repetia o doutor. Conosco iria a av Eullia, doida por uma praia, onde se divertia assistindo ao movimento dos banhistas e aproveitava para tomar banho de sol, bom para seu reumatismo. Ela costumava levar uma cadeirinha de armar onde sentava e, sem a menor cerimnia, ia tirando a blusa, ficando de combinao, levantando a saia para apanhar sol nos joelhos. No adiantava eu dizer que no ficava bem... "Ora veja! No fica bem... Qual  o mal que faz? Todo mundo pelado por a e eu to coberta..."
       Naquela manh de domingo, Joo e Janana, j de traje de banho, saltavam e corriam em algazarra, arrastando pela casa enormes ps-de-pato. Em seu bero, quietinha, rosto em chamas, Paloma parecia dormir. Pousei a mo em sua testa, tinia de febre. O jeito era chamar Joelson imediatamente; corri para o telefone, ele no estava, fora passar o fim de semana fora da cidade com Fanny e as crianas, a empregada no sabia onde, s voltariam  noite. Telefonei para um pediatra, colega de Joelson, ele tambm no se encontrava no Rio. Nem mesmo Lisboa, primo de Jorge, o estudante de medicina que morava l em casa, estava no Rio. Como de hbito, em caso de resfriados, dei-lhe uma aspirina esperando que a febre baixasse. Mas a febre no baixou e minha filha, largada, gemia baixinho. Sentei-me a seu lado e, atrada pela manchete alarmante do jornal, que acabara de chegar, alertando sobre o surto de poliomielite que invadia o Rio de Janeiro, tratei, ansiosa, de ler, me informar. Havia uma pgina inteira sobre o assunto. Alm de instrues preventivas, publicavam uma lista de informaes especficas, precisas, fornecida pelo Servio Nacional de Sade, sobre os primeiros sintomas da doena e quais as providncias a tomar. No havia dvida, no me enganava, os sintomas da terrvel doena estavam ali, no corpinho de minha Palomita... Sem Jorge a meu lado para dividir o sofrimento, tomar providncias, eu me sentia a mais infeliz das criaturas, a mais desamparada... Mas no ia me entregar, lutaria sozinha, havia de ter foras... Talvez at fosse bom Jorge no estar, ia sofrer, aquela filha era a sua paixo... Eu no tinha em casa nenhum dos medicamentos recomendados, mas os consegui por telefone numa farmcia de planto. Enquanto aguardava que os remdios chegassem, seguindo a recomendao do jornal, mergulhei Paloma, que se debatia com febre altssima, numa banheira de gua morna, quase fria. Durante o dia todo segui as instrues indicadas e, apenas a noite caiu, passei a vigiar atenta as janelas da casa de Joelson, que se viam do nosso apartamento,  espera de que ele chegasse. Por fim, j tarde, elas se iluminaram e eu o chamei. Em menos de meia hora, trs mdicos examinavam a menina: dois pediatras e um analista, Sidney Rezende, membro do Partido, homem abnegado, sempre pronto, a qualquer hora do dia ou da noite, atendendo na maioria das vezes sem cobrar nada. Trancados no quarto, os trs mdicos confabularam  meia-voz, para que eu no os ouvisse e no ficasse a par da triste realidade. Foi assim que interpretei o secreto cochichar dos doutores, o que me deixou ainda mais desesperada.
       Sidney saiu s pressas para abrir o laboratrio e fazer os exames necessrios. Quanto  medicao administrada por mim, nada foi acrescentado nem tirado, eu deveria continuar dando a terramicina na hora certa, controlando a temperatura, no deixando que ela passasse dos 40 graus.
       O dia j clareava quando, aps o segundo banho de imerso e com o efeito do antibitico, a febre cedeu, e s ento consegui adormecer. Acordei assustada com choros e gritos de Joo e Janana que se engalfinhavam, atracados em luta corporal: "Ela  minha irm!", berrava Joo. "Ela  minha prima, eu tambm tenho direito...", chorava Jana, desesperada... "Parem com isso, meninos!", reclamei, "deixem a irmzinha dormir sossegada..." Desolada, Janana explicava o motivo da briga: "Titia, Joo est dizendo que no vai me deixar empurrar o carrinho da paraltica!..." Carrinho da paraltica? O que teriam os dois ouvido? Fiquei doida, desesperada... Corri para o bero e pela milsima vez pousei a mo na testa de minha filha: estava fresca como uma rosa, j no havia febre, e ela dormia tranqilamente. Durante algum tempo vigiei minha menina dia e noite, a febre ia e voltava at que passou de vez e os mdicos lhe deram alta.
       
       
       
       CANDIDATO  POLIOMIELITE
       
       
       Paloma se recuperava, eu me recuperava do susto, j no haveria brigas para saber quem iria empurrar "o carrinho da paraltica" pois no havia mais paraltica  vista. Eu j podia at achar graa da disputa dos meninos que tanto me desesperara naquele momento de angstia.
       Joo e Janana haviam ido a um teatrinho de marionetes levados por Fbio, meu sobrinho, filho de Vera, rapaz timo, sempre atrs dos programas de cinemas e teatros que mais convinham s crianas, vocao de comunicador, conseguia sempre obter entradas mesmo quando as lotaes estavam esgotadas, como fora o caso desse domingo. No demoraram a voltar, Joo chegava carregado nos braos do primo. Com ar de moribundo, meu filho queixava-se de dores terrveis nas pernas, no conseguia ficar de p, quanto mais andar, no agentara nem esperar pelo fim do primeiro ato, ele que era doido pelo Joo-Minhoca...
       Ao ver meu filho naquele estado, me desesperei, ca em prantos. Nem mal comeava a respirar, pronto! Outro raio caa em minha cabea. Aflita, perguntei a Joo o que estava sentindo e, prontamente, ele respondeu: "Paralisia infantil."
       A resposta de Joo a se autodiagnosticar me tranqilizou, fiquei de pulga atrs da orelha, inclusive porque sua testa estava fresca, no havia sinal de febre, nem mesmo de um resfriado banal. Mas como as queixas continuavam, por via das dvidas, no hesitei em convocar meu cunhado e ouvir sua opinio.
       Estendido na cama, Janana ao lado, solidria, Joo aguardava a chegada do tio, que no se fez esperar e, prevenido, veio acompanhado de um colega e de Sidney Rezende, o abnegado analista. Os exames foram feitos e nada encontrado.
       Enquanto os doutores discutiam, procurando descobrir a origem das dores, resolvi dar minha penada, palpite de me que conhece seu filho, palpite de me que em geral  mal recebido pelos mdicos ou os faz rir. Desta vez me ouviram e no riram: "Por que no comentar diante do 'paciente' que se no houver melhora em 24 horas lhe daro uma boa injeo para resolver o assunto?" Eu sabia do horror que Joo tinha a injees, e o teste deu certo, foi tiro-e-queda: na manh seguinte, ele saltou lpido da cama, as dores e a "paralisia infantil" haviam sumido como que por encanto.
       
       
       AINDA UMA CANDIDATA
       
       
       Diz o provrbio que "no h dois sem trs", e chegara, pois, a vez de Janana adoecer. Amanhecera queixando-se de fortes dores no ventre, no suportava que se lhe tocasse. Tomou caf na cama e vomitou em seguida. James estava viajando, sem poder dar assistncia  filha, e eu novamente na aflio, desamparada. Joelson sara para o hospital e s apareceu depois do almoo. Como de hbito veio acompanhado, desta vez de dois colegas.
         Onde  que est doendo, Janinha?  perguntou Joelson.
         Est doendo aqui, tio...  apontava o lado esquerdo da barriguinha , di muito, tio...
       Ele tentou examin-la, mas no conseguiu, um grito da menina o fez recuar a mo.
         Por favor, tio... No toque, eu no agento... Aps confabularem, os mdicos chegaram  concluso
       de que se tratava de um caso de apendicite aguda. Chamaram imediatamente doutor Alcedo Coutinho, cirurgio competente, camarada de Partido, ele daria a ltima palavra. E l veio novamente Sidney Rezende para as devidas anlises caso fosse preciso operar de urgncia.
       Antes de ver a paciente, Alcedo foi inteirado da situao da criana, das dores insuportveis que sentia no ventre...
       Um verdadeiro leva-e-traz, Joo espichava o ouvido s conversas dos mdicos e saa correndo reportar tudo  prima: "Oba! Parece que voc vai ser operada!... O Alcedo j chegou."
       "Onde  que est doendo, minha filha? Aqui?" Alcedo calcou-lhe a barriga. "No...", respondeu ela, dengosa, deixando que o mdico comprimisse. O exame continuava, aperta aqui, calca ali, dobra a perna, estira a perna, Janana permitindo tudo sem reclamar, diante da perplexidade do tio, que acabara de relatar ao cirurgio um quadro inteiramente oposto daquele a que assistia. Desmoralizado, intrigado, Joelson resolveu, ele tambm, comprimir o ventre da sobrinha:
          aqui que est doendo, Janinha? Ou aqui?  apertava a barriga da menina, como um padeiro a amassar o po.
         No est doendo, no, tio...
         E o que  que voc est sentindo?  quis saber Alcedo.
         Fome... at agora no comi nada...
         Ora, Zlia  pilheriou Alcedo , voc quer matar essa menina de fome? V depressa dar comida a ela!...
       Sentada  mesa, Jana se banqueteou, estava mesmo com muita fome. A seu lado, Joo a observava, talvez com alguma esperana de que as dores voltassem e a pagodeira prosseguisse. Mas ele se enganava, dessa vez perdera a partida:
         Joo  perguntou-lhe a prima , quantos mdicos voc teve para tuas dores nas pernas?
         Trs  respondeu ele prontamente.
         Pois eu tive cinco... Dois a mais!
       
       
       CONFERENCISTA IMPROVISADA
       
       
       A rebordosa com as crianas, com Paloma principalmente, me afastara por bom tempo do trabalho de finanas do Partido, eu voltava novamente a ele sem saber por onde recomear, perdera a mo, me sentia meio aturdida. Como engrenar novamente?
       Um dia ocorreu-me a idia de fazer palestras cobrando entrada. Se o pessoal de meu grupo vivia promovendo recitais e conferncias, por que no fazer eu prpria uma palestra? Tinha muito o que contar dos anos vividos na Tchecoslovquia, das visitas  Unio Sovitica e aos pases de democracia popular. O assunto devia despertar interesse, pois, naquela poca, pouca gente podia viajar por aqueles mundos. Tratei de tocar avante meu projeto e, para que a renda fosse toda para a minha quota, sem ter que dividir, o que me livraria por algum tempo das cabulosas visitas, tratei de organizar tudo sozinha: consegui o local, um belo apartamento na avenida Atlntica, residncia de um mdico ilustre ligado ao Partido, dr. Mario Fabio; aluguei cadeiras, Roberta prepararia uns salgadinhos, os donos da casa ofereceriam refrescos. Fiz os convites, recebi o dinheiro das entradas e... dia e hora marcada, a sala cheia... fora e coragem, dona Zlia! Falei para uma assistncia de cerca de 40 pessoas, sem contar as da casa e as do Partido, que entraram sem pagar, inclusive Sidney Rezende, Alcedo e o pediatra que visitara as crianas, meus convidados especiais...
       No senti dificuldade ao enfrentar a platia, constituda em sua maioria de simpatizantes do Partido. Contei o que tinha a contar, lances de minhas experincias no mundo socialista, dando nfase,  claro,  parte positiva do que vira: assistncia social, estudos gratuitos, assistncia mdica, garantia de trabalho etc. Respondi, com sinceridade, a todas as perguntas que me fizeram sobre as restries nesses pases, a falta de democracia e de liberdade apregoadas pelos jornais do mundo capitalista, "reacionrios", dizia o pessoal do Partido. Faziam questo de frisar a palavra reacionrios, pois desejavam ouvir de minha boca a negao de tudo quanto diziam de mal dos pases socialistas os tais jornais "vendidos ao imperialismo americano". Ao contrrio do que esperavam, disse que realmente existia medo, medo de falar, de comprometer-se, explicando ao mesmo tempo que a necessidade de defender o socialismo de seus inimigos levava as pessoas a desconfiar umas das outras, a descobrir fantasmas e espies onde no existiam, causando um clima de mal-estar e insegurana... Da a concluso a que muitos chegavam de que no havia liberdade nem democracia por detrs da "cortina de ferro"  designao essa por si s pejorativa.
       Ao mostrar as contradies existentes no mundo socialista, eu buscava justificar as coisas ruins com desculpas que eu mesma aprendera nas lies do catecismo comunista com slogans que decorara: "A vigilncia e o controle empregados pelo Estado Socialista so necessrios  sobrevivncia do regime, vigilncia e controle traduzidos pelos inimigos como falta de democracia e de liberdade."
       A explicao sobre a necessidade da rigorosa vigilncia e de um controle permanente me fora repetida todas as vezes que no concordara com fatos que me pareciam inaceitveis e eu acabara aceitando, acreditara em tudo, pois desejara e precisara acreditar. Trazia dentro de mim, arraigado, o que em criana aprendera com meu pai.
       Se eu no acreditasse no socialismo, ento por que diabo estaria ali fazendo papel de palhao, a contar mentiras, a enganar os outros, a sacrificar meu tempo, a consumir minhas energias? Do Partido nunca esperamos  nem Jorge, nem eu  situaes de destaque, nem lucro de qualquer espcie.
       A notcia da minha pobre palestra chegou rapidamente aos ouvidos do tesoureiro do Partido: "Disseram que voc tem um bom papo... Vamos organizar outras palestras."
       Outras palestras foram programadas, em cuja organizao no tive que me envolver. Chegava na hora, quando tudo estava pronto, a sala cheia. A receita, claro, era dividida entre os promotores do ato. Agradava-me mais cumprir minhas quotas fazendo palestras, mesmo recebendo menos, do que andar pra cima e pra baixo, pedindo dinheiro a um e a outro... Acontece porm que com a nova fonte de renda minhas quotas aumentaram e eu acabei acumulando as duas funes.
       
       
       MEU PAI
       
       
       Com meu pai aprendi o que seria um mundo socialista, um mundo de paz, liberto de injustias, um mundo de fartura em que no mais existisse fome, um mundo de liberdade e democracia.
       Assim meu pai ensinava aos filhos. Contava-nos histrias verdadeiras  Lus Carlos Prestes, montado em seu cavalo, atravessando o Brasil  frente da herica coluna Prestes, foi o Robin Hood de minha infncia; a legendria figura de Stalin, com seus bigodes negros, representava, para a criana sonhadora que eu era, Aladim, a iluminar os destinos do mundo com sua lmpada maravilhosa.
       Meu pai morreu h 51 anos, aos 54 de idade. Deixou de ver tantas coisas terrveis, perdeu ver tantas coisas belas nesse meio sculo transcorrido. Coisas vistas e julgadas pelos olhos e pelo corao da fiel discpula, sua filha caula. Mas ele, o que teria ele pensado da bomba atmica e dessas guerras monstruosas a que assistimos pela televiso, guerras entre irmos a explodirem por toda parte? Que teria ele pensado dos crimes de Stalin, denunciados por Nikita Kruchov, em seu relatrio no XX Congresso do Partido Comunista da Unio Sovitica, em 1956? Teria ficado, como eu, perplexo e desencantado? E sobre a revoluo poltica que se desenrola hoje no mundo socialista? O que pensaria seu Ernesto? Pelo que o conheci, posso jurar que, como sua filha, ele continuaria apostando no socialismo, desconfiando cada vez mais dos idelogos e dos dirigentes, homens incompetentes e ambiciosos, responsveis pela deturpao do socialismo e o seu conseqente fracasso.
       
       
       
       
       
       BATE-PAPO NO MORRO DA CATACUMBA
       
       
       Alm das palestras a pagamento que eu realizava no Rio, em Niteri e at em So Paulo, deram-me outra tarefa, puramente poltica, sem relao com as finanas partidrias: a de catequizar favelados, moradores do morro da Catacumba. Misso mais maluca, pensei, mas v l! E l me ia, aos domingos  tarde, acompanhada de duas companheiras, uma delas mdica do Partido, jovem esforada, que no dia de seu descanso semanal dava assistncia ao povo carente das favelas, sobretudo a crianas, recrutando cada vez mais clientes novos e novos aderentes ao Partido. Doutora Yeda era muito querida pelos favelados, e sua companhia me dava uma certa segurana naquelas tardes de domingo, quando a cachaa corria solta e as brigas, nem se fala!
       Jorge no estava de acordo, no gostava dessas minhas idas  favela, achava uma besteira muito grande, tempo perdido, tarefa intil e arriscada; alm do mais, era o nico dia da semana de que dispnhamos para ficar em casa juntos ou nos reunirmos com amigos.
       Joo Jorge adorava essas idas  favela, e com ele pela mo eu subia o morro, atravessando becos entre biroscas de cachaa, despertando curiosidade, atraindo a meninada e cachorros leprentos que nos seguiam at o alto, onde alguns homens e mulheres nos aguardavam no lado de fora de seus barracos. Entre interessados e curiosos que chegavam e ficavam e os que espiavam e partiam, nunca falei para mais de 20 pessoas. Gente simples, cheia de boa vontade, mas que de poltica pouco ou nada entendia, muito menos de Unio Sovitica. Eu procurava falar-lhes com palavras simples, em sua linguagem, contando casos, dando exemplos para que me compreendessem. Prestavam muita ateno e, assim mesmo, no me parecia que aproveitassem muito.
       Num desses encontros, como de hbito, todo mundo sentado em caixotes vazios de madeira, um homem de meia-idade foi se aproximando, encostou-se numa janela aberta onde apoiou o brao. Ouvia atento o que eu dizia e de repente resolveu fazer uma pergunta, matar uma curiosidade: "... Diga l, moa, essa tal de Unio Sovitica fica em So Paulo?"
       Entre a dzia e meia de ouvintes, apenas uns poucos contiveram o riso, os demais no estranharam a pergunta, no acharam graa. Senti que esperavam minha resposta para terem o endereo do lugar to bom onde ningum passava necessidades. No fosse ele muito longe, talvez quem sabe, no seria o caso de darem uma chegada at l e se instalarem?...
       Falei a um responsvel do Partido e, felizmente, me dispensaram daquela pr-venda.
       
       
       APARTAMENTO NOVO
       
       
       J no suportvamos viver apertados naquele apartamento quando soubemos que o de cima estava  venda. Sem perda de tempo, seu Joo tratou de compr-lo, e ligamos o 704 ao 804 por uma escada em caracol, resolvendo assim o nosso problema. Os meninos j crescidos tiveram quartos separados; ns ficamos com o apartamento de baixo, reformado, nosso quarto, gabinete de trabalho para Jorge, um salo para receber e um bar.
       Em nosso edifcio moravam muitas crianas, quase todas regulando com a idade de nossos filhos. No mesmo stimo andar, num dos apartamentos de frente, moravam os Mazza, dois filhos, Heitor e Laerte, j crescidos. Laerte, o menor, s vezes participava das brincadeiras. No oitavo andar, em apartamento de frente, moravam os Fauro, casal romeno, cujo filho, Alain, era da idade de Joo; no sexto andar, abaixo do nosso, viviam os Myra y Lopez, Lilete e Emilio Myra y Lopez, grande e conhecido psiclogo, com os filhos Rafael, Nria e Emilito; os de cima eram os Guerra Moreira com dois filhos, Ana Lcia e Renato; ainda em cima os Castro Arajo com suas filhas Yete e Yara Mara; no segundo andar os irmos Roberto e Snia, de famlia italiana, e no ltimo andar seu Jos, o zelador, com seu filho Zeca. Crianas todas elas vivas e inteligentes que enturmavam s maravilhas com as nossas.
       S faltava a meu lado uma criana, e que falta me fazia! Meu filho Luiz Carlos morava em So Paulo. Durante cinco anos um oceano inteiro nos separara e agora, ao alcance de minhas mos, ele continuava distante. Consolava-me visit-lo, sempre que podia, e imagin-lo ao lado dos irmos a participar dos folguedos. Perguntava-me s vezes  pura curiosidade de me  se Luiz Carlos tambm teria a mesma mania da crianada do prdio, de s ouvir msica l nas alturas, quais as suas preferncias...
       O Papa-woom-mow, mow era na poca a msica quente, a de maior sucesso, a que fazia furor em meio  garotada. Na eletrola, a todo o vapor, o rock feria os ouvidos das pessoas da casa e os de toda a vizinhana. Felizmente ningum podia reclamar da barulheira, pois o problema era de todos. Acontecia ouvir-se ao mesmo tempo, saindo de vrias janelas, o mesmo famigerado "Papa woom..." num desencontro alucinante.
       Questo de honra entre os meninos era possuir discos de Sacha Distei e Neil Sedaka. Quanto s meninas do grupo, alm de apreciadoras dos ditos cantores e de suas msicas, eram cadas por Jean Sablon e suas melodias francesas e por Bat Masterson , heri de uma srie da televiso americana, um cow-boy gr-fino que andava sempre com uma bengalinha debaixo do brao e assobiava a introduo da msica de fundo do filme. Yete, a surpreendente Yete, das mais aplicadas da classe, que costumava estudar dentro do elevador sentada num banquinho, era a mais apaixonada de todas pelo gal  fazia seus deveres com o retrato do dito cujo em sua frente, um olho na matemtica, outro no bonito.
       A preferncia e o entusiasmo das garotas pelo cowboy da bengalinha provocavam despeito e cenas de cimes entre os meninos, que no lhe poupavam crticas tentando desmoraliz-lo, inventando histrias pouco viris a seu respeito. Tudo era motivo para divertimento, meninos sem vcios, muitas vezes bastante ingnuos.
       
       
       DONA ANGELINA, MINHA ME
       
       
       Dona Eullia e seu Joo viviam insistindo para que eu convidasse mame a passar uma temporada conosco. "Por que tu no convida a velhinha?" Mame completara sessenta e trs anos  pele fina, lisa, raros fios de cabelos brancos entremeados nos seus cabelos escuros , dez anos mais nova que dona Eullia e quatorze que seu Joo, mas eles a chamavam de velhinha.
       Agora eu podia traz-la ao Rio, j havia condies de hosped-la: tinha empregada competente e apartamento ampliado. Desde que voltramos da Europa esta seria a primeira vez que dona Angelina viria ao Rio. Sempre que eu ia a So Paulo visitar meu filho, passava para v-la na casa de minha irm Wanda, com quem mame morava desde que ficara viva. Em So Paulo viviam tambm meus irmos Remo e Tito. Mesmo rodeada de filhos, mame suspirava de saudades das duas filhas ausentes: Vera e eu. Ao chegar  sua porta recebia-me sempre com a mesma exclamao: "Veja s que coincidncia! Estava pensando em voc neste instante..."
       Mame no podia viajar to depressa quanto eu desejava, submetia-se a tratamento mdico, s voltas com uma artrite que a maltratava muito, dependia ainda de alguns exames a fazer.
       Finalmente, concludas as anlises, mame partiu para o Rio. Chegou carregada de remdios, comprimidos de no acabar, a serem tomados at a consulta seguinte. "Remdios caros  beca", queixava-se num suspiro, "e ainda bem que encontrei uma drogaria que vende mais barato do que qualquer outra..."
       Alm dos remdios e um presentinho para os netos, mame trouxera agulhas de croch e de tric, linhas e ls. No sabia ficar parada sem fazer nada, trabalhava o tempo todo, suportando com resignao e coragem as dores nas mos, provocadas pelo artritismo deformante, hereditrio. Admirava-se de dona Eullia no se dedicar a trabalhos manuais de nenhuma espcie, "coisa que distrai tanto...", e at ofereceu-se a ensin-la a fazer tric. Foi repelida com veemncia: "Deus me livre! J trabalhei muito na vida..." Dona Eullia preenchia seu tempo relendo romances antigos: A Dama das Camlias, Elvira, a Morta Virgem, Iracema, A Escrava Isaura e... os livros do filho, naturalmente! Passava horas esquecidas jogando baralho com o marido, estendidos os dois sobre as cobertas da cama fofa, em geral aps a soneca, depois do almoo.
       Agora, com visita em casa, havia mais distrao. Com a velhinha, dona Eullia se abria, batia papos sem fim. Ouvinte como dona Angelina  atenta e tmida  era coisa rara, e ela aproveitava a ocasio para sapecar-lhe histrias dos filhos. Uma sapecando, a outra s ouvindo. "Tua madona", mame tinha horror  palavra sogra, preferia falar madona em seu dialeto vneto, "conta cada uma, que s vendo! Me disse que os filhos dela quando eram pequenos faziam pipi perfumado... Pode ser uma coisa dessas?", perguntava-me, incrdula.
       O oposto da me de Jorge, minha me jamais elogiara um filho. Tinha pudor, achava feio gabar o que era seu, mas no criticava as pessoas que o faziam. Ouvindo interessada e admirada tais histrias, dona Angelina falava tambm de seus filhos porm com modstia, pois deles a seu ver no havia muito o que contar. Jamais se gabou de ser me de uma filha linda, habilidosa e inteligente, Wanda, a mais velha de suas trs meninas. Nem sequer falou nas qualidades de Tito, o filho predileto, prottico de profisso, com dotes artsticos no desenho e na pintura. Sobre Remo e Vera poderia contar muitos casos, exemplos de bondade e honradez. Mas s lhe ocorria falar na caula dos cinco filhos, Zlia, a que nascera com a estrela  como costumava dizer , coisa que no dava mrito nem  me e nem  filha pois, segundo ela, ter sorte na vida  apenas loteria. "Zlia  mesmo uma moa de sorte!", concordava dona Eullia. "Pra casar com um homem famoso como Jorge,  preciso mesmo nascer com uma boa estrela..." Corda solta, dona Eullia ia longe: "Jorge tambm sempre teve o que quis na vida, graas a Deus! Nasceu empelicado... a estrela de meu filho  mais forte do que a de sua filha, o meu escreve romances cada um mais bonito que o outro..." Dona Angelina concordava: " verdade, dona Eullia, o Jorge  mesmo um colosso!" Essas e outras conversas eu as ouvia de passagem, as apanhava no ar aos pedaos, e me divertia.
       De origem modesta, mame sempre gostara de boa leitura, embora quase no houvesse estudado. Preferia ler  noite, j deitada, a casa em silncio. Saboreava lentamente cada palavra. Tivera poucos meses de escola mas os aproveitara bem, escrevia-me cartas deliciosas, nas quais misturava o dialeto vneto e a lngua portuguesa, cartas cheias de esprito e de erros ortogrficos. Seu dirio, no qual escrevia  noite, antes de dormir, era a minha grande curiosidade, mas nunca consegui pr os olhos em cima, pois ela o trazia trancado a sete chaves, o recato a perseguia.
       A fraqueza de minha me, a maior de todas, era repetir provrbios que ela encaixava lindamente nos momentos exatos. De mame herdei o artritismo nas mos e uma infinidade de mximas, adgios de no acabar; ainda hoje os emprego, talvez mais do que o necessrio, mas no consigo deixar de faz-lo, dona Angelina  forte, me vigia, toca de leve em meu ombro e eu obedeo.
       
       
       AS PASTILHAS DE DONA ANGELINA
       
       
       Foi Joelson, orgulho e glria da me, quem aconselhou mandar os velhos, os trs, para Poos de Caldas. Uma temporada nessa estao de guas remoaria os pais e faria bem ao artritismo de dona Angelina.
       Segundo dona Eullia, Joelson estudara medicina a seu pedido, queria muito ter um filho mdico, pois, segundo ela, "mdico levanta o nome da famlia". Joelson nunca desmentiu nem confirmou a histria da me. Apenas ri quando o assunto vem  baila. Joelson e Fanny, com os trs filhos, Andr, Paulo e Roberto, moravam a dois passos de nossa casa, e quando Joca aparecia, o rosto da me se iluminava.
       A viagem seria no dia seguinte, mas j na vspera os velhos arrumavam as malas, a movimentao l em cima era grande. Subi para ver se precisavam de uma ajudinha. s voltas com seus remdios, mame separava os frascos das pastilhas  ela dizia pastilhas  quando um vidro que ela tentava abrir lhe escapuliu das mos e l se foram os comprimidos rolando pelo tapete, escondendo-se por debaixo dos mveis. Pressuroso, Joo Jorge atirou-se ao cho, "eu cato tudo num instante... deixa comigo..." Recolheu uma poro e, ato contnuo, correu para a janela e atirou-os fora. Sem tempo de impedi-lo, dona Angelina endoidou: "Menino, por que voc jogou fora as minhas pastilhas? Por que voc fez uma coisa dessas?" Surpreso com a reao da av, Joo Jorge se desculpava encabulado: "Tinham cado no cho, vov... Estavam sujas..." "Sujas? Ento este cho est sujo, menino? Cho mais limpo... quem mandou voc jogar elas fora?", repetia inconsolvel.
       Atrados pela discusso, dona Eullia e seu Joo apareceram, querendo saber o que se passava. Inteirados do assunto, riram de morrer da pobre velhinha, uma fera a lastimar o medicamento perdido, remdio que lhe custara os olhos da cara  como dizia e repetia , e o menino levado da breca o atirara pela janela...
       Tentando reparar o mal, Joo prontificou-se a descer  procura dos comprimidos que deviam ter cado no ptio interno do prdio, nos fundos do salo de cabeleireiro.
         Pois ento v, mas v rpido!  apressou-o a av. Debruando-se na janela, dona Eullia espiava para baixo:
         Estou vendo elas... as plulas esto l... branquinhas... Dona Eullia queixava-se de enxergar pouco e, no entanto, conseguia o milagre de localizar do oitavo andar os minsculos comprimidos l no trreo. Sempre debruada na janela, ao ver que o neto calava os sapatos para descer, virou-se para ele, avisando:
         Agora nem adianta ir, meu filho, os passarinhos comeram elas todas, venha ver... Espia aquele voando com uma no bico... Est vendo?
       Joo espiou e no viu nada, nem passarinho, nem plula. Nem ele viu, nem ningum... Saiu s pressas, s que em vez de ir catar o remdio foi, a meu pedido,  farmcia comprar um frasco das pastilhas para a av.
       
       
       SINAL VERDE PARA A PUBLICAO DE UM LIVRO
       
       
       Somente em 1954 foi publicado no Brasil Os Subterrneos da Liberdade, romance de Jorge, escrito na Tchecoslovquia, em 1951. Os originais do livro haviam sido entregues ao Partido para serem lidos pela direo, que desejava dar seu parecer antes da publicao.
       Tempos depois, os manuscritos voltaram s mos de Jorge com vrias observaes, algumas de ordem poltica e muitas de ordem moral, anotaes s margens das pginas, tais como "excesso de sexo etc". Ao ler tais anotaes, Jorge at achou graa e disse rindo: "Ao que tudo indica, trata-se de um camarada extremamente puritano..." e, obviamente, no modificou uma nica palavra. Ele, somente ele, era responsvel pelo que escrevia, norma que sempre seguiu sem dela jamais desviar-se. De Prestes, que tambm havia lido, nenhuma anotao, respeitava a liberdade do escritor.
       Desde 1946, Jorge no publicara nada. Seara Vermelha fora seu ltimo romance. Para um escritor que vive do trabalho literrio, ficar oito anos sem livro novo nas livrarias  um desastre, sobretudo no caso de Jorge, que passara cinco anos longe do Brasil; quem era doido de reeditar naquele perodo livros que podiam ser apreendidos, livros de um escritor perseguido e proibido?
       Nossas finanas andavam muito por baixo at a sada de Os Subterrneos..., lanamento que obteve grande sucesso. A primeira edio do livro, enorme e caro, esgotou-se em pouco tempo, novas edies foram aparecendo, e livros antigos aos poucos foram sendo reeditados, equilibrando assim nosso oramento.
       Das tradues estrangeiras, chegava de vez em quando uma ordem bancria de pagamento, dinheiro que, mesmo deduzidos os impostos, estrangeiros e brasileiros, ajudava bastante. No fosse isso, certamente no teramos podido comprar um pequeno apartamento no Hotel Quitandinha.
       
       
       MORTE DE STALIN
       
       
       O Coronel Joo Amado era homem madrugador. Acordava antes de todos e no perdia o primeiro noticirio do dia transmitido pelo rdio.
       Eu dormia profundamente quando fui despertada, seu Joo me chamando: "Zlia,  Zlia!" Acordei assustada, pois no era seu hbito bater em nossa porta... Jorge viajara na vspera, fora ao Chile com escala de um dia em Buenos Aires. Teria acontecido alguma coisa com ele? Antes que eu dissesse qualquer coisa, fiquei sabendo da notcia: "... O rdio deu ainda agorinha, Stalin morreu." Seu Joo estava visivelmente emocionado. Atrs dele chegou dona Eullia, com palavras para me consolar: "...O pobrezinho se foi, hein?" Quase acho graa, mas me contive. Com suas palavras simples e sinceras, dona Eullia me tirava do choque, quase me faz rir, mas aquele no era momento para risadas. Acontecia o que eu nunca desejaria que acontecesse. Pensei logo em Jorge, certamente j devia saber da notcia... triste como eu. Por onde andaria ele? Argentina ou Santiago? Como eu desejaria estar a seu lado naquele momento!
       Jorge fora ao Chile, representando o Conselho Mundial da Paz, para a preparao do Congresso Continental de Cultura, a realizar-se em Santiago.
       Naquele dia de amargura e dor, quem mais queria saber do paradeiro de Jorge era a direo do Partido, pois fora decidido incorpor-lo  delegao que iria a Moscou representar o Partido Comunista Brasileiro nos funerais de Stalin.
       Recebido no aeroporto de Santiago por Neruda e o escritor Voldia Teitelboim, da direo do Partido Chileno, ambos tristes e contritos, ambos rfos do pai que vinham de perder, Jorge, tambm contrito e rfo, recebeu das mos de Neruda um telegrama chegado do Brasil. Nem precisou abri-lo para desconfiar de quem era e a que vinha. Convocavam-no para assistir ao enterro de Stalin. Devia voltar incontinenti para o Rio e viajar em seguida para Moscou.
       Soubera do acontecimento ainda em Buenos Aires, pouco antes de embarcar para o Chile. A tarefa que o Partido lhe arranjara no lhe agradou nem um pouco. Chegava de uma cansativa viagem de avio, atravessara a cordilheira dos Andes, muito mais arriscada do que qualquer outra viagem, no seu entender, vo que mexia com seus nervos, e desta vez acrescido com o choque da morte de Stalin, que o abalara profundamente.
       Por que no mandavam outra pessoa em seu lugar? Por que ele? No havia nem mesmo condies para discutir. Militante disciplinado, o jeito era cumprir a ordem. Tratou de sair em busca da passagem de volta.
       No prprio aeroporto, Jorge e Neruda se informaram: no havia passagem nem avio grande de carreira que partisse naquele dia nem no dia seguinte para o Brasil.
       Metido num frgil aviozinho bimotor, que fazia escalas em Assuno, So Paulo e Rio, num vo de no sei quantas horas, Jorge embarcou de volta para o Brasil.
       Ao contrrio do que se podia imaginar, no houve funerais nem pompas e nem representaes estrangeiras nas exquias do chefe das naes soviticas, tudo fora estranhamente resolvido com grande rapidez.
       Fui esperar Jorge no aeroporto com recado da direo do Partido: suspensas as solenidades dos funerais de Stalin, a viagem para Moscou fora cancelada, Jorge estava dispensado da tarefa.
       
       
       GRACILIANO RAMOS
       
       
       Dedicado, emotivo, o melhor amigo de seus amigos, ao viajar para o Chile, Jorge se poupava de acompanhar os ltimos momentos de vida de Graciliano Ramos, seu amigo querido, escritor de sua maior admirao, a seu ver um mestre do romance contemporneo.
       Os mdicos o haviam desenganado, doena irreversvel levava Graciliano, a passos largos, para a sepultura.
       Visitvamos o velho Graa  velho aos 60 anos? Pois era assim que o tratavam os ntimos, com carinho  em sua casa, Helosa e os filhos sempre a seu lado dando-lhe fora e coragem, cada qual sofrendo sozinho, no seu canto. Visitar o amigo era um martrio para Jorge, voltava sempre arrasado, uma tristeza incontrolvel.
       Naquele incio de ms de maro, Graciliano fora transferido para o hospital, seus dias estavam contados.
       Antes de partir para o Chile Jorge me dissera: "Ao menos me poupo de assistir ao enterro..."
       Poupou-se do enterro de Stalin mas no do de Graciliano, que nos deixou, dias depois, a 20 de maro.
       
       
       CONGRESSO CONTINENTAL DE CULTURA
       
       
       Foi nesse mesmo ano de 1953, ano da morte de Stalin, que se realizou, em Santiago do Chile, o Congresso Continental de Cultura, sob a gide do Movimento Mundial dos Partidrios da Paz.
       Membro do Bureau do Conselho Mundial da Paz, na Europa, havia anos, Jorge era tambm um dos dirigentes do movimento dos partidrios da paz no Brasil, em cuja sede, no centro,  rua So Jos, reunia-se com outros dirigentes, dr. Valrio Konder, renomado mdico sanitarista, o engenheiro dr. Pita Pinheiro e o presidente nacional, ex-senador dr. Abel Chermont.
       Dessa vez eu iria com Jorge ao Chile e estava feliz. Essa escapada a Santiago ia ser uma beleza! Ao menos por uns 15 dias me veria livre dos encargos da casa, das tarefas partidrias, e, mais do que tudo, Jorge e eu teramos tempo de nos curtir, coisa difcil desde nossa chegada da Europa. amos ter a alegria de reencontrar velhos e queridos amigos vindos de vrias partes do mundo para o Congresso e que j haviam confirmado sua presena, uma festa! Podia inclusive partir tranqila, pois Vera, minha irm, cuidaria das crianas.
       
       
       CONGRESSOS INTERNACIONAIS
       
       
       Assisti em minha vida a muitos congressos internacionais, a colquios, fruns, seminrios, encontros de maior ou menor importncia. A alguns deles compareci acompanhando Jorge, apenas assisti s reunies. Em outros, convidada, participei de debates e apresentei comunicaes. Por experincia prpria, aprendi que a oportunidade do encontro de personalidades vindas de diversos recantos do mundo  o que de mais importante oferecem os congressos aos seus participantes. Os intervalos das sesses com as conversas animadas nos corredores so, creio eu, os momentos preferidos dos congressistas.
       Cansados das interminveis leituras de comunicaes e relatrios, nem sempre importantes e quase sempre maantes, ao primeiro aviso de que a sesso est suspensa para recomear em dez ou quinze minutos os congressistas precipitam-se para as portas, os que cochilavam despertam entusiasmados, os que estavam com o pensamento longe voltam a si e, rapidamente, corredores e halls ficam lotados, o bar quase inatingvel de to repleto. Se as cpias dos rapports apresentados na tribuna vo ser distribudas, antes ou depois de sua leitura, por que no os ler e analisar mais tarde, tranqilamente?
       Nos bastidores, durante os entreatos dos congressos, por ocasio do cafezinho restaurador ou nos coquetis, nos almoos e jantares que se seguem  quando se fazem articulaes, buscam-se solues, resolvem-se problemas. Nesses intervalos, d-se o encontro de velhos amigos e se renem pela primeira vez pessoas que se admiram a distncia sem nunca terem tido antes, no entanto, a oportunidade de um contato pessoal.
       Quantos amigos, alguns fraternos, Jorge no os encontrou pela primeira vez em salas de congressos? Anna Seghers, no Congresso Mundial dos Intelectuais pela Paz, em 1948, na Polnia, Paul Robeson no Congresso da Sala Pleyel, em 1949, em Paris, no Congresso do Pen Club, no Rio de Janeiro, em 1959 conheceu pessoalmente Graham Greene, por quem tinha grande admirao, e quantos e quantos mais... Disse e repito: para isso servem os congressos, para encontros e reencontros de amigos, para que escritores e artistas se conheam, se entrosem. No meu caso e no de Jorge, temos ganhado tantos amigos, dos melhores, na lida dos congressos, compensando o tempo perdido a ouvir certos oradores, alguns eloqentes, outros enfadonhos, uns e outros profissionais de tais reunies.
       
       
       AMIZADE SEM CONHECIMENTO PESSOAL
       
       
       Com Jorge acontece com freqncia fazer amigos antes mesmo de conhec-los pessoalmente. Esse o caso de sua amizade com Yashar Kemal, o romancista turco, de quem se considerava fraterno h longo tempo: s h dois anos veio a encontr-lo em Istambul.
       Manteve durante anos longas e animadas conversas telefnicas com Guimares Rosa sem no entanto jamais se terem visto, nunca terem se encontrado, embora morando na mesma cidade do Rio e Janeiro, em bairros vizinhos. Foi preciso que um dia Pedro Bloch, mdico e escritor, amigo fraterno de ambos, os reunisse num almoo em sua casa. Pedro Bloch no sabia que os dois convivas no se conheciam pessoalmente, assistiu com a maior surpresa aos abraos efusivos dos romancistas ao se verem pela primeira vez. Ao que tudo indica, nem Yashar Kemal, nem Guimares Rosa e nem Jorge Amado assistiam aos mesmos congressos.
       
       
       NERUDA NOS HOSPEDA
       
       
       Em Santiago, durante o Congresso Continental de Cultura, como espervamos, tivemos a alegria de rever velhos amigos. L estavam Nicols Guilln, nosso compadre Nicols, que no vamos desde a viagem  Monglia, Ren Depestre, de quem nos despedramos havia dois anos, na Tchecoslovquia, Alfredo Varela, companheiro de tantas viagens, Elvio Romero, o poeta paraguaio, a poetisa Antonieta Dias de Moraes, o poeta polons Jaroslaw Iwaszkiewicz, catlico de origem nobre, companheiro de mil e um congressos, representando o Conselho Mundial da Paz, entre outros.
       Pablo Neruda, anfitrio dos amigos em geral e nosso em particular, nos hospedou em sua casa, a casa de Los Guindos, a ns e ao grande muralista mexicano Diego Rivera. Jorge conhecera Rivera no Mxico havia muitos anos, mas eu o via pela primeira vez e, admiradora de sua arte, de seus murais espetaculares, me emocionara diante daquele homem de estatura gigante, gigante como sua obra. Impressionaram-me seus imensos olhos saltados, olhos de sapo, segundo sua prpria definio, "sapo rana".
       
       
       A CASA DE LOS GUINDOS
       
       
       Esparramada sobre um grande terreno plantado de rvores frutferas, uma longa parreira, alta, formando um caramancho, flores e arbustos, a casa de Los Guindos, trrea, fora sendo construda aos poucos, quarto aps quarto, invadindo o pomar. Nenhum requinte, nem conforto, apenas a graa da arrumao. A sala de refeies, grande para receber muita gente, o que era normal onde estivesse Pablo, ficava no fundo do jardim, e era preciso atravess-lo para chegar a ela, chovesse ou fizesse sol, ouvindo os gritos estridentes das araras trazidas do Brasil, que davam um toque tropical no verde do parque, com suas cores vibrantes. Logo  entrada da casa, um enorme aqurio com peixinhos coloridos, os mais belos e raros, era o primeiro impacto que o visitante recebia aps descer o alto degrau da porta principal.
       No grande salo fomos descobrindo, um por um, os objetos comprados por Pablo nas viagens que fizemos juntos. L estava a bola de cristal para ler o presente, o passado e o futuro, comprada no Brasil, "sin ella ya no puedo vivir", dissera o poeta diante da desconfortvel pea, grande e pesada, difcil de ser transportada, cermicas dos ndios carajs, o cavalo de gesso  "o autntico falsificado", como dizia Neruda  comprado na China, entre outros objetos trazidos pelo poeta, do mundo inteiro. Ao lado do corpo principal da casa, isolada, a sala, onde se encontravam, catalogados, colocados em vitrines, os caracis de Neruda, a famosa coleo de caracis, cada qual com sua histria, contadas com satisfao e uma certa ponta de vaidade por seu proprietrio, caracis conseguidos no decorrer de longos anos em plagas as mais distantes, s vezes comprados, outras ganhados e, em alguns casos, surrupiados...
       
       
       
       
       DELIA DEL CARRIL, LA HORMIGA
       
       
       Pablo Neruda apelidara sua mulher, Delia del Carril, de "Hormiga". "Por que formiga?", perguntei-lhe curiosa, um dia. Pablo riu: "Porque mepellizca, pellizcotezitos finos..."
       Pessoa adorvel, Delia vivia em funo do marido. Devia ter sido muito bela quando jovem, pois suas rugas no haviam conseguido apagar os traos finos e a suavidade de seu rosto. Mulher de fino trato, de famlia de latifundirios argentinos, Delia era a negao da dona-de-casa "ai, que soy burra para esas cosas...", costumava dizer quando precisava da ajuda de algum. E sempre havia algum para ajud-la. A casa vivia cheia de mulheres, jovens e maduras, num entra-e-sai, de manh  noite, adoradoras do poeta, a adivinhar-lhe os pensamentos, a saborear-lhe as palavras, a servi-lo de tudo que pudesse lhe dar prazer, sempre s ordens para colaborar nos jantares e almoos improvisados, levando pratos quentes, vinhos, guloseimas, frutas, queijos, doces... Muito paparicada tambm, Hormiguita pra c, Hormiguita pra l, Delia tratava a todas com carinho e no fazia cerimnia ao pedir-lhes favores, dando-lhes ordens, algumas vezes recrutando-as por telefone.
       Se Delia no sabia dirigir uma casa, em compensao era mestra em receber as pessoas, telefonar a um e outro, sempre com uma palavra amvel e um sorriso simptico convocava ou despachava "a clientela", "clientela" no dizer do poeta.
       Mulher sbia, la Hormiga no sentia cimes desse batalho de mulheres bonitas, bem-tratadas, inteligentes e elegantes. Sabia farejar o perigo e localiz-lo, explicou-me: "A mulher no deve se consumir  toa, criando fantasmas onde eles no existem, no deve se humilhar provocando cenas e atritos com o marido.  preciso usar de argcia, de tino, saber empregar o sexto sentido  e isso ns, mulheres, temos de sobra  para saber cortar rente, na hora exata, o que nos ameaa. As amigas de Pablo no me ameaam..." "E os pellizcotezitos finos, por qu? No seriam por cimes?", provoquei, um dia. "Ah! Para los pellizcotes ay su hora y su tiempo. Por veces se hacen necesarios." Hormiguita me dava conselhos. Bons conselhos.
       Quanto  casa, quem conduzia o leme era Laurita, irm de Pablo, discreta e competente.
       Somente depois de separar-se do marido, separao dolorosa para ambos, aos setenta e poucos anos, Delia del Carril comeou a pintar profissionalmente. Talvez j tivesse pintado antes, no sei. Morreu, aos 101 anos, pintora e gravadora consagrada.
       
       
       OS PEIXINHOS TM FOME
       
       J era tarde da noite quando chegamos em casa, depois de um jantar. Pablo e Delia deviam estar dormindo, pois a luz do aqurio estava apagada: era tarefa do dono da casa apagar as luzes todas as noites antes de deitar-se.
       Jorge iluminou o aqurio e observava os peixinhos que, atrados pela claridade, se alvoroavam de encontro ao vidro: "Zlia, corre aqui, venha ver... Os pobrezinhos esto morrendo de fome! Pablo esqueceu de dar comida a eles..."
       Enquanto eu observava os peixes, as boquinhas abrindo e fechando, como quem pede por caridade que lhes dem o que comer, Jorge desaparecera para voltar em seguida da cozinha trazendo uma fatia de po. Ato contnuo, atirou-a aos famintos, que num abrir e fechar de olhos a devoraram.
       "Est vendo?", entusiasmava-se Jorge, "de barriguinha cheia, eles vo dormir satisfeitos."
       De barriguinha cheia, mais cheia do que o necessrio, mortos, boiando, foi assim que Jos, o empregado que cuidava da limpeza do aqurio, os encontrou pela manh. No sobrara um para remdio.
       Despertamos logo cedo com o rudo de vozes pela casa, um movimento inusitado quela hora matutina. Das vozes que se ouviam destacava-se a de Pablo, normalmente arrastada, dolorosa, agora chegando quase ao pranto: "Mispescaditos, ai, todos muertos..."
       Sobre a morte dos peixinhos coloridos, lindos e raros, nada se comentou, no houve acusaes nem confisso. Para qu? Foi posta uma pedra em cima.
       
       
       A FEIJOADA
       
       
       Neruda apareceu na cozinha atrado pelo cheiro da feijoada que eu preparava no maior caldeiro da casa. Queria saber para quantas pessoas daria.
       Com o material que eu trouxera do Brasil: feijo-preto, carne-seca e paio e mais o complemento comprado l mesmo, lingia fresca e defumada, pezinhos de porco, orelhas e rabos, lotara um enorme caldeiro, o maior que havia na cozinha, e aquela era uma cozinha de panelas e caldeires grandes. Pablo convidara 20 pessoas, mas comeava a se inquietar: "...Nesta casa, comadre, nunca se sabe quem vem... h sempre gente chegando para comer... aumenta um pouco a tua feijoada..."
       Os amigos de Pablo e Delia no se reduziam apenas s mulheres j citadas, sem dvida em nmero superior ao dos homens. Pablo cultivava grandes amizades, velhos amigos dos tempos de juventude e novos e jovens amigos. Na casa de Los Guindos eram infalveis as presenas de Nicanor Parra, poeta de sua admirao, Rubem Azocar, romancista de sucesso, pessoa da intimidade e do carinho dos donos da casa, o jovem escritor Jorge Edward, em quem Pablo depositava grandes esperanas, Salvador Allende, o escritor Voldia Teitelboim, da direo do Partido Comunista Chileno, Angel Cruchaga de Santamara, poeta da velha guarda, amigo de toda a vida, casado com Albertina, prima de Pablo, inspiradora dos 20 Poemas de Amor e uma Cano Desesperada, escritos na poca da grande paixo. Pablo nos revelou o segredo, em voz baixa: "...Quando jovem era muito linda..." Ao ouvir essa declarao, tambm em voz baixa, Jorge me sussurrou: "No h quem possa acreditar!" '' verdade, no h quem diga...!", respondi.
       Todos esses amigos e mais os que foram convocados por Hormiga, como o caso de Naranjo, pessoa de estima do casal, que morava em Valparaiso e chegou  ltima hora... "No podria dejar de llamarlo, Pablo lo quiere tanto...", e Miguel Othero Silva, proprietrio do jornal La Nacin, em Caracas, escritor e poeta, apenas acabado de chegar a Santiago, que Ia Hormiga tambm no poderia deixar de chamar... "Pablo lo quiere tanto...", ela se desculpava ao ver-me aflita com a multido de uruguaios, argentinos, paraguaios, chilenos e brasileiros que invadiam a casa, convidados para o almoo. Felizmente, o caldeiro transbordante de feijoada fora mais do que suficiente para as cinqenta e tantas pessoas que se fartaram de comer. Ainda sobrou para o dia seguinte.
       
       
       O PEIXINHO DOURADO
       
       
       Quero contar ainda uma pequena histria de peixinhos e aqurios, no vou deixar Jorge sozinho com a fama de peixicida.
       A histria do peixinho dourado, Pablo gostava de contar, e eu a ouvi ainda uma vez no dia da feijoada, enquanto tomvamos "aguita caliente"  infuso com as mais diversas folhas aromticas, ao gosto de cada um  depois do almoo para ajudar a digesto, hbito salutar dos chilenos.
       O cuento que Pablo gostava de repetir passara-se no tempo de sua juventude, caso verdico, ocorrido em Santiago, nos tempos em que era hbito realizar-se saraus literrios em residncias particulares, onde os poetas liam suas poesias.
       Com Angel Cruchaga e outros amigos, Pablo costumava freqentar a casa de uma senhora muito rica, colecionadora de antigidades, pretensiosa e tola, que adorava a convivncia de jovens literatos  todos eles uns ps-rapados, sem um nquel no bolso , de receb-los, de matar-lhes a fome com as melhores iguarias e a sede com as melhores bebidas e, em troca, eles davam aos seus saraus literrios o status que repercutia na imprensa.
       Certa ocasio, ao regressar de uma viagem pelo mundo, a rica colecionadora os convocou para um jantar, queria mostrar-lhes a mais preciosa das antigidades, coisa rara e nica, que trouxera do Egito, uma surpresa.
       No centro do salo de festas, ela colocara um pedestal e em cima dele a surpresa se escondia sob um manto de velu-do vermelho.
       Enquanto o suspense era mantido, o usque escocs corria a rodo, espocava o champanhe... vinhos e licores...
       O tempo passava, a festa cada vez mais animada, a euforia se generalizava, quando a dona da casa anunciou que era chegado o grande momento. Pediu silncio, encaminhou-se para o meio do salo, retirou a manta de veludo que cobria o misterioso vulto e debaixo dela surgiu um rico aqurio de cristal onde nadava um peixinho dourado. Cheia de emoo, ela revelava o segredo:
        Este peixinho, meus amigos, pertenceu a Clepatra. Comprei-o no Egito, aqui est o certificado de garantia  brandia uma folha de papel escrita em rabe , custou-me uma fortuna...
       O discurso ainda no estava terminado quando Angel Cruchaga de Santamara, que chegara alto e mais alto ficara com os usques que emborcara, deu um passo  frente, como se quisesse examinar de perto a antigidade rara e... diante da perplexidade de todo mundo, meteu a mo no aqurio; com uma preciso espantosa, agarrou o peixinho pela cauda, levantou-o acima da cabea, soltou-o na boca, que o esperava aberta, engolindo de um trago o peixinho que pertencera a Clepatra, pelo qual a anfitri pagara uma pequena fortuna.
       
       
       
       
       A CASA DA ISL NEGRA
       
       
       Terminado o Congresso, movimentado como todos os congressos, com direito a comunicaes e relatrios, discursos e debates,  alegria de encontrar amigos, de participar de jantares e coquetis, partimos para a Isl Negra, em busca de repouso.
       Fazia muito frio e a casa construda sobre o mar era mida. Ao contrrio da residncia de Los Guindos, pouco abaixo do nvel da rua, esta da Isl Negra fora erguida sobre uma colina, a praia a seus ps. Casa de p-direito alto com fachada de vidro sobre o Pacfico, dava a impresso, a quem estivesse no grande salo, de estar sobre as ondas daquele mar bravio.
       Presa a um ngulo de madeira  como se continuasse na popa do barco de onde fora retirada , ocupava lugar de destaque belssima e enorme carranca, representada por uma escultura de corpo inteiro de mulher, uma gota d'gua a cair-lhe da ponta do nariz.
       Esta  Celeste  apresentou-nos Pablo:  a pobrezinha no se d bem com a umidade, vive sempre resfriada...  divertia-se.
       No salo enorme com lareira, ali tudo se passava, aconteciam os almoos e jantares, reunies ao p do fogo.
       Diego Rivera tambm, como ns, era hspede da casa, sempre repleta de amigos que chegavam e partiam s tantas da noite. Por vezes resolviam pernoitar, ocupando as camas do mezanino do salo. Rivera tinha fama de mentiroso, as histrias sobre seus cuentos eram de no acabar.  noite, aps o jantar, nos reunamos diante da lareira, nico lugar aquecido da casa.
       Dono da palavra, voz mansa, cadncia mexicana, melodiosa, Diego contava histrias mirabolantes, inacreditveis! Dentre tantas que ouvi de sua boca, descritas com riqueza de detalhes, a das aranhas foi a que mais me impressionou, jamais a esquecerei: as aranhas gigantescas viviam numa pequena aldeia mexicana e eram to grandes e civilizadas que em poca de inundaes transportavam em seu dorso as pessoas que precisavam atravessar as ruas. Essa era demais e fez todo mundo explodir de rir. Mais uma das de Diego, diziam  meia-voz.
       Eu aprendera, na convivncia com dona Eullia, a distinguir a fantasia da mentira. A princpio, quando a conheci, tambm a julguei mentirosa, mas acabei aprendendo que as histrias que me contava eram fruto de sua imaginao prodigiosa; o mesmo acontecia com Diego Rivera e costuma acontecer com as crianas.
       Encantavam-me os cuentos de Diego, e os ouvia atenta com a maior admirao, nem uma risadinha de incredulidade, como acontecia com os outros, pedia-lhe detalhes, pedia-lhe que continuasse, e ele continuava, orgulhoso de ter to assdua e interessada ouvinte. Ficou meu amigo, ofereceu-me alguns desenhos e prometeu fazer meu retrato logo que chegssemos de volta a Santiago, onde deixara pincis e tintas. " Voy hacer tu retrato, Celita." Esse retrato, que pena!, nunca foi feito, um telegrama urgente chamou o artista a seu pas quando ainda estvamos na Isl Negra.
       
       
       APARTAMENTO NO HOTEL QUITANDINHA
       
       
       Quem nos deu a pista e nos entusiasmou a comprar um apartamento no Hotel Quitandinha foi nossa amiga Glorinha, viva do escritor Cordeiro de Andrade, amigo de juventude de Jorge. Pessoa de grande energia, risada franca e contagiante, Glorinha possua um agudo tino comercial. Estava sempre s voltas com negcios, comprava e vendia, sabia onde pisava. Pois foi Glorinha quem descobriu os tais apartamentos  venda. Ela prpria comprara um por preo surpreendentemente baixo.
       O Hotel Quitandinha, em Petrpolis, imenso, requintado, majestoso, preparado para hospedar marajs e magnatas, construdo para ser o maior cassino da Amrica do Sul, aps a proibio do jogo no Brasil ficara na pior, um elefante branco. Quem poderia manter aquele hotel gigantesco, sem a presena do jogo? Depois de muito tempo s moscas, os proprietrios do hotel decidiram vender pequena parte de seus apartamentos a particulares.
       Havia ainda um  venda e Glorinha, sabendo que Jorge procurava um recanto tranqilo para trabalhar, tratou de nos avisar correndo: "Lugar mais silencioso do que o Quitandinha no existe. Aquilo  um verdadeiro tmulo! Para Jorge trabalhar no h coisa melhor. Vo por mim! No ganho um tosto nesse negcio!"
       Com Glorinha subimos a serra num domingo para ver a coisa de perto. No havia dvida, o apartamento era bonito, construo de primeira. Um dormitrio apenas, pequeno porm com todo o conforto, moblia da melhor qualidade, um terrao fechado fazendo parte do apartamento e outro enorme, com cantoneiras de flores,  disposio dos proprietrios daquela ala, tudo isso, inacreditvel!, por uma bagatela, 15.000,00 cruzeiros, se no me falha a memria, talvez menos. Nessa mesma tarde de domingo, resolvemos compr-lo.
       
       
       LUA-DE-MEL NO QUITANDINHA
       
       
       Joo Gilberto, o papa da bossa nova, estava noivo, trouxera Astrud, a noiva, para a conhecermos e dela ficamos igualmente amigos.
       O dia do casamento se aproximava, Joo Gilberto nos convidara para a cerimnia e fizera um pedido a Jorge. Desejava ser o primeiro da fila dos vrios casamentos que seriam realizados naquele dia, no cartrio de Anbal Machado, em Copacabana.
        Voc que conhece bem o Anbal, por favor, Jorge, pea a ele que me atenda logo, no quero ficar l esperando no meio de tanta gente...
       Jorge tomou do telefone e em menos de cinco minutos tudo ficou acertado. Primeiro na fila. Eu quis saber onde seria a lua-de-mel, e eles ainda no sabiam. Sugerimos que fossem para o nosso apartamento em Quitandinha, l teriam paz e privacidade. Nos vrios fins de semana passados l na serra, constatramos que os raros hspedes que perambulavam pelo hotel eram, na maioria, casais em lua-de-mel.
       Astrud e Joo ficaram de pensar e at decidirem Joo nos deu vrias telefonemas querendo saber detalhes sobre o apartamento e seu funcionamento. Chamava sempre a mim, no tinha coragem de incomodar Jorge com tais perguntas. Por fim decidiram aceitar nosso convite, passariam a lua-de-mel em Quitandinha.
       Agora, os telefonemas dirios de Joozinho j eram por outro assunto, estava querendo muito saber se iramos ao casamento:
         Claro que vamos!
         Mas Jorge vai mesmo?
         Vai, Joo!
         Posso contar com vocs?
         Claro que pode, Joo!
       At o dia do casamento as perguntas e as respostas se repetiram, idnticas:
         Vocs vo ao casamento?
         Claro que vamos, Joo...
       A cerimnia seria realizada ao meio-dia. Chegamos ao cartrio s 12 em ponto. Joo Gilberto nos esperava na porta, embaixo, o cartrio ficava no primeiro andar:
         Eu estava aflito, temendo que no viessem... Achamos graa, e Jorge perguntou:
         ...e ns somos to indispensveis assim?... Encabulado, Joo disse:
         ... que vocs vo ser meus padrinhos de casamento... Antes de viajarem para Petrpolis, depois do almoo na casa dos pais de Astrud, Joozinho me pediu um favor: "Quero que voc telefone ao Vincius e diga que no fiquei magoado com ele por no ter vindo ao casamento. Sei que ele acorda tarde, perdeu a hora e agora deve estar morrendo de remorsos... Diga a ele que no tenha remorsos... Eu entendo..." Ao telefonar para Vincius de Moraes, a primeira coisa que ele me disse foi: "...Acordei tarde, estou morrendo de remorsos!"
       
       
       GLUBER ROCHA
       
       
       Nosso apartamento no Quitandinha serviu  lua-de-mel de vrios casais amigos nossos. Astrud e Joo Gilberto iniciaram a srie. Seguiu-se a lua-de-mel de Helena Ins e Gluber Rocha. A lua-de-mel do cineasta e da atriz, apenas comeou l na serra. Gluber adoeceu e o casal voltou em seguida para o Rio. Continuaram nossos hspedes no apartamento da Rodolfo Dantas e l permaneceram at o restabelecimento de Gluber, ocupando nosso quarto e nossa cama, pois na ocasio Jorge se encontrava em viagem.          
       Ainda dois casais ocuparam nosso apartamento no Quitandinha, em sua lua-de-mel: Snia e Gilberbert Chaves, arquiteto baiano que construiu nossa casa na Bahia, e o jornalista Mauritnio Meira e Angela, que viriam a ser compadres de Jorge.
       
       
       NERUDA COMPLETA 50 ANOS  JULHO DE 1954
       
       
       A festa do aniversrio de Neruda prometia ser boa. Ao mesmo tempo em que comemorava seus 50 anos, ele iria receber das mos de Ilya Ehremburg, vindo de Moscou especialmente para isso, o diploma, a medalha e o cheque do prmio Stalin que lhe fora outorgado havia meses. Ilya chegaria com Luba, sua mulher.
       Desta vez nos hospedramos na casa de Salvador Allende, que se encontrava ausente com a famlia, viajando no estrangeiro, e a deixara  nossa disposio. Na casa de Los Guindos ficaram hospedados Ehremburg e Luba; l estariam mais resguardados, pois tambm no Chile, como no Brasil, havia a caa aos comunistas, e os soviticos l no tinham vez. Todo o cuidado com to preciosos hspedes era pouco e, mesmo assim, certa noite, um grupo anticomunista jogou uma bomba no jardim da casa. No houve danos maiores, apenas as vidraas das janelas partidas e o susto.
       A festa de Pablo assumira propores enormes, chegavam a toda hora delegaes de vrias partes do mundo, um verdadeiro encontro de personalidades, ainda mais importante do que o Congresso a que assistramos havia um ano. Faziam parte da delegao chinesa, entre outros, o poeta Emi Siao, amigo queridssimo, que vivera com sua famlia, ao mesmo tempo que ns, no castelo de Dobris, na Tchecoslovquia, e ainda outra pessoa de nossa estima, Liu, nosso acompanhante e intrprete na China.
       A delegao chinesa trouxera para o aniversariante caixas e mais caixas de presentes, mas, ao desembarcarem em Santiago, no aeroporto, tudo fora apreendido pela alfndega. Pablo se virar para liberar os caixotes. Imaginava encontrar dentro deles presentes lindos, coisas raras, objetos que o haviam encantado em suas viagens  China e no pudera comprar. Sua esperana era Ku, seu intrprete em Pequim, tambm integrante da delegao vinda ao Chile. Ku devia lembrar das coisas que haviam encantado Pablo em Pequim e soprado ao ouvido do responsvel pelos presentes na hora da escolha. "Ai, ser que ele lembrou da telha de porcelana? Era to linda, a ponta para cima e sobre ela una esculturita... verde e amarela...", sonhava o poeta.
       Depois de vrios trmites, fala com um, fala com outro, com ministros e deputados, Neruda conseguiu autorizao para retirar os volumes da alfndega, que deveriam ser abertos na presena dos chineses e dele prprio, s nove horas da manh.
       
       
       
       
       
       EXCESSO DE CULTURA
       
       
       Buzinas de automvel tocavam com insistncia debaixo de nossa janela e a voz de Pablo nos chamava. Voltava da alfndega  ele pronunciava alfndega, achava a palavra linda  com seu carro cheio de caixas e, alm do seu, mais dois automveis de amigos o acompanhavam para ajud-lo no transporte das prendas. Corremos para o balco, curiosssimos: "Que tal?", perguntou Jorge, animado.
       De p, no meio da rua, largos gestos, Pablo dizia: "Todo cultural, compadre! Todo cultural!", repetiu sem conseguir disfarar a decepo.
       Os caixotes continham muitos livros em chins, todos autografados, alguns livros de arte sobre vrias pocas, sobre todas as dinastias... Telha de porcelana verde e amarela que  bom, neca, nem pensar! Nem telha nem nenhum objeto com que sonhara. "Todo cultural!"
       
       
       ENCONTRO COM O MAR
       
       
       Kuchvlek, nosso amigo tcheco, e o escritor Jan Drda, Presidente da Unio de Escritores Tchecos, amigos lembrados todos os dias, e ainda um poeta eslovaco vieram da Tchecoslovquia para as festas dos 50 anos de Pablo.
       O nome de Pablo Neruda, prmio Stalin e a ida do escritor sovitico Ehremburg ao Chile haviam facilitado, tornado possvel a sada dos intelectuais tchecos de seu pas para uma viagem ao mundo capitalista. Havia tantos anos que Kuchvlek vivia de gua na boca por uma viagenzinha... Os festejos do aniversrio se estenderam pela Isl Negra, tchecos e chineses deslumbrados.
       No posso esquecer o susto que Kuchvlek e Drda nos pregaram ao chegarmos  praia! Extasiados diante do mar, como se o vissem pela primeira vez, esqueceram que estvamos em pleno inverno e que o vento frio soprava forte, castigando. Recuperados do impacto desse primeiro encontro com o Oceano Pacfico, sem dizer uma nica palavra, sem dar-nos tempo para impedi-los, comearam rapidamente a despir-se, na praia mesmo, primeiro o sobretudo, que atiraram  areia mida, depois o palet, a camisa, a cala e, de cuecas, diante dos amigos perplexos, mergulharam de cabea nas furiosas e glidas ondas do mar, para sarem em seguida roxos e enregelados. Fizeram o que tinham vontade de fazer, to bom...
       
       
       UM BANQUETE IMPROVISADO
       
       
       No dia, alis na noite em que atiraram a bomba na casa de Neruda, todo mundo havia sado, Ehremburg no aceitara o convite para jantar em casa de amigos de Pablo, preferira ficar conosco batendo papo. Somente Jos, o empregado que assumia vrias funes da casa, de jardineiro a garom, ficara de guardio. Foi ele quem nos telefonou assustado, a bomba explodira no jardim... estava apavorado, no conseguia localizar don Pablo, no tinha o telefone...
       Neruda conseguira organizar todo aquele movimento em torno de seu aniversrio e, sobretudo, da entrega do prmio Stalin, sem nenhum apoio do governo, ao contrrio, era boicotado, s portas oficiais estavam fechadas para ele. A muito custo obtivera o apoio do Reitor que pusera o salo da Reitoria  disposio para a solenidade da entrega do prmio.
       No sendo persona grata do governo, Neruda conseguira,  custa de seu esforo pessoal e da ajuda de inmeros e fiis amigos, colocar de p aquela festa e reunir em Santiago tantas e tais personalidades de renome internacional. Realizava, mesmo indiretamente, um movimento poltico.
       Diante do atentado a bomba, Jorge fora de opinio de que os Ehremburg no deviam voltar a Los Guindos. A provocao poderia ser repetida com maior intensidade, no havia segurana.
       Tnhamos combinado jantar num bom restaurante mas, diante dos acontecimentos, decidimos fazer a ceia mesmo em nossa casa, isto , na casa de Salvador Allende. Jorge saiu em busca do que melhor encontrasse para comprar e voltou carregado de tudo quanto era bom, a comear pelas maravilhosas e reputadas ostras chilenas, salmo defumado, presunto, queijos, mil coisas... Comprou os melhores vinhos. J que no poderamos retribuir em nossa casa, no Brasil, os inmeros jantares e almoos que os Ehremburg nos ofereciam em Moscou e a hospitalidade em sua datcha, em Nova Jerusalm, ao menos queramos oferecer-lhes um opparo jantar chileno.
       Banquetevamo-nos, j quase esquecidos da bomba, quando apareceu Neruda todo afobado. Havia providenciado segurana para a casa, bem guardados os hspedes poderiam dormir tranqilos.
       Surpreso e encantado diante da mesa farta, no resistiu, sentou-se e participou da ceia com o maior prazer. Saram tarde da noite, nada como um bom vinho para fazer esquecer bombas a explodir.
       
       
       AEROPORTO DO GALEO
       
       
       Ehremburg tinha muita vontade de conhecer o Brasil e essa era a oportunidade, poderia parar no Rio de Janeiro, na volta de Santiago, onde o avio fazia escala. Havia apenas um problema, e grande: conseguir visto de entrada no pas. A situao no Brasil andava crtica, convulsa, todo mundo tenso, a crise poltica crescia, Vargas atacado sem trguas por seus inimigos, encurralado, acabaria encontrando uma nica sada: o suicdio.
       Antes de viajarmos para Santiago, Jorge fora direto aos altos escales do governo a fim de pleitear vistos para os Ehremburg. Procurara o Ministro Oswaldo Aranha, a quem conhecia pessoalmente, pedindo-lhe sua interveno junto ao Presidente. Consultado, Vargas lamentara no poder atender ao pedido, era admirador de Ilya Ehremburg, fora leitor assduo de suas crnicas, escritas no front, durante a ltima guerra, mas, na situao em que se encontrava, mal podendo manter-se no poder, diante do crescimento da campanha para dep-lo antes da realizao de novas eleies, um golpe de Estado em preparao... Lamentavelmente no podia autorizar a entrada do escritor sovitico no pas. Um visto para Ehremburg poderia ser a gota d'gua de que necessitavam seus adversrios. Oswaldo Aranha lastimou, mas de fato o Presidente tinha razo, no podia. Alis, Getlio se suicidaria dias depois da passagem de llya e Luba pelo aeroporto do Rio.
       
       
       PASSAGEIROS EM TRNSITO
       
       
       A cesta estava pesada: jaca, mangas, carambolas, banana  ma e banana-prata  verdes para agentar a viagem , frutas que Ehremburg conhecia de literatura, nunca as tinha visto nem provado. amos ao seu encontro no aeroporto do Galeo, em sua escala para a Europa. Levvamos tambm mudas de caf e de cacau para serem plantadas na estufa de sua datcha, a cem quilmetros de Moscou.
       Jorge conseguira autorizao para entrarmos na sala reservada aos passageiros em trnsito. A demora dos Ehremburg no Rio estava prevista para uma hora mais ou menos. "Tragam Paloma, quero muito v-la, deve estar uma senhorita", recomendara o padrinho Ilya ao saber que iramos v-los no aeroporto.
       Se Jorge no tinha conseguido visto de entrada para Ilya, ao menos conseguira, com seu prestgio junto aos funcionrios do aeroporto, que, no velho estilo do "d-se um jeitinho", colocassem a enorme cesta de frutas e plantas no avio que levaria os soviticos  Europa e, ainda mais: alm de Jorge, o nico autorizado, fizeram entrar na sala privada a caravana de jornalistas e amigos que o acompanhavam.
       Ehremburg no via Paloma desde o seu batizado, na Tchecoslovquia, quando ainda bebezinha. Agora, como ele dizia, estava com uma moa de dois anos, cabelos longos e loiros, sentada em seus joelhos, a olh-lo com curiosidade e timidez.
       
       	
       O DESTINO DAS FRUTAS E PLANTAS
       
       
       Sobre o destino das frutas fomos sabendo aos poucos; da jaca com seu perfume doce e penetrante invadindo o avio sem que ningum conseguisse descobrir de onde vinha; do susto que Lida  a empregada russa  levou ao ver a fruta enorme e espinhenta sobre a mesa, pensando tratar-se de um animal; das mudas de cacau indo parar no Jardim Botnico de Moscou, assim como as de jaca, nascidas dos caroos plantados por Ilya; das mudas de caf florescendo e dando frutos, assuntos de longas cartas cheias de detalhes e de humor recebidas no correr dos anos.
       
       
       PERSONAS GRATAS
       
       
       Pilheriavam com Jan Drda e Kuchvlek, que haviam obtido visto para virem ao Brasil, chamando-os de personas gratas. O visto lhes fora concedido ainda na Tchecoslovquia, no havia por que negar-lhes, pois os dois pases mantinham relaes diplomticas.
       Ficramos tristes e desapontados ao vermos Ilya e Luba partirem, proibidos de pisarem em nossa terra. Agora teramos ao menos a satisfao de acolher nossos amigos tchecos, que deviam chegar a qualquer momento.
       Drda e Kuchvlek chegaram a tempo de assistir, atnitos, s escaramuas e ao quebra-quebra nas ruas do Rio de Janeiro, o povo revoltado, exaltado, triste com o suicdio de Getlio Vargas, pedindo vingana.
       
       
       ELEIO DE JUSCELINO KUBITSCHEK
       
       
       Naquele ano de 1955 seriam realizadas, no Brasil, eleies presidenciais. No suportando a carga e a presso movidas contra ele e seu governo havia um ano, Getlio Vargas se suicidara. As mesmas foras polticas responsveis pelo gesto extremo do Chefe da Nao atiravam-se  luta para tomar o poder, tendo  frente, como candidato  Presidncia da Repblica, o General Juarez Tvora, apoiado por foras conservadoras. O outro pretendente ao Catete era Juscelino Kubitschek de Oliveira, ex-Governador de Minas Gerais, que, por sua tradio democrtica, era o candidato apoiado por liberais e democratas e pelos comunistas.
       No trreo de nosso edifcio, em loja ainda no habitada, fora instalado um comit feminino pr-Juscelino, dirigido por senhoras de destaque na sociedade de Minas Gerais, o Comit Sarah Kubitschek. Nos momentos de folga, em geral  noite, 
       discretamente, eu aparecia por l, ia dar uma ajudinha de livre e espontnea vontade, no era tarefa de partido nem eu fora convidada, ia de oferecida. Juscelino era meu candidato, confiava nele, motivo mais do que suficiente para sentir necessidade de ajudar de qualquer maneira sua campanha, dava-me prazer. Terminados os deveres de escola, Joo Jorge tambm descia e com o maior entusiasmo tomava iniciativas, saindo a distribuir volantes a quem passasse na rua, a colar cartazes nos postes e nas paredes...
       
       
       "JUAREZ ESTUPIDEZ"
       
       
       Um dia fui chamada ao Colgio Brasileiro de Almeida, onde Joo estudava. Sentada no gabinete da Diretora, encontrava-se uma senhora, ainda jovem, cara amarrada. Era a me de um menino com quem Joo se engalfinhara, trocando murros e arranhes. Inocente sobre o motivo da convocao, eu estava curiosa. Alis, no estava de todo inocente, pois na vspera Joo chegara do colgio com uns arranhes no rosto e nos braos e me dissera que fora obra de um Juarez. "De um Juarez? O menino se chama Juarez?" Me fiz de desentendida. "No, me,  como eu chamo ele: Juarez estupidez!" Achei graa, mas no ri.
       A outra me no achara nenhuma graa ao ver o filho chegar da escola todo arranhado e estava ali a fim de exigir a expulso do agressor, moleque sem educao, juscelinista-comunista.
       A Diretora estava reticente, sem saber como sair-se do impasse. Por fim resolveu tomar partido do outro menino, buscando explicar que Joo desobedecera ordens, levando cartazes de Juscelino para a escola e os colara no ptio do colgio. O outro, seu adversrio poltico, os arrancara e os destrura, sendo por isso agredido e, agredido, revidara, apenas se defendera.
         Coisas de crianas  justifiquei , meu filho tambm chegou em casa todo arranhado  eu no vim reclamar...
         A diferena  interrompeu a outra me toda exaltada   que meu filho arranhou o seu com decncia, como um Juarez, mas seu filho atacou o meu com a maior violncia, arranhou e at mordeu, mordeu como um comunista, um verdadeiro Juscelino...
       Tive at vontade de rir, ao v-la arregalar os olhos, escancarar a boca e mostrar os dentes para ilustrar a maneira como Joo havia mordido seu filho, cena cmica demais.
       A jovem me no parava de falar, punha sua indignao para fora: "...E ainda por cima ele tem a audcia de chamar Carlos Eduardo de Juarez Estupidez." Voltou-se para a Diretora: "Se esse comunistinha continuar neste colgio o meu filho sai."
       Eu s esperava o veredicto da Diretora, veredicto que, estava na cara, condenava Joo, j que ela prpria  todo mundo sabia  era partidria de Juarez.
         Seu filho  sentenciou a Diretora, por fim  poder continuar no colgio com uma condio: fica proibido de fazer propaganda poltica, de trazer cartazes e panfletos para dentro do colgio.
       Medida justa e razovel, no tivesse eu visto, ao entrar na escola, cartazes de Juarez Tvora colados em paredes internas e panfletos com seu retrato espalhados pelo cho. Achei tambm justo e razovel fazer uma pergunta:
         Essa  uma lei s para o meu filho ou ela  vlida tambm para os alunos adeptos do General?
       A Diretora no gostou da minha petulncia e tentou defender sua posio:
         Seu filho, me desculpe, no  apenas poltico, ele  um juscelinista fantico, um revolucionrio!
       Juscelinista fantico? Talvez. Porm revolucionria uma criana de apenas oito anos? Essa no! Tenha pacincia! O que acontecia com meu filho naquele momento estava acontecendo em geral com os filhos de todo mundo, meninos e meninas do Brasil, que participavam da campanha eleitoral, uns mais entusiastas e impetuosos, outros menos, mas todos repetindo nas ruas e nas escolas o que ouviam em casa, reportando o pensamento dos pais. Apenas isso, normal e lgico.
       Minha pacincia tinha limites e se esgotara, eu no estava disposta a ouvir mais desaforos da outra me prestes a disparar nova ofensiva, nem a fim de continuar discutindo. No ia, tampouco, proibir meu filho de coisa alguma, no ia, sobretudo, permitir que ele fosse expulso da escola. No haveria problema, j estava decidido que Joo no continuaria naquele colgio, pois eu conseguira, para o segundo semestre, uma vaga no Grupo Escolar Marechal Trompowski. O Brasileiro de Almeida era um bom colgio, mas ns desejvamos que nossos filhos freqentassem escola pblica.
       Levantei-me, no se preocupe, minha senhora, de agora em diante meu filho deixa de ser aluno deste colgio. Passe bem.
       
       
       BRIGADISTA DE BASE
       
       
       Minha freqncia no Comit Sarah Kubitschek, como j disse, era espordica, aparecia quando tinha tempo, o que acontecia em geral  noite. Para usar uma expresso de Partido, eu executava trabalho de base e no de cpula, fazia trabalho menor, com um balde cheio de alvaiade e um pincel, saa com Marylu Prado, minha amiga, ela tambm cheia de entusiasmo por Juscelino, amos escrevendo o nome de nosso candidato no asfalto da avenida Atlntica, nome em letras colossais, um Juscelino que ia de uma calada  outra. Joo, no meio da rua, fazia parar o trnsito at que o trabalho estivesse concludo. No Comit sempre havia o que fazer, colagens, entrega de material etc. No tinha contato com as dirigentes, em geral mulheres da sociedade mineira, a filha do Governador Benedito Valadares uma delas. Nunca coincidiu ver dona Sarah no comit, aonde ela ia raramente.
       
       
       CARLOS LACERDA
       
       
         Espia aqui, Zlia  Jorge me acordava cutucando-me com um jornal dobrado , leia.
       Era a Tribuna da Imprensa, jornal de Carlos Lacerda, cujo editorial desse dia era dedicado a provar por a mais b, que Juscelino andava mancomunado com os comunistas. O Partido era ilegal, e a palavra comunista ainda assustava. O rtulo de comunista, guardando suas devidas propores, equivalia ao de judeu, na Europa, durante a ocupao nazista, quando os judeus eram obrigados a usar no peito a estrela-de-davi que os denunciava. Um candidato ligado aos comunistas se comprometia, perdia pontos.
       O editorial da Tribuna da Imprensa dizia entre outras coisas que o Comit Feminino da campanha Kubitschek, da rua Rodolfo Dantas, em Copacabana, era dirigido por uma comunista notria, Zlia Gattai, a mulher que vivia com Jorge Amado.
       Pousei o jornal, olhei para Jorge:
         O que  isso?
          poltica, minha filha  respondeu, contrafeito.
         Poltica suja, nojenta!  retruquei, botando pra fora a minha decepo, a minha indignao.
       Decepo com Carlos Lacerda que, se no fosse dele  tudo indicava que fosse dele o editorial , era de seu jornal. Carlos Lacerda no tinha o direito de me fazer de degrau para subir um pontinho... ramos conhecidos de tantos anos, ele, Ziloca e eu  naquele tempo, quando moraram em So Paulo, todos tratavam sua esposa, a jovem Letcia, pelo apelido, Ziloca , os meninos eram pequenos e eu cheguei a carregar Srgio e Sebastio no colo... Pelo fato de eu ter carregado seus filhos no colo, no pleiteio iseno nem credencial para no ser atacada, cito o fato apenas para marcar a poca em que conheci e convivi com a famlia Lacerda. Amizade cordial, sem nunca ter havido um seno a empanar nosso relacionamento. Seguimos estradas diferentes, nunca mais nos encontramos... Agora ele vinha colocar meu nome no fogo, em seu jornal, com informaes mentirosas: eu no dirigia o comit da Rodolfo Dantas e muito menos era comunista notria. Quanto a ser a mulher que vivia com Jorge Amado, se o fato de meu casamento no ser oficializado ajudasse a derrotar Juscelino, ento esse recurso  sujo mas um recurso  era, entre os utilizados pelo jornal, o nico verdadeiro. Durante 33 anos, Jorge e eu vivemos juntos maritalmente sem poder legalizar nosso casamento. Ele s foi oficializado na presena do juiz aps a implantao do divrcio no Brasil.
       Quanto  minha participao na campanha pr-Juscelino, continuei a freqentar o comit da Rodolfo Dantas, trabalhei at o dia das eleies, at a vitria de meu candidato.
       
       
       12 DE MAIO DE 1976
       
       
       Por falar em casamento, me adianto no tempo, saio da ordem cronolgica, que alis no tem sido to cronolgica assim, para contar uma pequena histria acontecida no meu casamento com Jorge.
         Olhe, Joo  disse a meu filho , se voc tiver algum compromisso amanh pela manh, desfaa. Voc vai assistir a um casamento s 11 horas.
       Cheio de curiosidade, Joo quis saber:
         Casamento de quem?
         Meu casamento.
       Meus netos, que tambm estavam presentes, arregalaram os olhos.
       Bruno, cinco anos, quis saber:
         Voc vai casar com quem?
         Com teu av, ora!
       No acreditando no que eu lhe dizia, Bruno saiu na disparada para o quarto onde Jorge j dormia e o acordou aos berros: "Acorda, av, acorda depressa que tua mulher vai casar com outro!"
       Quanto  Maria Joo, trs anos, verdadeiro azougue, colocou as duas mos na cintura, sorriso j malicioso:
         Quer dizer ento que voc agora vai ser "Dona Zlia e seus dois maridos?"  caiu na gargalhada.
       Por essa novidade Joo no esperava, no demonstrou entusiasmo, at me pareceu decepcionado.
         Casar pra qu, me? Que novidade  essa? Por que isso?
         Voc tem preconceito contra o casamento, Joo?  perguntei.  Pois ns no temos, nem eu nem teu pai.
       Joo no respondeu  minha pergunta, voltou  carga:
         Depois de mais de trinta anos, por que essa deciso agora? Francamente, no entendo.
         Pois entenda, menino. Antes no havia divrcio, os colunistas sociais oficializavam os casamentos em suas colunas, unies que eram aceitas sem restries. Assim aconteceu conosco, mas agora j existe o divrcio e ns vamos legalizar nossa situao, apenas isso.  Eu explicava a Joo o que ele devia estar farto de saber.  Entendeu, rapaz?
       Deve ter entendido, pois deixou de discutir, de achar desnecessrio o casamento dos pais. Pergunto-me at hoje se sua estranheza no resultava de preconceito ideolgico.
       s onze horas em ponto, na casa de Calasans Neto e Auta Rosa, em Itapu, a cerimnia comeou. Alfredo Machado e Gloria vieram do Rio para nos apadrinhar. James e Lusa, Helosa Ramos, Caryb e Nancy, Mirabeau Sampaio, Floriano Teixeira e Alice e Antnio Celestino l estavam, firmes para testemunhar o ato.
       Bruno continuava emburrado, refugiara-se num canto, escondido, foi preciso traz-lo  fora para a sala e, no momento em que o juiz perguntou se havia algum impedimento, ele se adiantou e gritou o mais alto que pde: "Est tudo errado! Tudo errado..."
       Outros amigos foram aparecendo ao saber da novidade e ainda alcanaram o lauto almoo oferecido pelos donos da casa, nossos padrinhos tambm.
       
       
       A LTIMA TAREFA  DEZEMBRO DE 1955
       
       
       O Natal se aproximava. Jorge foi procurado por Digenes de Arruda Cmara, da direo do Partido: ainda uma tarefa a cumprir, desta vez na Argentina.
       Havia um ano Jorge passara o Natal em Praga, sozinho, na maior solido. Os nicos vos para o Brasil estavam lotados e, naquele Natal de frio e neve, ele permaneceu no hotel vazio, sem empregados para atend-lo nem restaurante para servi-lo. A ceia de Natal nesses pases da Europa  extremamente ntima, dela s participam pessoas da famlia, no comporta convidados.
       Por muito favor conseguiu um sanduche.  noite saiu andando sem destino por ruas desertas, vento e neve aoitando-lhe o rosto... caminhava a esmo  espera do dia seguinte. "Foi a noite mais triste de minha vida, nem gosto de lembrar", costuma dizer.
       A misso em Buenos Aires era de responsabilidade, e somente ele poderia cumpri-la, dizia Arruda, no se preocupasse, no havia perigo de passar outro Natal longe da famlia, comprariam passagem de ida e volta com data marcada...
        Pois esta ser a minha ltima tarefa de Partido  declarou Jorge, categrico.  Abandonei meu trabalho de escritor. H quantos anos no escrevo um livro? Vocs no me do tempo para nada, tenho na cabea uma histria caindo de madura sem tempo nem tranqilidade para escrev-la, sem tempo para levar avante projetos culturais. Venho pensando h tempo no interesse de fazer um quinzenrio cultural, mas de que jeito? No vejo condies. Esta  minha ltima obrigao de Partido  repetiu.  No quero mais ser menino de recados. As tarefas que vocs me do podem muito bem ser cumpridas por outras pessoas, mas os livros que escrevo somente eu os posso escrever, mais ningum.
       Arruda ouviu atentamente os argumentos do militante a desligar-se de suas funes de tarefeiro:
        De acordo  disse.  Esta vai ser tua ltima tarefa, pode ficar tranqilo.
       
       
       
       JANEIRO DE 1956  EXPLODE A BOMBA
       
       
       O relatrio apresentado por Nikita Kruchov, no XX Congresso da Unio Sovitica, explodiu como uma bomba. Nosso pai, o que zelava pelo nosso destino a iluminar nossa estrada, o que pensava por nossas cabeas, o magnnimo, o magnfico Stalin, nos havia enganado a todos. Existiam campos de concentrao na Unio Sovitica, sim! Prisioneiros na Sibria! Anti-semitismo, sim senhor! Os mdicos judeus, acusados como traidores da ptria, no eram traidores coisa nenhuma! Tudo o que havamos pensado ser calnia do inimigo e havamos negado quando cobrados era verdade.
       Para Jorge e para mim, que tnhamos vivido em pas socialista e tido contato estreito com os soviticos, a revelao de Kruchov nos chocou profundamente, apesar de que no nos apanhou totalmente desprevenidos. As suspeitas e as dvidas j viviam conosco havia algum tempo. Desde o processo Slanski, na Tchecoslovquia, a priso de London, tempos dramticos que vivemos, fomos perdendo a confiana aos poucos, j no tnhamos a certeza absoluta de antes. Vamos coisas que nos pareciam erradas, levantvamos a suspeita, custvamos a aceitar as explicaes mas acabvamos aceitando. A denncia de Nikita Kruchov no XX Congresso vinha esclarecer muita coisa que no entendramos.                      
       Tudo se embaralhava em minha cabea, perdera a graa, o entusiasmo, entrei em conflito comigo mesma, devia continuar a ter esperanas, a confiar no futuro do socialismo? Precisava de um tempo para refletir, esperar o desenrolar dos acontecimentos para assentar a cabea. No me sentia em condies de prosseguir trabalhando para o Partido, e na primeira reunio pedi meu desligamento da comisso de finanas. Jorge nem precisou se desligar das tarefas partidrias, pois j o fizera no encontro com Arruda, havia um ms, nas vsperas de Natal, como j foi dito.
       
       
       JORNAL PARATODOS  MAIO DE 1956
       
       
       Juscelino Kubitschek fora eleito, e neste seu primeiro ano de governo podia-se respirar, a liberdade e a democracia se instalavam.
       A idia de fazer um jornal de literatura e arte no abandonara Jorge, continuara a bulir em sua cabea. Chegara, pois, a hora de pr seu plano de p, havia clima para isso e, liberado dos encargos partidrios, j podia dispor de seu tempo para dedicar-se a um trabalho que s ia lhe dar prazer.
       No faltavam intelectuais que quisessem juntar-se a ele na grande e difcil empreitada, eles eram muitos e da melhor qualidade. Fariam um belo jornal, divulgariam o que havia de melhor em literatura e arte, jornal amplo, sem sectarismos, que terminasse com as divises de esquerda e direita, castradoras, e reunisse setores de todas as tendncias. Unidos, fariam um quinzenrio que viria preencher uma lacuna, jornal que fazia falta no Brasil. Dentro desse princpio e desse esprito, surgiu o Paratodos.
       Um grupo disposto a trabalhar formou-se rapidamente, cada qual assumiu sua funo. Diretores: Oscar Niemeyer e Jorge Amado; redator-chefe, Moacir Werneck de Castro; secretrio de redao, James Amado; diretor comercial, Alberto Passos Guimares; Dalcdio Jurandir, Renard Perez, Micio Tati e Dias da Costa cuidariam da parte literria; Vera Tormenta e Ana Letcia, das artes plsticas; Alex Vianni, de cinema; Antnio Bulhes de Carvalho, de teatro; Aparcio Torelly, o Baro de Itarar, preencheria as colunas de humor; Edi-no Krieger, as de msica; o pintor Carlos Scliar, convocado, no pde se incorporar  equipe, empenhado na ocasio na revista Senhor, no podia dispor de tempo integral, colaborou espordica porm intensamente.
       Aos poetas a poesia, e foi Vincius de Moraes quem abriu ' lindamente o primeiro nmero do Paratodos com seu poema indito, "Operrio em Construo"; Joaquim Cardozo, engenheiro calculista de estruturas mas antes de tudo grande poeta, dos maiores crticos de arte, foi colaborador efetivo do Paratodos desde o incio; os escritores Jos Geraldo Vieira e Maria de Lourdes Teixeira asseguravam a sucursal de So Paulo; os gravadores Fayga Ostrower e Oswaldo Goeldi, os pintores Iber Camargo, Di Cavalcanti, Antnio Bandeira e tantos outros artistas e escritores de alto gabarito incorporaram-se ao jornal. O entusiasmo em torno do projeto e a disposio geral de participar dele eram o que mais havia, no faltavam braos e nem cabeas. Faltava apenas uma coisa: dinheiro.
       Alguns editores, considerando a importncia do jornal, davam anncios, anncios de pouca monta, que no chegavam nem para cobrir o aluguel do escritrio, uma sala apenas porm ampla, no edifcio Marqus do Herval, projeto audacioso dos irmos Roberto, na avenida Rio Branco.
       Livre do pesadelo das finanas do Partido, eu repetia aliviada, "finanas nunca mais!" Tratava de minha vida, matriculara-me na Aliana Francesa de Copacabana, colega de Joo, disposta a fazer o curso completo. Iniciava vida nova quando fui convocada pelo diretor comercial do Paratodos, Alberto Passos Guimares, que, sabendo de minha experincia no assunto, tarimbada, dizia, pedia-me ajuda para o setor de finanas do jornal, precisavam de dinheiro com urgncia para mant-lo.
       Ouvi calada seus argumentos. Alberto gastava comigo seu latim, eu estava dentro do problema tanto quanto ele. Assistia de perto ao esforo da equipe para a sada de cada nmero do jornal, tarefa de amor, sem horrio de trabalho, salrio incerto no fim do ms  a maioria no recebia nada, passava apertos... No discuti, no tinha por qu. Eu devia ajud-los por obrigao e vontade. Faria o que estava ao meu alcance, no possua outra aptido seno correr atrs de dinheiro: "Cada macaco no seu galho", diria minha me.
       Talvez fosse mais fcil, pensei, conseguir dinheiro para um jornal como o Paratodos do que para um Partido ilegal, podia bater em qualquer porta e ser recebida de braos abertos, no havia dvida!
       Organizei uma lista de pessoas a procurar mas recuei na primeira porta que bati. Fiquei sabendo em seguida que no adiantava ir diretamente a diretores de empresas, pois a publicidade de suas firmas estava entregue a agncias especializadas.
       Procurei o gerente de uma agncia de publicidade no Rio, ex-membro do Partido Comunista que, ao desligar-se das atividades partidrias, dedicara-se  propaganda. Alis, eu conhecia ainda outros ex-militantes no Rio e em So Paulo, tambm no ramo da publicidade, bem-montados na vida, com altos salrios, funcionrios competentes, formados na escola do Partido, a da disciplina, da argcia e da perseverana.
       O gerente da agncia me reconheceu logo e, ao saber o que eu pretendia, no fez rodeios, foi taxativo:
        Nenhuma firma comercial tem interesse em anunciar no Paratodos...  um bom jornal, no h dvida, mas quinzenrio ainda desconhecido, de pouca circulao, lido apenas por literatos e artistas que jamais compram coisa alguma e desprezam anncios comerciais.  verdade ou no ?  fez uma pausa.  Quer ouvir um conselho de amigo, dona Zlia? Desista de procurar outras agncias, s vai perder tempo e se cansar, ningum dar anncios para seu jornal.
       Foi assim que o gerente e ex-comuna me despachou, com um conselho de ex-camarada, tirando-me qualquer iluso. Eu devia bater em outra freguesia, bolar coisa diferente.
       
       
       OSCAR EMPRESTA A CASA
       
       
       Na casa de Oscar Niemeyer, nas Canoas, seria dada a grande virada nas finanas do Paratodos. Transformado em sociedade annima, o jornal lanava  venda suas aes num coquetel de alto bordo, oferecido pelo grande arquiteto, presidente da empresa, com a presena de intelectuais importantes e da fina nata de ricaos da sociedade carioca.
       Um livro aberto recebia assinaturas dos candidatos s aes. Dos presentes no falhara um sequer, todos se inscreveram. Estvamos eufricos, o Paratodos ia sair do poo. Maravilha!
       Vrias pginas preenchidas l estavam, mas "alegria de pobre dura pouco"  l vem dona Angelina  dali no saiu um tosto furado. Procuramos em vo concretizar a venda das aes, nos cansamos  toa na busca dos candidatos que se haviam inscrito. No conseguamos ser recebidos. Esbarrvamos sempre com uma secretria treinada em despachar chatos. Nem mesmo as cartas enviadas, tratando do assunto, foram respondidas. Venderam-se umas poucas aes, no passou de uma "ao entre amigos", foi tudo.
       Eu no trabalhava sozinha, havia outras pessoas que, como eu, se viravam mas tambm pouco ou nada conseguiam. Depois do fracasso financeiro do excelente coquetel na casa das Canoas, convocou-se uma reunio para estudar a situao, e da surgiu a idia de fazer-se um suplemento sobre o movimento cultural de cada estado brasileiro, pago pelo Estado, a ser includo em cada nmero do jornal.
       Divididas as tarefas, os primeiros escalados para viajar foram Antnio Bulhes e eu prpria. Devamos conseguir material para o encarte e, obviamente, dinheiro. Isso decidido, Bulhes partiu para um lado e eu para outro.
       
       
       GOINIA
       
       
       A mim coube visitar os estados de Gois, Pernambuco, Cear e Rio Grande do Sul.
       Bem-sucedida por onde passei, voltei sempre com vasto material para o caderno e um cheque  o suficiente para a tiragem de pelo menos um nmero, dinheiro lquido, pois sempre, em toda parte por onde andei, tive hospedagem de graa, em casa de amigos, por vezes com carro  disposio.
       Em Goinia hospedaram-me o desembargador Maximiano da Matta Teixeira, professor universitrio  Maxi, como o chamvamos na intimidade, fora colega de Jorge no Colgio Antnio Vieira, na Bahia , e Amlia, sua mulher, que, alm de professora universitria, era botnica por amor e devoo. Possua um belo orquidrio, inclusive descobriria uma espcie de orqudea que leva hoje seu nome, Amalie.
       Eu adorava a companhia desses amigos, passava horas e horas esquecidas ouvindo as impagveis histrias contadas por Maxi. Naquela vez ouvi uma de suas aventuras, no resisto a cont-la aqui:
       Todos os anos Amlia e Maxi iam passar frias no Araguaia, em meio aos ndios. Ele adorava pescar, ela buscar espcies raras de orqudeas na floresta. Certa vez, a conselho de um amigo, embrenharam-se os dois bem alm do habitual, em busca do rio extremamente piscoso e das orqudeas desconhecidas das quais o amigo lhes falara, encorajando-os a embarcar na aventura. Adentraram galhardamente, abriram picadas, o jipo sobrecarregado com a tenda e as provises agentando firme. Numa clareira, em plena floresta virgem, armaram a tenda, o rio ficava a uma centena de metros. Pela manh logo cedo l se foi Maxi, de canio e sambur, embornal com merenda; sentou-se  margem do rio,  sombra de uma rvore, atirou a linha, em seguida sentiu o emocionante arranco, l veio o peixinho se debatendo. Segunda atirada, novo puxo, nova emoo, novo peixinho. No terceiro lanamento da linha, Maxi olhou e viu refletido na gua um enorme ndio nu de p atrs dele: de tal porte e pelado daquele jeito ele nunca vira. Os ndios que conhecera, em frias anteriores, no andavam nus, usavam tangas e s vezes at short e camiseta com inscries... Voltou-se discretamente e, com um sorriso forado, cumprimentou o personagem:
         Bom dia!
         UUUU!
         Que rio mais bonzinho pra dar peixe, no?
         UUUU!
       Maxi lembrou-se que levava no embornal uns brioches e resolveu agradar o ndio. Estendeu-lhe um:
         Est servido?
         UUUU!
       Provou uma ponta do brioche, ofereceu-o novamente:
         Bolo, muito bom... Bolo! Prove, aceite...
       O ndio arrancou-lhe o brioche da mo, meteu-o inteiro na boca, os farelos caindo... Apontou o embornal:
         Boro! Boro! Boro...
       Devorou o segundo, o terceiro, o quarto e ltimo. J no havia brioches, e Maxi resolveu dar o fora. Levantou-se, "prazer em conhec-lo...", foi andando em direo  tenda, o ndio atrs. Estatelada, Amlia viu o marido se aproximar, um ndio nu em seus calcanhares... Ao v-la, o ndio deu uns passos  frente em sua direo, apalpou-a dos ps  cabea. "UUUU!", rosnou, deu meia-volta, sumiu na floresta. "Ser antropfago?", assustou-se Amlia. Por via das dvidas, o melhor a fazer era levantar acampamento o quanto antes, e foi o que fizeram. Rapidamente comearam a embalar fogareiro, panelas, louas, mantimentos... No tinham ainda terminado  quando  o  ndio  surgiu  novamente,   desta vez acompanhado da mulher e de vrias crianas, todo mundo pelado. O papa-brioches apontou Maxi e deu ordens: "Boro, boro, boro!..." "Pois no! Temos bolo pra todo mundo...!" O ndio s parou de pedir "boro" quando os brioches apareceram... Em trs tempos devoraram o que havia. "Voltem amanh, meus amigos!... Amanh tem mais!" Se compreenderam ou no o que Maxi dizia no se sabe, o certo  que, ao verem terminar o ltimo brioche, deram meia-volta volver e partiram.
       Queridos e respeitados, no havia em Goinia pessoas de maior prestgio do que Amlia e Maxi. Onde chegavam as portas se abriam; em companhia deles, escorada em seus poderes, consegui o que desejava e, alm do caderno bancado pela Secretaria de Cultura do Estado, obtive outros anncios e doaes em dinheiro vivo.
       
       
       RECIFE
       
       
       Em Recife, fiquei na casa do Prefeito Pelpidas Silveira e Marilu, sua mulher. Casados havia pouco, o casamento realizara-se em So Paulo na casa da noiva. De volta para Recife o casal parar no Rio onde, em nosso apartamento, reunramos alguns amigos para recepcion-los.
       Amigo de longa data, ainda solteiro, Pelpidas fora candidato a Governador de Pernambuco e ns participramos de sua campanha eleitoral. Alm de Pelpidas e de Marilu, que me ajudaram abrindo-me as portas mais difceis, contei com a assistncia de velhos e queridos amigos como Paulo Loureiro e Dris, Rui Antunes e Las, Carlos Penna Filho e Tnia, amigos que, com seu carinho, me ajudaram a transformar uma tarefa difcil e cansativa numa quase brincadeira. Misso cumprida em tempo recorde, decidi partir para o Cear, onde reiniciaria minhas andanas, em lugar de voltar ao Rio. Economizava assim tempo e dinheiro. Fortaleza ficava a poucos minutos de avio, e o preo da viagem diminuiria consideravelmente, alm de que, registrada no Ministrio do Trabalho e no sindicato, possua carteira de jornalista que, na poca, era beneficiada por um grande desconto nas passagens areas.
       
       
       FORTALEZA
       
       
       Hospedada na manso recm-construda dos primos de Jorge, Estela e Banward Bezerra, ele mdico, dono do mais importante laboratrio de anlises de Fortaleza, fui tratada com todas as mordomias, automvel e chofer  disposio. Chofer mais maluco nunca vi! Maluco porm divertido, chegava  hora certa, no atrasava nunca. Para ele no havia obstculos, o prprio dono do mundo a entrar pela contramo em ruas movimentadas e a reclamar: "Estes pedreste intpe as rua..." Metia o carro em cima e salve-se quem puder!
       Estela no podia me acompanhar s visitas, pois acabara de dar  luz, a menina Denise estava com poucos dias de nascida.
       De seu resguardo, a jovem me tomava providncias por telefone, marcando entrevistas na televiso e na rdio, chamando jornalistas para almoar em sua casa. Alm de Esteia, contei com o apoio de vrios amigos: do jornalista Joo Clmaco Bezerra, que tratou da cobertura sobre o Paratodos em seu jornal; de Ermenegildo de S Cavalcanti, jovem jornalista que, com Ndia, sua jovem e bela noiva, me acompanhou e me ajudou. Na Livraria Renascena, de um velho amigo, Luiz Maia, tive um encontro com intelectuais da terra.
       Jorge me esperava no aeroporto, no Rio, um pouco espantado com a minha demora. "Resolveu desertar de vez?", reclamava, rindo, satisfeito de me ver de volta.
       Eu conseguira dinheiro suficiente para garantir trs nmeros do jornal. Bulhes voltara de sua viagem com um caderno garantido sobre Minas Gerais.
       Minha viagem seguinte seria ao Rio Grande do Sul, mas no havia urgncia, no tinha por que me afobar. Passaria um ms inteiro em casa, aproveitaria para colocar em dia minhas lies da Aliana Francesa, estudaria o dobro para recuperar as aulas perdidas. Mademoiselle Menadier, minha professora, era compreensiva e camarada, me daria as apostilas da matria passada durante a minha ausncia.
       
       
       PORTO ALEGRE
       
       
       Henrique Scliar  pai de Carlos Scliar  como sempre me recebeu de braos abertos na sua casa em Porto Alegre, cidade onde eu me sentia  vontade. Estiver a em longa temporada com Jorge em Porto Alegre, em 1945, inclusive hospedados na casa de Henrique Scliar. Podia contar no apenas com a assistncia do velho Scliar, que conhecia Deus e o mundo e gozava do carinho de todos, inclusive o de Deus, embora nem desconfiasse disso porque o bom Henrique, anarquista da velha guarda, mantinha-se fiel s suas idias, delas no abria mo.
       No Rio Grande do Sul, nossos amigos eram muitos, e com eles pude contar: rico Verssimo e Mafalda, Vasco Prado, Lila Ripl, Raul Riff e Beatriz Bandeira, os jornalistas Josu Guimares, Pinheiro Machado Neto e tantos outros, empenhados todos em garantir a existncia do Paratodos, no qual, inclusive, colaboravam.
       
       
       GABRIELA, CRAVO E CANELA
       
       
       Eu chegara de visitar Dayse  mulher do deputado Frota Moreira , que dera  luz, tivera uma menina. Jorge quis saber o nome que haviam dado  criana e eu respondi prontamente: Gabriela. "Que nome mais bonito", disse ele, "bom para a personagem do livro que vou escrever". Ps-se a repetir, o olhar distante: "Gabriela, Gabriela Maria, Maria Gabriela, Gabriela de canela, Gabriela cor de canela..." parou a pensar: Gabriela, cravo e canela.  o ttulo do meu romance.
       Encabulada, ouvia Jorge repetir o nome de que tanto gostara, de trs para diante, de diante para trs, tantas vezes Gabriela, sem coragem de dizer que me havia enganado, que a menina da Dayse no era Gabriela, era Sylvia... Aonde fora eu buscar aquele nome? A nica Gabriela que eu conhecera, havia muitos anos, era uma senhora espanhola, gorda, cujo marido a chamava de Gavrila, o que soava muito mal aos meus ouvidos de criana; talvez por isso nunca a esqueci. Mas estou certa de que a tal Gabriela de minha infncia no tinha absolutamente nada a ver com a que sara de minha boca sem qu nem porqu. At hoje no descobri por que esse nome me veio  boca, no consigo entender.
       O importante era Jorge ter encontrado o nome que buscava. Quanto ao meu engano... S mesmo repetindo uma frase muito do gosto de dona Angelina: "Neste mundo tem cada coisa..."
       
       
       A FAZENDA EM CRISTALINA
       
       
       Na casa de Salma e Ragi Ashcar, em 1955, durante o Congresso Brasileiro de Cultura, em Goinia, conhecemos o fazendeiro Vasco Botelho. Sabendo que Jorge procurava um lugar tranqilo para escrever um romance, ps  sua disposio a fazenda de gado que possua em Cristalina, lugar tranqilo onde, garantia, Jorge teria a paz desejada.
       Convite feito, somente foi aceito um ano depois, em 1956, quando, aflita, Gabriela se impunha querendo nascer. Aproveitando as frias das crianas, a famlia em peso partiu para Gois de avio, saindo de automvel de Goinia para Cristalina, numa viagem de muitas horas por uma estrada de buracos e lama.
       Regio rica em jazidas de cristal  da seu nome, Cristalina , paramos duas ou trs vezes, interessados em ver de perto os montes de pedras de cristal, os homens na labuta de arranc-las da terra.
       A meio da viagem paramos na casa de parentes de Ragi Ashcar, famlia ali radicada. Admiradores de Jorge o haviam escolhido para padrinho de seu filho Michel, criana de poucos meses. Aproveitando sua passagem por l fariam o batizado. Tudo fora preparado a tempo e a hora, padre, padrinho, convidados e grande almoo.
       No podamos nos demorar, tnhamos ainda pela frente um bom pedao de caminho; a luz do dia era indispensvel para chegarmos sos e salvos  fazenda, sem o risco de meter o carro na buraqueira da estrada. Partimos em seguida ao almoo, Jorge despediu-se dos recm-compadres, beijou o afilhado, que reviu na volta para Goinia, e nunca mais tornou a v-lo.
       A fazenda de Vasco Botelho era, realmente, uma beleza! A casa, enorme e confortvel, fora batida no meio de um campo com grandes rvores espalhadas, paisagem a perder de vista. L estaramos em paz, distantes do mundo. No vamos o risco de visitas inesperadas, pois, com uma estrada daquelas, quem ia se aventurar?
       Uma sala isolada para Jorge escrever estava  sua espera mas, mesmo sem v-la, a desprezou. Tranqilo, sim, isolado, no.
       Onde quer que Jorge esteja, em qualquer lugar onde v trabalhar, s fica  vontade na sala principal, na de maior circulao, de preferncia na sala de jantar e, por que no?, ocupando a mesa de refeies, onde se instala com mquina e papel. De seu posto fica a par do movimento da casa, quem chega, quem parte, quem deixa de chegar... quem telefonou, quem deixou de telefonar...
       S de uma coisa Jorge sentia falta nesse retiro: de um telefone. Um telefone que no o chamasse mas que estivesse ao alcance de sua mo para falar com quem quisesse e quando bem entendesse.
       
       
       WEEKEND
       
       
       Poucos dias haviam decorrido desde a nossa chegada. Tudo andava s maravilhas, deitvamos cedo, acordvamos mais cedo ainda, a tempo de alcanar a ordenha das vacas, tomar o leite quentinho tirado na hora. O caf, acompanhado de queijo fresco, inhame, aipim, bolos, uma delcia! As crianas galopando pela fazenda, subindo em rvores, descobrindo ninhos de passarinhos, coradas, alegres, Jorge batucando na mquina, mandando brasa!
       Mas, como repetiria minha me, e eu aqui o fao, "alegria de pobre dura pouco", numa tarde de sexta-feira pareceu-me ouvir um rudo que vinha do cu. Chamei a ateno de Jorge, ele tambm ouvira, o barulho se aproximava cada vez mais, transformando-se de repente num forte ronco de avio. L estava ele, um monomotor aterrissando numa pista da fazenda, cuja existncia at ento ignorvamos.
       Do avio saltaram quatro pessoas vindas de Gois, chegavam para um churrasco e passariam o fim de semana na fazenda. Ningum imagina que para um escritor em plena produo no existam weekends. O aviozinho voltou ainda trs vezes, fazendo navete entre vrios pontos de Gois e a fazenda. Em meio aos convidados, um bispo. Os quartos da casa, muitos, foram ocupados nesse fim de semana.
       Weekend movimentado e alegre, estendeu-se at a segunda-feira, com churrascos deliciosos acompanhados de usques e bebidas variadas. Reinava a euforia, todo mundo alegre, simptico, cordial... O reprter de um jornal fazia perguntas a Jorge sobre o andamento do livro, doido para dar um "furo". As despedidas estenderam-se pela segunda-feira afora, com promessa de repeteco no fim da semana.
       Na quinta-feira seguinte, pela mesma estrada estreita e esburacada, retornamos a Goinia, de onde um avio nos levou de volta para o Rio. Gabriela reclamara, no aceitava ficar trancada na gaveta durante trs dias por semana. Uma pena. Sem avisar a ningum que estava de volta, Jorge tentaria escrever o livro em nosso apartamento, na Rodolfo Dantas.
       Voltamos  fazenda em Cristalina, ainda uma vez, com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, numa viagem de automvel pelo Brasil.
       
       
       BRASLIA
       
       
       Solicitados a conhecer Braslia, construo audaciosa de uma cidade, no corao do Brasil, no Planalto Central, Sartre e Simone aceitaram com prazer o convite, interessados em ver de perto tamanho empreendimento, piv de muita polmica, interessados tambm e sobretudo na arquitetura de Oscar Niemeyer. Rodamos centenas de quilmetros em estrada nova em folha, recm-aberta, rasgada na terra virgem, ligando Belo Horizonte  nova capital.
       O projeto de transferir a capital da Repblica do Rio de Janeiro para o interior do pas rolava desde os tempos do Imprio, sonho de Jos Bonifcio, discutido, aprovado, proclamado artigo de lei em vrias constituies republicanas e jamais realizado. Ao ser eleito Presidente da Repblica, Juscelino decidira levar avante o projeto e o fazia a toque de caixa, levantando do nada, em tempo recorde, a cidade fantstica, abrindo estradas que a ligavam aos quatro cantos do pas, inclusive  BelmBraslia, importantssima.
       Em Belo Horizonte, tivemos a companhia dos intelectuais da terra enquanto aguardvamos a chegada do automvel que viria de Braslia nos buscar. Comboiados por Ir e Benito Barreto, donos da cidade, Sartre e Simone visitaram a Pampulha, detiveram-se na igrejinha de Niemeyer, louvaram-lhe a beleza, impressionaram-se com a pintura e os azulejos de Portinari.
       No carro mandado pela Nova Cap, o chofer, rapaz troncudo, moreno, sorridente, desinibido como ele s, foi logo avisando: "Os senhores me desculpem, mas vo ter um pouco de pacincia, preciso parar em algumas cidades na nossa passagem... trago aqui", mostrou um pacote de papel amarfanhado, "uns contrabandozinhos que vendo por onde passo... tenho freguesia certa...", riu. Sartre e Simone ficaram na dvida: Jorge estaria traduzindo direito? Seria possvel algum declarar-se contrabandista com tanta sem-cerimnia? S acreditaram mesmo quando o gaiato abriu o pacote para mostrar o contedo, antes de guard-lo no porta-luvas do carro: relgios suos, pulseiras, anis, brincos de ouro e diamantes, tudo falso. Simone quis saber se ele no temia ser preso. Como resposta, puxou do bolso interno do palet uma carteirinha que exibiu com um sorriso de vitria: "No h perigo!" Sartre espiou, rpida olhada, espantou-se, disse a Simone: "Un flic!"
       Creio que a viagem em companhia do chofer duble de contrabandista e policial contribuiu para que Sartre no entendesse o Brasil  "no consigo entender este pas surrealista", repetia ou, quem sabe, para que melhor o entendesse.
       
       
       "DEPOIS DA RENASCENA..."
       
       
       Braslia ainda no fora inaugurada, mas o Palcio da Alvorada j estava construdo. Nele o Presidente recebeu os ilustres visitantes e sua comitiva: James Amado juntara-se a ns.
       Sobre a terra vermelha, despida ainda de rvores e jardins, destacavam-se, em todo o seu esplendor, as construes projetadas por Oscar Niemeyer. Emocionado diante de tanta beleza, Sartre disse ao arquiteto que nos acompanhava na visita: "Depois da Renascena, nada se fez de mais belo."
       A cidade, imenso canteiro de obras, foi percorrida em toda a sua extenso. Israel Pinheiro, presidente da Nova Cap, respondia s questes relativas  implantao do projeto. Sartre e Simone quiseram visitar tambm casas de candangos, dos operrios que construam a cidade, vindos de todas os quadrantes do pas, sobretudo do Nordeste.
       
       
       OS CAMPEES DO MUNDO
       
       
       Simone chamou a ateno de Sartre para a estampa colorida, pendurada em lugar de destaque na salinha modesta da casa em que acabvamos de entrar. Era a foto do time vencedor da Copa do Mundo de 58. Alis, a foto da equipe campe repetia-se desde o incio da viagem, a partir do Rio de Janeiro; por toda parte, nas casas, nos botequins e restaurantes, l estava ela, a estampa colorida do time, orgulho dos brasileiros: os jogadores em pose de triunfo. Vivamos a euforia da vitria. Dois dolos haviam despontado e conquistado o amor do povo: um menino de 16 anos, Pele, gnio do futebol, e outro jovem, de pernas tortas, Garrincha, rei do drible. A euforia decorrente da grande vitria coroava o clima de entusiasmo e de otimismo criado pelas realizaes do governo democrtico e progressista de Kubitschek; os brasileiros sentiam-se confiantes e felizes.
       
       
       "ETLES VOIL..."
       
       
       Cedido por Juscelino ao famoso casal para lev-lo  ilha do Bananal conhecer a reserva dos ndios carajs, o jatinho da Presidncia da Repblica devia decolar logo cedo.
       A par do horror que o irmo tinha de viagens areas, James resolveu se divertir assustando-o: "Viagem perigosa... tanque pequeno, pouco combustvel... autonomia de vo reduzida... se der pane no motor... babau!... entramos pelo cano, camos em plena floresta virgem...", dizia o danado, cego aos sinais  primeiro discretos depois ostensivos , olhares a suplicar que parasse de assustar o outro.
       O jatinho da Presidncia levantou vo  hora marcada. Jorge no foi, por seu gosto eu tambm no teria ido. "Vou ficar preocupado", disse-me ao nos despedirmos, numa ltima tentativa de me fazer desistir. A viagem de pouco mais de uma hora, vo baixo sobre florestas de no acabar, transcorreu tranqila, Sartre e Simone junto s janelinhas, apreciando a paisagem, eu furiosa com James, sem querer aceitar suas desculpas, ele encabulado: "...Ora veja! Que besteira... Jorge se impressionar com brincadeiras..."
       O avio baixava, em breve estaramos na pista. De seu posto de observao, Sartre de repente exclamou: "...et les voil! Tous dguiss!... Nas proximidades do campo de pouso, por um estreito caminho entre a mata, aproximavam-se ndios de rostos pintados, tangas sumrias enfeitadas de penas e plumas, cocares coloridos, arcos e flechas, instrumentos musicais... Sartre continuava afirmando que os ndios estavam fantasiados, ou antes, que se haviam paramentado para nos receber. Simone no era da mesma opinio, a seu ver Sartre exagerava: ...Pelo que sei os ndios se vestem assim mesmo...", retrucara. A teima continuou at pousarmos. No demorou muito os carajs chegaram, saltando, cantando, eu aproveitando para fotografar, alis no fizera outra coisa a viagem toda. Terminada a dana, Sartre e Simone foram mimoseados com vistosos cocares, receberam flechas, chocalhos de cabaas e colares de plumas. Simone sonhava com uma cervejinha gelada, estava de garganta seca, o sol castigava, calor insuportvel! No Posto de Proteo ao ndio, para onde nos conduziram, busquei providenciar a cerveja to desejada, mas cad cerveja? No havia cerveja, pois era proibida a entrada na reserva de qualquer espcie de lcool.
       Penetramos mato adentro, visitando malocas, vimos uma coisa to impressionante que jamais vou esquecer: caminhavam nas clareiras, meio desequilibrados, tucanos, araras e papagaios completamente depenados; o enorme bico dos tucanos era o que restava das belas aves, pobres, humilhadas, exibindo mirrados corpos nus. Papagaios e araras viviam na mesma triste situao. Forneciam as plumas necessrias para os lori-loris, os colares de penas, cocares, faixas, artesanato confeccionado pelos ndios e vendido pelo Brasil afora, uma das fontes de renda do Posto. Um ndio nos explicou por que no matavam as aves de plumagem colorida: no prestavam para comer, eram s beleza e osso, no tinham a carne gostosa de uma perdiz ou de uma codorna. Alm do mais, as penas arrancadas nasciam novamente, mantendo o mesmo vio, e novamente eram depenadas. Outra fonte de recursos dos carajs eram as cermicas de barro, trabalho de arte, peas lindas, vendidas a bom preo.
       Almoamos na casa de hspedes do governo, construo de madeira, do outro lado do rio, afastada da reserva. Em barco descoberto, sob o sol abrasador, atravessamos at a outra margem. Tratei de me informar sobre a possibilidade de se conseguir uma cerveja, e foi com o maior prazer que dei a boa nova a Simone e a Sartre, que quase mortos de sede j no disfaravam o mau humor, de que uma cervejinha estupidamente gelada (a expresso estupidamente gelada os encantara) seria servida no almoo.
       O comandante do jatinho dava pressa, devamos partir. Reunidos no posto da reserva, nos esperava para as despedidas o mesmo grupo que, pela manh, nos recebera no campo. J no estavam pintados, usavam shorts, camisetas, sandlias de borracha, relgios... Simone riu ao ver o ndio que se aproximava, rdio de pilha colado ao ouvido, envergando a camisa da seleo, Brasil 58. "...et les voil!", exclamou Sartre.
       
       
       O TRABALHO NO RIO
       
       
       Deixo Sartre e Simone com os ndios, volto s memrias que estava contando. Para Jorge a hora boa para trabalhar sem ser perturbado era de manh muito cedo, cabea fresca, as idias surgindo antes mesmo de serem chamadas. Cedo? A que horas? Ao relgio com mostrador e ponteiros Jorge nem olhava; na urgncia de escrever, ia para a mquina ainda com estrelas no cu, ao nascer do dia, enquanto todos dormiam e o telefone ainda no despertara.
       Durante um ms, no mais, Jorge trabalhou dia e noite no livro, embora interrompido a toda hora. Os captulos sucediam-se; nesse curto espao de tempo eu j copiara quase uma centena de pginas e, entusiasmada, esperava ansiosa a continuao da histria.
       Os problemas do Paratodos, no entanto, o preocupavam, ele prprio procurava saber o que se passava  era de sua natureza , tomava conhecimento, buscava ajudar, perturbava seu trabalho.
       
       
       FESTA EM LARANJEIRAS
       
       Partamos agora para uma iniciativa festiva a fim de angariar fundos para o jornal. Bulhes propusera e organizara uma festa nos jardins de sua casa, palacete antigo da famlia Bulhes de Carvalho, um dos raros que ainda restavam na rua das Laranjeiras, onde ele vivia com sua mulher, a atriz Glauce Rocha, a me, a tia e dois filhos.
       Quanto ao sucesso da festa, no tnhamos a menor dvida, era garantido, contvamos com a colaborao dos escritores ligados ao jornal, de artistas plsticos e de msicos. Participaria do show a estrela principal, Elizeth Cardoso. Romancistas e poetas estariam entre o pblico, autografando seus livros. Vera Tormenta e Ana Letcia ajudariam na decorao, Djanira pintaria os painis para o grande palco armado no jardim.
       No havia entradas de favor, nem fiado, e o preo cobrado era alto. Samos em campo, cada qual com sua quota de bilhetes, o compromisso de no trazer nenhum de volta.
       Na lufa-lufa da festa invadindo a casa, o telefone tocando sem parar, gente pedindo informaes sobre o local, quem ia, quem no ia, quanto custava, se podia pagar em duas vezes, se um convite dava direito a duas pessoas, qual o traje, alguns artistas oferecendo seus prstimos etc...  a cabea mais voltada para o movimento em torno do que para o romance , Jorge suspendeu o trabalho, Gabriela foi posta na geladeira  espera de calmaria.
       A festa, como se esperava, foi aquele sucesso, valera a pena tanto trabalho. Quem a assistiu no a esquecer e, para ns, das finanas do Paratodos, um suspiro de alvio: ao menos dois nmeros do jornal estariam garantidos, tranqilamente...
       
       
       OPERA DE PEQUIM, NO RIO1956
       
       
       Gabriela continuaria ainda por algum tempo esperando. Um telegrama para Jorge anunciava a chegada da pera de Pequim ao Brasil. Pela primeira vez os brasileiros iam assistir a um dos mais belos e encantadores espetculos do mundo.
       Havamos estado na China em 1952. Jorge tornara-se amigo de escritores, poetas e de altas personalidades do governo e por todos recebido com atenes especiais. Nessa poca, trs livros seus j haviam sido traduzidos para o chins. Chegara nossa vez de retribuir a hospedagem e o carinho dos amigos chineses, acolhendo-os em nosso pas, com fanfarras e toques de clarins.
       O Paratodos faria a cobertura da estada da pera de Pequim no Brasil, com um caderno especial: homenagem e ao mesmo tempo boa oportunidade para a promoo do jornal, com a perspectiva de anncios especiais para esse nmero. A equipe do Paratodos jogou-se por inteiro na realizao de uma festa oferecida aos dirigentes e artistas da pera. Conseguiu-se o patrocnio do Fluminense Futebol Clube, que cedeu sua sede social em Laranjeiras e pagou o coquetel. Quanto ao show, contou-se com a colaborao do que havia de melhor, cantores e msicos que se exibiriam gentilmente, honrados de poder homenagear to grandes artistas.
       A pera de Pequim montada especialmente para apresentaes em pases estrangeiros nada tem a ver com a pera tradicional, clssica, levada em seus teatros. A que chegava ao Brasil trazia quadros variados de danas, cantos, mgicas, malabarismos etc. Com a pera viera Liu, que fora nosso intrprete na China; Liu falava um francs perfeito, vivera em Paris, era o tradutor preferido de Kuo-Mo-Jo, o sbio ilustre, vice-presidente da Repblica Popular da China.      
       
       
       UMA CANO BRASILEIRA
       
       
       Os chineses desejavam homenagear o pblico carioca com uma surpresa: a prima-dona da companhia cantaria em portugus uma cano brasileira. Para isso, necessitava de algum que a ajudasse, uma pessoa que lhe ensinasse a msica. Casal de msicos, o maestro Gaya e Stelinha Egg, ligados ao Movimento Mundial da Paz e ao Paratodos, foram escolhidos para a agradvel tarefa.
       No Hotel Glria, onde estavam hospedados artistas e dirigentes da companhia, acompanhei como intrprete de Liu a primeira aula. Ao v-la to fina e delicada, ningum poderia avaliar o volume de voz que a artista chinesa possua. Inteligente e sobretudo competente, aprendia com facilidade a cano folclrica que Stelinha lhe ensinava, acompanhada ao piano por Gaya.
       A msica sentimental, conhecida no Brasil inteiro, "Saudade, meu bem, saudade...", agradou aos chineses. No final do ensaio, nessa primeira aula, a pauta em frente, a cantora leu e cantou com desembarao, repetindo quase sem acento as palavras em portugus.
       Na segunda aula, dia da estria, j no precisou da pauta, cantou direto. Tudo ia s maravilhas at que... ao chegar no trecho onde devia dizer: "...se arreparasse a mais tempo no amava quem amei..!' a soprano fez a ligao das quatro ltimas palavras e o resultado foi esse: "no mamava quemamei..." Corrigida a tempo, riu conosco ao saber do significado da frase.
       
       
       OS HOMENS SE ALVOROAM
       
       
       Jorge se tornara a tbua de salvao de Liu. Todo e qualquer problema que surgia, era para nossa casa que ele telefonava.
       No dia seguinte  estria, Liu nos chamou aflito. Uma das principais atrizes amanhecera doente. Precisavam com urgncia de um mdico de confiana, confiana em todos os sentidos, competente e "dos nossos", Liu transmitia o recado.
       Competente e dos nossos, o primeiro nome que nos ocorreu foi o de Alcedo Coutinho, membro do Partido, ex-deputado, cassado. Telefonamos para o hospital onde ele costumava operar. "Vou imediatamente!" Alcedo assistira  pera na vspera e ficara encantado com a atriz. Pediu-me que telefonasse imediatamente para Sidney Resende, o analista, certamente precisaria de exames. Consegui localizar Sidney na casa de um cliente, onde colhia sangue. "A artista chinesa?" Alvoroou-se: "Vou em seguida." Seria bom chamar tambm o Campos da Paz, ginecologista. Liu no soubera explicar o que a moa sentia, e a prudncia mandava ter um especialista de senhoras  mo. "Vou j." Campos da Paz tocou-se para o Glria, pressuroso.
       Pressuroso tambm, Jorge chegou ao hotel antes dos mdicos, os que havamos convocado e ainda outros que souberam do acontecido e foram chegando. Mdicos demais para pouca doena: a artista no tinha nada de grave, ps-se de p naquele mesmo dia.
       
       
       OS POMBOS NA CARTOLA
       
       
       Alm das apresentaes no Municipal, a pera de Pequim ofereceu um espetculo beneficente para as obras sociais de dona Sarah Kubitschek, no Maracanzinho.
       Jorge e eu, pessoalmente, os recebemos em nosso apartamento com um jantar. Vieram, alm de alguns dirigentes da pera, vinte dos principais artistas, vinte e tantos amigos nossos. Roberta se esmerou nos pratos baianos: vatap, caruru, moquecas diversas, ef, quitand, frigideiras de camaro e de caranguejo. Uma refeio que se preze, na China, deve contar com ao menos dez pratos diferentes, pratos pequenos, delicados, ao contrrio das nossas travessas enormes. Os convidados se regalaram: "Iguarias to finas e deliciosas quanto as chinesas, talvez at mais saborosas...", elogiaram, educados.
       Festa animada, com Elizeth Cardoso encantando com sua voz, Eneida com seu entusiasmo, Josu de Castro, Eduardo Portella, Moacir Werneck de Castro, Antnio Bandeira, Jos Conde, Joo Conde, Glauce Rocha, Antnio Bulhes, Vanja Orico, entre outros.
       As crianas movimentavam-se entre os adultos, e Janana, que na ocasio, com o parceiro Joo Jorge, vivia na curiosidade de descobrir detalhes sobre o mistrio do nascimento das crianas, no largava Glauce Rocha, doida para fazer-lhe uma pergunta. Bateu de leve no brao da moa:
         Glauce, voc tem filhos?
         No, no tenho, infelizmente...
         Voc gostaria de ter filhos?
         Gostaria muito...
         Glauce, se voc quiser, eu falo com meu pai e ele bota uma sementinha de filho na tua barriga...
       Enquanto Janana se preocupava em providenciar uma gravidez para Glauce, eufrico, Joo corria atrs do prestidigitador, no o perdia de vista. Ficara fascinado com o espetculo, sobretudo com as mgicas incrveis feitas por aquele homem que ali estava, em sua casa. To ntimo tornara-se de todo o grupo que acabou sendo convidado para assistir ao ensaio no Maracanzinho. O convite tornara-se ainda mais atraente quando lhe propuseram ir ao Hotel Glria no dia seguinte para incorporar-se aos artistas na viagem de nibus ao estdio, onde permaneceria at a noite, para juntar-se a ns quando chegssemos para o espetculo.
       Mimado e paparicado, na maior intimidade com os artistas, Joo circulara solto pelos bastidores, virar, mexera at conseguir seu intento: visitar o camarim do mgico.
       Pouco antes do incio do espetculo, Joo vira a porta entreaberta, espiou l dentro, ningum... sorrateiramente, enfiou-se por ela, penetrava na to sonhada caixa de surpresas, doido por descobrir os truques. Tudo o deslumbrava, e, mexe aqui, espia ali, acabou soltando dois pombinhos arrumados no fundo de uma cartola, prontos para entrar em cena. O mgico, que sara por um momento, voltou e, ao dar-se conta de que os pombos haviam sumido, ficou doido! To doido que nem percebia Joo a apontar para um monte de caixas atrs das quais os fujes deviam estar escondidos, pois ele acompanhara o vo. Foi um Deus nos acuda, um corre-corre medonho na caa s aves... o mgico afobado a dizer coisas, talvez pragas contra o bulioso... Por fim, depois de muito procurar, ele acabou reparando no dedinho do bulioso a apontar o possvel esconderijo.
       Ao ver-nos chegar, horas depois, Joo pela mo, Liu veio ao nosso encontro. O intrprete foi sbrio ao relatar-nos o ocorrido. Felizmente os pombos haviam sido recuperados, tudo estava em ordem. Liu ficou conosco o tempo todo, no perdeu Joo de vista. Certamente sua tarefa nessa noite era a de vigiar, no desgrudar os olhos do menino perigoso. Trabalho intil, no era preciso ter essa preocupao, Joo no repetiria a faanha, de jeito nenhum, estava encabuladssimo.
       
       
       NOTA TRISTE
       
       
       Custa-me recordar, encho-me de tristeza ao contar que ao regressar dessa turn pelo Brasil uma parte dos componentes da pera de Pequim perdeu a vida num desastre de aviao, o avio explodiu ao sobrevoar a Sua. Liu entre os mortos.
       
       
       REFGIO NA SERRA
       
       
       A soluo foi mesmo Quitandinha. "Um tmulo", como dissera Glorinha, porm no encontrramos alternativa. Necessidade urgente de escrever, de terminar seu livro fez com que Jorge se resignasse a trabalhar trancado num quarto, isolado de tudo e de todos.
       Ao voltarmos diariamente do almoo e do jantar, achvamos divertido nos encontrarmos, os dois sozinhos, naquele hotel deserto, atravessando corredores quilomtricos, pouco iluminados, lgubres, antes de alcanarmos nosso quarto.
       No terrao fechado, junto ao quarto, alm das duas camas de armar para as crianas, eu improvisara uma copa com forno e fogareiro eltricos e neles preparava o caf da manh. Saamos para comer nas imediaes, dvamos um passeio agradvel, timo para refrescar a cabea. Em dias de grandes chuvas, comamos no restaurante do hotel, que funcionava normalmente, carssimo.
       O apartamento em si era alegrinho, claro, acolhedor. Eu descia ao Rio s sextas-feiras, no nibus das dez  naquele tempo ainda no tnhamos automvel , para apanhar as crianas, que subiam comigo  tarde. Paloma e Joo passavam fins de semana e feriados conosco, s vezes Janana tambm subia, e a ento a festa era completa.
       A presena de Joo e Paloma no perturbava o trabalho do pai, ao contrrio, deixava-o na maior felicidade. Os meninos conheciam tudo e todos no hotel, populares entre os empregados e as famlias que, tambm como eles, subiam apenas nos fins de semana. Logo pela manh, ao acordarmos, j encontrvamos suas camas vazias, haviam ganhado o mundo.
       
       
       O VIZINHO JOSU DE CASTRO
       
       
       Paloma enturmara com Snia, filha de nossos amigos Glauce e Josu de Castro. Escritor conhecido internacionalmente, autor de Geografia da Fome, Josu era nosso vizinho duas vezes: em Copacabana morava a duas quadras de nosso apartamento e em Petrpolis, a pouco mais de um quilmetro do Quitandinha, possua, num pequeno bosque junto  estrada, casa para frias e fins de semana. Glauce costumava freqentar o hotel levando Snia, pouco mais velha que Paloma, para nadar na piscina interna, de gua quente, brincar no parque infantil onde havia escorregas, balanos, barras etc.
       Inteligente e brilhante, Josu de Castro era bom papo e boa companhia. Costumava nos visitar aos domingos, s vezes ele e Glauce nos convidavam a almoar em sua casa e outras vezes ns os convidvamos a almoar conosco num dos pequenos restaurantes da redondeza. Os longos papos com Josu tiravam Jorge da solido que se impusera, faziam-lhe bem.
       
       
       A IMPREVISVEL PALOMA
       
       
       Outros amigos que vez ou outra apareciam, nos fins de semana, eram Zora e Antnio Olinto, tambm nossos vizinhos em Copacabana.
       Nas movimentadas e barulhentas noites de festa de So Joo, no Rio, Olinto no falhava, aparecia com fogos e bales, levava os meninos para a praia, onde podiam,  vontade, saltar fogueiras, queimar estrelinhas, soltar busca-ps, soltar bales e assistir aos espetaculares fogos de artifcio.
       Zora e Olinto se encantavam com os meninos no Quitandinha e os carregavam para todo lado, divertiam-se com as coisas que diziam, tomavam nota e as repetiam. "Zora, adivinha no que eu estou de olho? Eu estou de olho naquele drops em cima da tua mesa...", dissera-lhe Paloma, um dia. Entre tantas histrias que poderia contar de minha filha, todas elas com sadas surpreendentes, h uma que nos faz rir at hoje quando Jorge e eu a recordamos.
       Num domingo cedo, aps o caf da manh, sa pelo jardim  procura das crianas que haviam sado do quarto enquanto dormamos. Fui direto ao playground e ao me aproximar das barras de ginstica notei um amontoado de gente interessada em algo que despertava curiosidade. Aproximei-me, curiosa, e qual no foi minha surpresa! A grande atrao era Paloma, ali nas barras de ginstica fazendo acrobacias infernais. Subia por uma corda, qual um macaco, chegava  trave superior, descia pela prpria corda de cabea para baixo, metia um p na argola, se soltava... Parada, pasma, eu continuava a espantar-me com as evolues, cada uma mais extraordinria que a outra, de minha filha, criana de cinco anos, de hbito tranqilo e tmida... De repente, numa das viravoltas ela me viu e me acenou: "Mame!" Um rapazinho que assistia a meu lado, ao v-la me chamar e eu responder ao aceno, olhou-me, surpreso:
         A senhora  a me da Snia? Snia? At o nome ela mudara?
         Sou, sim, sou a me dela.
       Depois de medir-me dos ps  cabea, o garoto perguntou:
         A senhora ainda trabalha em circo?
       Em circo? Ah, essa menina! Sem dar-me tempo para responder, o garoto se adiantou:
         Eu estive aqui ontem e ela me disse que aprendeu a fazer acrobacias com a me, que a me dela  artista de circo...
       
       
       MENTIRA OU IMAGINAO?
       
       
       Espantava-me descobrir a acrobata, no me surpreendia a imaginao de Paloma sobre a origem de suas habilidades, nem o nome trocado. Talvez em seus sonhos vira a me a fazer misrias num trapzio, adorara... Assumira nas evolues na barra o nome da amiga de sua admirao, Snia Castro. Paloma no mentia, era simplesmente imaginosa.
       Havia poucos dias, no Rio, eu surpreendera uma conversa dela com uma amiguinha, num duelo to ao gosto das crianas de contar vantagens, de fazer farol. A outra dizia:
         Meu pai comprou um automvel novo. Agora ns temos dois automveis e ele vai pr um chofer para levar a gente pro colgio...
       Humilhada  o pai dela no possua nem um, quanto mais dois automveis! , Paloma ouviu calada a exibio das riquezas todas da menina. Chegara sua vez de ir  forra:
         Meu pai tem um amigo que  dono de uma fbrica de brinquedos, eu vou sempre l com ele...
       Mais tarde, eu quis saber de Paloma quem era o tal amigo do pai que tinha uma fbrica de brinquedos e ela respondeu tranqilamente: "O Oscar Niemeyer, ora!" Ela costumava ir com Jorge ao escritrio de Oscar na avenida Atlntica: a fbrica de brinquedos. Enquanto os dois batiam papo, ela se distraa brincando com os automoveizinhos, as casinhas, as arvorezinhas das maquetes expostas... Ela dissera a verdade, a sua verdade.
       
       
       PERSONAGENS VIVOS
       
       
       O romance crescia, Gabriela tomava corpo. Tantos anos-eu passara ao lado de Jorge vendo-o trabalhar, mas nunca o sentira to entusiasmado, batendo  mquina noite afora. Os personagens brotavam aqui e ali, cresciam, tornavam-se independentes, nos surpreendiam com suas reaes... tornavam-se to ntimos que falvamos neles como se estivessem vivos, ali...
       Escrito na Tchecoslovquia, em 1951 e 1952, durante o exlio, o ltimo romance de Jorge, Os Subterrneos da Liberdade, reflete a posio e a experincia de uma fase de sua vida. Gabriela, Cravo e Canela reflete seu novo posicionamento poltico quando rompeu com as ideologias que o limitavam e passou a pensar pela prpria cabea. Sem abandonar a linha que traou e segue desde seu primeiro romance, a da defesa dos oprimidos. Em Gabriela Jorge se soltava, botava pra fora malcia, humor e picardia. Um livro de cravo e canela, temperado de pimenta.
       Como de hbito, depois de fazer correes  mo nos originais batidos  mquina, Jorge me entregava as pginas, vinte, trinta, para que eu as passasse a limpo, tirasse cpias. Em geral, ao terminar minha tarefa, a histria interrompida no melhor pedao, sem saber o que viria pela frente,  espera de que ele me desse outras pginas, a continuao, agoniada lhe perguntava: "E agora o que vai acontecer? Mundinho vai se casar com a Gerusa?": eu sugeria a Jorge o que desejava que acontecesse. Vendo que eu queria enrol-lo, Jorge ria: "No tenho a menor idia do que vai acontecer e, quanto  Gerusa e Mundinho, teus protegidos, no me venha com conversa de casamento! Voc quer me meter noutra enrascada? J me meti numa casando Gabriela com Nacib, no sei como me sair... Casam se quiserem, no depende de mim mas do que vai acontecer. Se dependesse de mim, no casariam..."
       Difcil entender que o dono da festa no possa pr e dispor, como melhor lhe parea, de seus personagens. Com o tempo e na convivncia com os personagens dos romances de Jorge, aprendi ser verdade o que ele diz quando repete: "Um personagem bem-estruturado, de carne e osso, de sangue nas veias, tem vida prpria, o escritor que o criou no pode querer de repente transform-lo num ttere, embargar-lhe os passos, colocar em sua boca frases que ele jamais diria, lev-lo a fazer o que ele jamais faria."
       Embalado com a histria que avanava, Jorge trabalhava aos sbados e domingos, dias de visitas, dias das crianas. Para que ele pudesse isolar-se quando precisasse, Glorinha nos emprestara a chave de seu apartamento, ela subia raramente a Petrpolis.
       Pouco ou nada adiantara, no entanto, a gentileza de nossa amiga. Telefonema do Rio chamava Jorge, assunto urgente: um telegrama do Chile.
       
       
       CAMARONES
       
       
       O telegrama s tinha uma palavra: camarones, sem assinatura. Nem era preciso; sabamos de quem era o telegrama e do que se tratava. Neruda ia chegar e recomendava que providencissemos camares dos grados, os camarones fritos com casca, que ele amava. Viria de navio, como sempre. Escrevera a Vincius pedindo-lhe que estivesse no cais  sua espera e avisasse Moacir Werneck de Castro. Ao embarcar, mandou-nos o telegrama curto e expressivo. Chegaria com Matilde, sua nova mulher.
       O pessoal do Paratodos no dormia no ponto e em seguida preparou uma pgina com poemas e fotos de Neruda, a coincidir com sua estada no Rio. Foi a que me ocorreu a idia de aproveitar a presena de Pablo para organizar uma noite de poesia a preo alto, numa residncia particular, a escolher. Seria fcil! Havia apenas um problema, Pablo quelas horas j devia se encontrar em alto-mar, no havia possibilidade de consult-lo se estaria de acordo ou no. Ocorreu-me ainda uma idia, dividir com ele a arrecadao, sabia das durezas de meu compadre, e ele ficaria encantado de ter uns cruzeiros para suas comprinhas brasileiras. Responsabilizei-me por essa parte, eu lhe falaria assim que chegasse e, com a maior facilidade, conseguimos o apartamento de Tuny e Wladimir Murtinho, que se encontravam fora do pas e o haviam deixado sob os cuidados de Marylu Prado, sua prima, que morava no mesmo edifcio, em Copacabana. O apartamento simptico no era muito grande, mas no espervamos tambm, em to curto prazo, conseguir atingir muita gente. Ledo engano! Em minha longa carreira de vendedora de bilhetes e rifas, nunca tive tanta facilidade de passar entradas para um recital. S para Nen Lampreia, que conheci nessa ocasio  ocasio em que ela e Moacir Werneck se conheceram, hoje so marido e mulher , s a ela vendi perto de vinte entradas, pedidas por telefone em vrias chamadas. Os bilhetes estavam esgotados e havia gente a telefonar querendo ir.
       
       
       CAIS DO PORTO
       
       
       No cais do porto, Vincius, Moacir, ns e as crianas. Do tombadilho, Pablo e Matilde acenavam.
       "Contame cuentos, comadre...", disse-me Pablo, sorridente, repetindo o que sempre me dizia ao nos encontrarmos. "Para ti, compadre, tengo un cuento muy bueno...", disse-lhe tambm sorrindo. A histria boa que tinha a lhe contar era que ele daria um recital no Rio, naquela noite mesma, em benefcio do Paratodos. Antes que meu compadre se refizesse do susto, falei-lhe nos 50% da renda. Ficou um instante calado, cara de quem no gostou. "Por que no me preveniram?" Procurei explicar-lhe que no houvera tempo, mas ele continuou srio: "No, no puede ser." Vincius e Moacir se aproximavam e Pablo foi ao encontro deles, interrompendo a conversa. Jorge dava ateno a Matilde enquanto eu, fria, completamente desfeita, no sa de onde estava. Que fazer? Os bilhetes estavam todos vendidos... ia ter que pedir desculpas a cada pessoa antes de devolver o dinheiro. Ia passar pelo vexame de confessar a minha irresponsabilidade!... Valia como lio. Ai, que vontade de chorar!...
       Novamente Pablo se aproximou, vinha com Paloma pela mo, j no tinha cara feia, sorria: "Comadrita,\ voltava ao assunto," icomo quieres que hagaun recital si no tengo mis libros?" Explicava, com riso maroto, que no podia dizer seus poemas pois no os sabia de cor. O compadre refletira e estava com pena de mim ou quisera dar um susto na atrevida que no o consultara antes de tomar uma deciso? "Si conseguires los libros...'" Os livros, compadre? Ora, compadre, se o problema  s esse...
       No Albamar, Neruda deliciou-se com os camarones, "sonhava com eles", ria Matilde, simptica.
       Em nosso apartamento, ele dormiu sua indispensvel siesta,  noite estava novo em folha, os livros  sua disposio. Ele os folheou e selecionou as poesias que iria ler.
       
       
       AMLIA RODRIGUES
       
       
       "Quiero decir los versos ms tristes esta noche..." No apartamento superlotado, um clima de emoo, silncio absoluto, olhos grudados no poeta, ouvidos atentos a ouvir seus versos, voz plangente, cheia de emoo...
       Os poemas se sucediam, poemas polticos, versos de amor, cada qual mais belo... quando, de repente, notou-se um movimento no hall de entrada  to repleto quanto a sala e o terrao , pessoas falando a meia-voz... Sensvel ao mnimo rudo quando declamava, Pablo suspendeu a leitura. Voltou-se para a direo do burburinho, esperou que o silncio retornasse.
       Abrindo espao entre as pessoas ali comprimidas, aproximava-se, encabulada, Amlia Rodrigues. Vinha de seu prprio recital, por isso to tarde. Chegou por fim  mesa onde o poeta se encontrava, fez-lhe uma reverncia... Ao ver em sua frente aquela formosura, a grande dama do fado portugus por quem nutria a mais profunda admirao, Neruda levantou-se, estendeu-lhe a mo e Amlia a beijou, emocionada. "Qudese..." O poeta apontava-lhe a primeira fila em sua frente. Em seguida fez-se lugar, e ali sentada Amlia Rodrigues permaneceu a ouvir poemas de sua paixo, olhos perdidos no poeta, mos postas como se orasse num altar.
       
       
       VIAGEM AO CEILO
       
       
       Depois da rpida e movimentada escala no Rio, com camarones, recital de emoo e sucesso, compritas nas tiendas cariocas, camarones novamente, desta vez em moqueca de lamber os beios, obra de Roberta, Pablo e Matilde zarparam para a Europa.
       A noite j cara quando os acompanhamos a bordo. "Nos veremos em Colombo, compadres", disseram na despedida. O Conselho Mundial da Paz realizaria naquele mesmo ano de 1957 um congresso em Colombo, no ento Ceilo, hoje Sri Lanka, e estava combinado que eu acompanharia Jorge.
       Havamos acertado com os Neruda prosseguirmos viagem juntos aps terminado o congresso; iramos  ndia,  Birmnia e  China, voltando pela Unio Sovitica. A viagem era por demais tentadora, e eu faria tudo para no perd-la.
       Precisava organizar minha vida, acertar com Vera tudo sobre as crianas, que ficariam sob seus cuidados. Felizmente podia contar com minha irm.
       Havia uma coisa que me preocupava mais do que tudo: o romance parado pela metade, esperando na gaveta. Pelo jeito devia esperar ainda um bom pedao de tempo. Jorge levaria a mquina de escrever, na doce iluso de poder trabalhar durante a viagem. Antes de partir, com tantos problemas a resolver, no ia dar jeito de retomar o trabalho, no havia condies. S iria assanhar Gabriela para em seguida deix-la abandonada. Se de qualquer maneira no conseguisse terminar o romance nas andanas pelo mundo, terminaria na volta.
       No sabamos ao certo quanto tempo passaramos fora, e eu me sentia com a conscincia pesada de partir deixando o Paratodos na agonia de sempre, carente de dinheiro para se manter. Ia dar um jeito sem falta, mas como?
       
       
       VISITA DIFCIL
       
       
       Fiquei matutando no rumo a tomar, e entre tantas idias que me ocorreram uma pareceu-me a melhor: localizar algum sensvel  cultura e que tivesse muito dinheiro. No foi difcil encontrar a pessoa ideal: Walter Moreira Salles. Pelo que sabia a seu respeito, tratava-se de um amigo das artes, homem culto, fino, banqueiro famoso, rico, muito rico.
       No seria, no entanto, tarefa fcil chegar a ele, sabia por experincia prpria, do tempo das finanas do Partido, que um milionrio  quase inatingvel, vive na mira dos "facadistas", e por esse e outros motivos a secretria competente encarrega-se de despachar o chato.
       Levando tudo isso em conta, eu devia estudar a maneira de atar o guizo  cauda do gato. Comecei pelo comeo, mandando ao banqueiro uma coleo do Paratodos, com um cartozinho, pedindo sua ateno para o jornal e, sobretudo, para o nmero dedicado a Braslia, no qual estavam publicados o projeto de urbanizao de Lcio Costa, desenhos do Plano-Piloto de Oscar Niemeyer, os construtores da nova capital.
       A edio dedicada a Braslia dava a medida da importncia e da seriedade do jornal. Passada uma semana, telefonei novamente, e a secretria foi logo dizendo o que eu j esperava ouvir: "Doutor Walter no est." Insisti, deixei recado, voltaria a cham-lo no dia seguinte.
       O pessoal do Paratodos que assistia s manobras ria, achava graa da minha ingenuidade, certos de que jamais eu seria atendida.
       Ao ligar para o banco no dia seguinte, ligao feita da redao do jornal, tive a maior surpresa ao ouvir a secretria pedindo que aguardasse um momento, ele ia atender... Atendeu, gentilssimo, marcou dia e hora para me receber.
       No gabinete do diretor do banco, enquanto esperava, notei a coleo do Paratodos sobre a mesa. No havia ido para o lixo, como sugerira um dos cticos do jornal.
       A conversa iniciou-se cordial, simptica e objetiva, eu, no querendo tomar tempo de pessoa ocupada, fui direto ao assunto. Pedi-lhe sua opinio sobre o jornal. Ele gostara muito. Ento, j que gostara podia ajud-lo a sobreviver. Cheguei a exagerar dizendo-me esteio das finanas do Paratodos e, precisando viajar, ausncia longa, teria que deixar ao menos dois nmeros garantidos. Contava com seu apoio.
       Doutor Walter ouviu com ateno a minha histria, riu. Riu com simpatia, e eu fiquei  vontade na hora de dizer de quanto necessitvamos para as duas edies do jornal. Ficou um instante calado, em seguida apertou um boto, apareceu uma secretria a quem deu uma ordem. Ela voltou pouco depois trazendo um pacoto de notas, dinheiro vivo que, ao chegar pouco depois  redao, despejei sobre uma prancheta diante dos olhos arregalados dos cticos e dos no-cticos.
       Ao despedir-me do amigo Walter Moreira Salles, emocionada, prometi trazer-lhe um presente da China. Prometi e cumpri. Trouxe-lhe um pano com o desenho de um cavalo. Segundo soube, at muito recentemente, o belo cavalo chins continuava pendurado na parede de seu escritrio, no banco.
       
       
       FAO UM PARNTESE
       
       
       No vou contar aqui as histrias e as aventuras que vivemos na companhia de Pablo e de Matilde na inesquecvel viagem ao Paquisto, Ceilo, ndia, Birmnia, China e Unio Sovitica. At gostaria de narr-las novamente, pois outra vez as reviveria, mas no posso. No vou repetir histrias j contadas. Em livro anterior precipitei-me e escrevi com detalhes o que por direito deveria caber neste livro, caso minhas histrias seguissem uma linha cronolgica. S que esta linha no existe, escrevo por linhas tortas. No consigo encarreirar fatos um atrs do outro no correr do calendrio. Embalo-me ao sabor das lembranas  medida que elas me vm  memria... Acabo de lembrar, por exemplo, que dessa viagem deixei de contar o comeo, o vo RioRoma, de onde partimos para Sri Lanka. Ainda  tempo.
       
       
       ESTREANDO AVIO NOVO                                    
       
       
       Ao entrar no avio, tinindo de novo, modelo tambm novo, janelas ovais, grandes, invadido de msica, no me contive: "Que maravilha!" "Maravilha? No estou vendo maravilha nenhuma", disse Jorge, visivelmente irritado.
       Viajante de mil viagens de avio, pioneiro dos hidravies Catalina, Jorge, no entanto, jamais capitulou, continua a ter o mesmo medo-pnico da primeira viagem, fica impaciente desde a vspera e durante o vo no dorme, no fala, dirige o avio o tempo todo, sabe quando as rodas so recolhidas ou quando so soltas, pressagia s vezes at quedas fatais. Por maior seja seu pessimismo, constante e exagerado, ele no consegue me impressionar, pois no tenho medo de avio e  nas longas viagens areas que consigo descansar completamente: leio, como tudo o que me oferecem, e em geral oferecem bastante, tomo champanhe, durmo o sono dos justos. Depois de tantos contras que levei ao tentar tranqiliz-lo, terminei por desistir.
       O que eu classificara como "maravilha" era um DC-7 C da Panair, de vo recm-inaugurado, que nos levaria a Roma, onde tomaramos o avio da Qantas para Colombo. Poderia louvar ainda mais esse quadrimotor da Panair: novidadeiro como ele s, poltronas largas, mais reclinveis do que as habituais, msica-ambiente, o supra-sumo em avies de carreira, na poca. Estirada, no maior conforto, dormi sono profundo a noite toda.
       Desligada  noite, ao apagar das luzes, a msica voltara a invadir o avio com o raiar do dia. Sacudindo meu brao, Jorge tentava me despertar: "Acorda, Zlia, o avio vai cair!... Acorda!..." "O avio vai cair?" Abri os olhos ainda sonolenta, sem entender o que se passava, teria ouvido bem? O avio chacoalhava, estava danado! Levantei a cortina e pela janela oval entraram raios de sol. No cu azul, nem uma nuvem sequer... "O avio vai cair, Jorge? Com esse dia to lindo?..." "Por isso mesmo", respondeu impaciente, "um dia to lindo e ele jogando desse jeito, completamente desequilibrado?... Ser que voc no percebe?" Claro que percebia, percebia cada vez mais pois o avio parecia enlouquecido, subia, descia, vira pra c, vira pra l, torna a virar... algo de anormal se passava, talvez um defeito no motor... dessa vez Jorge tinha razo de se afligir. Tive medo, no nego, segurei a mo dele e disse uma frase entre o ridculo e o pattico: "Se   para morrer, vamos morrer de mos dadas!" Achando que eu me divertia, como de hbito, no o levando a srio, Jorge revidou: "Nunca vi tanta irresponsabilidade, tanta inconscincia..." Apavorada estava, apavorada fiquei, no disse mais nada, bico calado, continuei segurando sua mo e assim permanecemos, mos apertadas, nervosos, at o momento em que a msica chegou ao fim e uma voz masculina anunciou: "Senhores passageiros, a nossa aeronave acaba de danar um samba em homenagem ao escritor Jorge Amado, que nos honra com sua presena neste vo." Houve at aplausos, mas Jorge no gostou da honraria: "Brincadeira tem hora... homenagens dessas, eu dispenso..." Disse em voz quase sussurrada, aliviado,  claro, porm ainda tenso.
       
       
       GABRIELA VEM AO MUNDO
       
       
       Somente ao regressar da viagem, dois meses depois, Jorge pde terminar seu romance. A mquina de escrever no fora aberta uma nica vez enquanto corremos mundo.
       Quitandinha voltou a ser nosso refgio, e em regime de trabalho duro o livro foi terminado.
       Partiram todos de vez: Gabriela, Nacib, Gerusa, Malvina, Mundinho Falco, Tnico Bastos, Coronel Ramiro... deixando um vazio em nosso quotidiano, alvio e nostalgia. "L se vo eles para outros braos, correr mundo...", disse a Jorge, sem esconder uma ponta de cime e incontrolvel melancolia, ao ver os originais do romance seguirem para a editora, em So Paulo, onde seriam impressos e receberiam uma capa de Clvis Graciano para embelezar o livro.
       Gabriela seria lanada em breve, naquele ano de 1958.
       Enquanto isso...
       
       
       
       
       
       SERIA FLORO?
       
       
       Aps o jantar costumvamos subir  sala de visitas dos velhos, onde, habitualmente, eles recebiam parentes e amigos, sala contgua ao seu quarto de dormir.
       A visita mais assdua era a de Amadinho, primo de seu Joo, bom de papo, que levava e trazia novidades, pessoa do bem-querer do Coronel. Com menos freqncia aparecia lvaro Amado, irmo mais moo do velho, personagem remarcvel, de quem Jorge conta histrias em seu livro O Menino Grapina; vez ou outra aparecia Jardelino, Jarde no carinho de dona Eullia, a irm mais velha, e esporadicamente tinham a surpresa de parentes vindos da Bahia e que por l passavam.
       Na sala, decorada com mveis remanescentes do famoso "palacete"  at as cortinas gren de damasco brilhante l estavam , os velhos assistiam televiso, ouviam noticirios do rdio, seu Joo jogava pacincia e as crianas se espalhavam.
       Havamos aderido ao entusiasmo dos velhos e das crianas, assistamos pela televiso a um divertido programa, comandado por Abelardo Barbosa, o famoso Chacrinha, concurso que premiava papagaios faladores.
       Uma empresa comercial patrocinava a promoo oferecendo prmio elevado ao proprietrio do louro que repetisse slogans de sua firma. Na primeira semana at fora fcil, o papagaio devia dizer apenas: "Casas da Banha"; vrios levaram o prmio. Na segunda semana, a recompensa seria maior e a frase a ser dita, maior ainda: "Casas da Banha, cada vez melhor." Desta vez, poucos acertaram. A ltima frase ento era impossvel, longa demais, verdadeira covardia esperar que uma ave, mesmo sendo um papagaio, falador, a repetisse diante de cmeras e holofotes: "Casas da Banha, uma famlia a servio do povo!" A bolada crescia, ia sendo acumulada, havia semanas que nenhum papagaio conseguia repetir a frase mais que difcil, impossvel.
       Na mira da dinheirama, proprietrios de louros os treinavam de manh  noite em suas casas, os inscreviam e, com eles em ponto de bala, compareciam ao palco do auditrio da TV, onde cinco, seis e at dez concorrentes eram testados a cada noite. Ofuscados pelos refletores, que em geral os inibiam, papagaios sados de casa devidamente escolados diante dos microfones ficavam idiotizados, tornavam-se mudos, desapontando seus treinadores, deixando-os alucinados: "Em casa ele dizia tudo to direitinho... no sei por que essa, agora..." O gongo soava anunciando o tempo esgotado, chamando novo candidato, e os derrotados ainda insistiam, inconformados: "Fala, meu louro! Casas da Banha, meu lourinho! Voc sabia to bem..."
       Os velhos e as crianas no perdiam um s programa, e ns ali firmes, sempre que podamos. Jorge, que adora papagaios, torcia para que eles no falassem, no abrissem o bico, era contra que submetessem os pobrezinhos quela tortura. Eu costumo me divertir dizendo a Jorge que ele tem sangue de papagaio. Pilherio ao v-lo na maior intimidade com qualquer papagaio que lhe aparea pela frente. Nunca vi coisa igual! Pode ser o mais rebelde e agressivo dos louros: ele o segura na mo, coloca-o de barriga para cima, faz-lhe coceirinhas, cafun, e o danadinho na dele, s deixando, regalado... o que me faz pensar, s vezes, que todos os que lhe caem  mo so fmeas... jamais foi bicado.
       Um dia Joo manifestou vontade de levar Floro ao programa, estava de olho no prmio acumulado, uma fortuna que seria dividida entre os concorrentes do ltimo programa, mesmo que no repetissem a frase completa, pois o concurso ia ser encerrado.
        Garanto que Floro  melhor do que qualquer um que j apareceu  tentava convencer-me, o sabido.
       "Levar Floro? Nem pensar!" Diante da minha reao, Joo entendeu que devia desistir da idia; velho e doente, o pobre Floro andava mais pra l do que pra c, calado, macambzio.
       Nos ureos tempos no havia outro mais falador, tivera seus dias de glria, cantava trechos da marchinha Aurora, trauteava tangos e boleros, assobiava, danava e repetia o vasto repertrio de palavres cabeludos que trazia na ponta da lngua. Chegara instrudo s mos de Jorge, presente do pai, que pelo louro pagara dinheiro alto. Criado entre mulheres no brega do cacau, ouvido fino e aplicado, aprendera muito, conquistara ttulo de doutor com felicitaes do jri.
       Naquela ltima noite do concurso, apareceria uma infinidade de papagaios inscritos, tantos quantos coubessem no horrio, excepcionalmente ampliado.
       Joo me pediu se podia ir  casa do Marcelo Reis  noite. Marcelo era seu colega de classe, seu chapa, filho de amigos nossos, La e o escritor Nlio Reis.
       Estaria ele tramando alguma surpresa? Pura cisma, logo me tranqilizei, pois La telefonara avisando-me que Joo jantaria em sua casa.
       O programa no comeara, havia ainda muitos comerciais pela frente e seu Joo inquieto, aos berros  s sabia falar aos gritos , pedia silncio  Milu e dona Eullia, que conversavam animadas. "Eta homem abusado! Nunca vi tanto avexamento!", reclamara dona Eullia. Milu concordara, assentindo com a cabea e ajudando: "Avexado por demais! No sei como a pobrezinha agenta...Virgem Maria!"
       Finalmente, o programa comeou. Os candidatos eram chamados um a um ao palco, os papagaios, na sua maioria, empoleirados nos ombros de seus donos, entravam na fila. De repente Chacrinha chamou: "Joo Jorge Amado"... Entreolhamo-nos surpresos, tnhamos ouvido direito? Claro que tnhamos! L estava ele! Jorge deu um salto: "Levou meu papagaio! Ah! Moleque!" Sa correndo para a rea de servio, Floro dormia tranqilamente.
       Ao lado de Joo, um meninozinho, o Vicente, vulgo Pupo, carregava uma caixa de papelo. "Joo e seu assistente..." gozou Jorge, j descontrado, depois de saber que Floro estava em segurana. Seu Joo e dona Eullia riam de perder o flego ao ver o neto em meio quela algazarra de papagaios batendo asas, alvoroados.
       Chegara a sua vez; diante do microfone, como um mgico na hora de fazer o truque, ordenou ao auxiliar que abrisse a caixa. Compenetrado, Pupo obedeceu. Dela saiu um papagaiozinho mirrado, mais parecendo um periquito, o Neco da La Reis, subtrado por Marcelo e seu assecla, s escondidas da me. Neco era o louro mais mudo do universo inteiro, jamais pronunciara uma nica palavra, embora Marcelo tivesse esperanas de que um dia ele se revelasse. Mas esse dia no foi aquela noite. Por mais que Joo, cinicamente, insistisse: ''Fala Neco! Fala Nequinho...!" Nequinho impassvel estava, impassvel permaneceu.
       Quanto ao prmio a ser dividido entre os concorrentes daquela noite, como fora anunciado, esperana dos dois comparsas, deu o azar de aparecer um papagaio que resmungou coisas com sua voz de taquara rachada, interpretadas por entendidos como a longa frase desejada. Esse levou a bolada, sozinho.
       
       
       ENEIDA  BELEZA!
       
       
       Quem conheceu Eneida de Moraes, pelos idos de 1935, pode testemunhar sobre a moa paraense, bonita de morrer com seus olhos verdes contrastando com o tom bronzeado da pele, impetuosa e valente, que chegou ao Rio disposta a endireitar o mundo. Eneida no fez por menos, engajou-se no Partido que lhe pareceu o melhor, o que combinava com seus anseios, o ilegal e perseguido Partido Comunista. Em 1935 foi presa como subversiva, mandada para a Casa de Correo do Rio de Janeiro, no pavilho das mulheres, onde, pela mesma culpa, curtiam pena valentes patriotas como a doutora Nise da Silveira, Maria Werneck, Beatriz Bandeira, entre outras, que arriscavam a liberdade por um ideal que lhes parecia nobre. Para esse mesmo pavilho tambm foram mandadas um dia, a juntar-se com as brasileiras, as lutadoras alems Auguste Elise Bergher  barbaramente torturada pela polcia brasileira  e Olga Benrio Prestes  mulher de Lus Carlos Prestes, quem no sabe? , que de l saiu deportada para a Alemanha de Hitler, onde morreu num campo de concentrao.
       Na mesma Casa de Correo, na mesma poca, no pavilho dos homens, tambm vtimas do contexto poltico do regime ditatorial da poca, eminentes personalidades brasileiras e estrangeiras como, por exemplo, Rodolfo Ghioldi, secretrio do Partido Comunista Argentino, Graciliano Ramos, Hermes Lima, Aparcio Torelly  o Baro de Itarar , Agildo Barata Ribeiro... entre muitssimos outros.
       Quando conheci Eneida, em 1952, ela era ainda uma mulher bonita, impetuosa, e j no militava no Partido, embora conservasse intactos seus princpios de esquerda.
       Verdadeiro caudilho, Eneida comandava todo um batalho de intelectuais, romancistas e poetas, pintores, cantores, atores de teatro, jornalistas, todos eles belezas de Eneida. "Beleza!" Assim ela os designava com sua voz forte e rouca:
         Carlos Drummond de Andrade?
         Beleza!
         Osrio Borba?
         Beleza!
         Jos, Joo e Elysio Conde?
         Beleza!
         Nazar e Odylo?
         Beleza!
         Elizeth Cardoso?
         Beleza!
         Antnio Bandeira?
         Beleza!
         Jerusa e Waldemar Cavalcanti?
         Beleza!
         Beatriz Costa?
         Beleza!
         Nlia e Afrnio Melo?
         Beleza!
         Harry Laus?
         Beleza!
         Renard e Rossini Perez?
         Beleza!
       Seus filhos, La e Otvio  Otvio fora famoso ponta-esquerda do Botafogo , eram seus amores, suas belezas maiores.
       Felizmente Jorge e eu estvamos no rol das belezas de Eneida. Digo felizmente porque amvamos essa amiga que dividia a humanidade em duas partes: beleza e porcaria; com Eneida era assim: ou oito ou oitenta.
         Fulano de tal, Eneida?
         Porcaria!
         E sicrano?
         Porcaria!
       Eneida morava num pequeno apartamento em Copacabana em companhia de Jos, seu gato. Vivia do trabalho jornalstico, cronista do Dirio de Notcias, para o qual escrevia uma crnica diria, colaboradora de vrias revistas e publicaes literrias.
       Costumava reunir aos sbados ou aos domingos, no apartamento, alguns amigos mais chegados, em torno de um feijo-tropeiro acompanhado de batidas. Nesses encontros semanais, ria-se a bom rir, discutia-se coisas srias, problemas graves, dizia-se besteiras sem tamanho, momentos de lazer e descontrao.
       O apartamento de Eneida cheirava a pipi de gato, e pelo jeito ela no se dava conta disso, pois repetia sempre: "...Nem parece que nesta casa mora um gato..." Cheirava a pipi? E que importava? A alegre companhia e o gostoso feijo nos faziam superar o desagradvel e penetrante odor.
       A grande paixo de Eneida era o carnaval, e sobre ele escreveu um livro, clssico: Histria do Carnaval Carioca. O Baile dos Pierrs, realizado a cada ano, bolado e levado avante por ela, tornou-se famoso no Rio. Eneida arrebanhava, entusiasmava e arrastava os amigos para o grande baile carnavalesco, todos fantasiados; ela  frente do bloco, o mais belo e animado de todos os pierrs, puxava o cordo.
       Refratrio a qualquer tipo de baile, sobretudo ao de carnaval, Jorge nunca se deixou levar pela conversa de Eneida, muito menos pela minha, doida para entrar no bloco e pulai at o sol raiar. "Se voc quiser ir, v... no sou eu quem vai te impedir...", investira Jorge um dia, na inteno de acabar com a minha insistncia, farto de saber que sozinha eu no iria. Se eu no ia a canto nenhum sem ele, quanto mais a uni baile de carnaval!
       
       
       O BLOCO DOS PALHAOS
       
       
       Nem sei dizer como foi que aconteceu, como se deu ao certo a capitulao.
       Estvamos na casa do ator Procpio Ferreira e sua mulher Hamilta, em Copacabana. Procpio nos convidara para um picadinho de agrio, especialidade de sua cozinha, na companhia de velhos amigos. L estavam Pedro Bloch e Miriam, Orgenes Lessa e Edith, e Kuchvlek, que nos fizera a surpresa de chegar ao Brasil como Embaixador da Tchecoslovquia. O solteiro inveterado casara-se e estava entre ns, havia pouco, com sua bela esposa, Dana.
       Enquanto passava na rua um animado bloco carnavalesco ensaiando para os prximos festejos, no embalo da conversa e das gargalhadas surgiu a idia, no sei de quem, de formarmos um bloco de palhaos para o baile do High Life, idia acolhida com o maior entusiasmo por todos. Jorge no tirou o corpo fora como de hbito, mostrou-se at disposto a topar a parada.
       O High Life, situado na rua Santo Amaro, era o mais quente dos bailes carnavalescos nos festejos do Rei Momo, no Rio. Estvamos a poucos dias da abertura do carnaval e, se quisssemos mesmo formar o bloco, devamos decidir logo.
       
       
       FANTASIAS E MAQUIAGENS
       
       
       Procpio se encarregaria de conseguir as entradas, nem seria preciso entrar em filas para obt-las. E as fantasias? Como conseguir doze palhaos a nosso gosto? Duas voluntrias se apresentaram, Edith e eu, dispostas a faz-los. Cada qual escolheu a cor de sua preferncia, e o resto, a compra do cetim e a confeco, ficou por nossa conta.
       No meio da grande animao, Kuchvlek ficara indeciso: doido para cair no barulho, estava ao mesmo tempo preocupado com sua posio de Embaixador de um pas socialista. Da famosa festa onde explodia a loucura, ele sabia apenas de ouvir dizer, desejoso de dela participar, mas o que diriam seus superiores se de tal coisa fossem informados?
       Mestre em maquiagens e caracterizaes, Procpio deu soluo ao problema: "O impossvel no h", disse. "Deixe comigo, reduzirei o ilustre Embaixador a um miservel ser vivente..." Jorge entusiasmava-se cada vez mais com a idia de ver Kuchvlek metido num palhao, talvez a razo de sua adeso ao bloco.
        J tenho at uma idia  Procpio convencia o Embaixador:  coloco em voc uma peruca loira e no Jorge uma ruiva... tenho mil perucas, cada qual mais extraordinria que a outra, ningum vai ficar em falta. Nosso bloco poderia at chamar-se: "Os irreconhecveis."
       Rindo s de imaginar a cara de Kuchvlek com uma peruca loira, Jorge concordava com toda e qualquer proposta que Procpio lhe fizesse.
       Para cortar e costurar uma fantasia de palhao no havia cincia, costuras mais complicadas eu j fizera, graas a dona Angelina, me prestimosa e precavida, que me forara, quando mocinha, a diplomar-me em corte e costura. No seria esse o problema, o que assustava era o tempo escasso para aprontar as doze fantasias.
       No apartamento dos Lessa instalamos um verdadeiro ateli de costura e, com grande animao e o maior prazer, Edilh e eu trabalhamos dia e noite, cortando e costurando os lindos e chamativos palhaos de cores diferentes, enorme gola de f'usto branco arrematada por um lao do mesmo cetim da fantasia do companheiro. O palhao de Jorge, por exemplo, era azul com lao vermelho e o meu, vermelho com lao azul, o de Kuchvlek, roxo com lao amarelo e o de Dana, amarelo com lao roxo.
       Era s reconhecer a mulher para descobrir o "irreconhecvel" marido. Verdadeiro segredo de polichinelo.
       No sbado de carnaval pela manh, prontinhas da silva, as fantasias foram levadas para a casa de Procpio, de onde o bloco deveria tomar o rumo do baile.
       Tudo o que  feito com amor e entusiasmo no cansa, o trabalho mais duro transforma-se em prazer, e eu no fugira  regra, estava mais lpida do que nunca naquela noite de sbado de carnaval.
       Todo mundo se aprontava para cair na folia, Procpio maquiaria apenas os homens, as mulheres que se virassem. Trancara-se com eles no quarto onde guardava o material de teatro e, pelas gargalhadas que se ouviam, a coisa devia estar muito divertida l por dentro, Procpio mandando brasa, aplicando os seus conhecimentos de artista na arte de transfigurar, devia estar fazendo misrias.
       Os palhaos saram de vez do esconderijo e, no fosse eu saber a cor da fantasia de Jorge, no o teria reconhecido. Cheguei at a pensar que haviam trocado as fantasias, to espantoso estava com aqueles cabelos ruivos, curtos e espetados, o nariz vermelho e o rosto cheio de sardas, um horror! Tambm irreconhecvel, Kuchvlek podia cair na farra sem medo. Ao v-lo daquele jeito, medonho, os cabelos verdadeira palha de milho, Dana quase desmaia, e a nica palavra que conseguiu pronunciar foi: "Desgraciado!" Os homens estavam, realmente, impagveis; Procpio caprichara.
       A fila para a bilheteria do High Life dobrava o quarteiro e, mesmo tendo os bilhetes j comprados, demoramos um tempo enorme antes de conseguirmos entrar, tal a aglomerao tomando a frente do porto.
       Se Jorge estava irreconhecvel, eu continuava com meu rosto, dando bandeira para ele ser descoberto. Logo de cara um rapaz, de marinheiro francs, vizinho da Rodolfo Dantas, atacou-o com conversa de deboche: "Al, Jorge! Voc to feio, com mulher to bonita!" Um arlequim bateu-lhe no ombro com intimidade: "A, hem, malandro! Caindo na farra?..." Uma odalisca, mais nua do que vestida, chamou-o de gostoso no maior chamego, inclusive com cheganas... No gostei, por que negar?
       Dizem os entendidos que toda e qualquer intimidade  permitida nos dias de carnaval, dias em que o povo desabafa, pe para fora os recalques de um ano inteiro.  o que dizem e acrescentam: "Quem no quer se molhar no sai  chuva."
       E quem disse que Jorge estava disposto a se molhar? No demorou a me propor darmos o fora, e eu concordei. Levamos quase uma hora para entrar no baile e no gastamos dez minutos para escapulirmos dele. Esbarrando em uns e outros, fomos saindo  francesa, abandonando miseravelmente nosso bloco de palhaos, que pulava animado no abafado salo, sem ao menos dar-lhes um adeusinho, um tchau de longe...
       A msica estridente das orquestras se revezando nos ritmos das marchinhas e dos sambas nos acompanhou at bem longe pela rua do Catete, quase ao Largo do Machado, onde, finalmente, conseguimos um txi que nos levasse para casa.
       
       
       OS ETERNOS PALHAOS
       
       
       Os dois palhaos, o vermelho e o azul, vivem at hoje no fundo de um ba. Durante anos e anos, emprestados a amigos, usados por nossos filhos j moos, na Bahia, eles pularam atrs de trios eltricos, se acabaram de danar em carnavais de salo. Tamanho nico, unissex, neles se metiam sem problema rapazes e moas de todo porte: altos, baixos, gordos, magros. O cetim conservou seu brilho, e as cores continuaram firmes, vivas. Palhaos da estima de todos quantos os usaram e deles guardam lembrana, so parte da memria de nossa famlia. Nossos netos at poderiam us-los, j tm corpo para isso, mas os tempos mudaram  e com que rapidez tudo muda! As fantasias hoje em dia so outras, sumrias, prticas, sem golas nem laarotes. Os rapazes se cobrem com leves "mortalhas", ou shorts e camiseta, as moas com seu fio-dental, assim designado na graa carioca, ou "cordo cheiroso", na picardia dos baianos, e saem por a!
       
       
       O CANTO DO CISNE
       
       
       Nicols Guilln, nosso compadre Nicols, chegara ao Rio.
       Companheiro de tantas viagens, cada reencontro depois de longa ausncia era sempre uma festa. Nicols chegava da Europa com um roteiro cultural: daria um recital e faria um programa de televiso em So Paulo. No Rio ele pretendia ver os amigos e descansar. Como no podia deixar de ser, a idia de um recital de Guilln no Rio em benefcio do Paratodos veio-me logo  cabea.
       Nosso pobre jornal agonizava. Por mais nos esforssemos para mant-lo vivo, sendo que Oscar muitas vezes tirara dinheiro do bolso para evitar o colapso final, de nada adiantara. Quem sabe, um recital de Guilln, to cotado, no ajudasse a prolongar a agonia?
       As visitas em busca de socorro, que Bulhes programara e realizramos juntos, entre as quais uma ao Embaixador Hugo Gouthier, pouco haviam rendido. Uma festa que fizramos na casa de Procpio Ferreira com a colaborao de muitos artistas cantando e tocando e o prprio Procpio declamando parte do monlogo As Mos de Eurdice, de Pedro Bloch, rendera o suficiente para mais um nmero do jornal, mas no pagara o salrio dos funcionrios, que viviam na maior dificuldade. O jovem Petrnio, o boy, pau-pra-toda-obra, figura indispensvel, passara a dormir na redao por no ter como pagar vaga em quarto.
       Com a experincia do recital de Neruda, nos pusemos em campo. Tnhamos a relao dos amantes da poesia, o que facilitava a venda dos convites. Guilln topou a iniciativa e prontificou-se a nos ajudar, faria o recital, com muito prazer, e inclusive nos deu uma lista de nomes a serem procurados. Quanto  residncia particular onde faramos a festa, tambm foi fcil encontrar: o apartamento de nossos amigos, Lourdes e Sinval Palmeira, advogados e donos de fazendas de gado na Bahia, ele velho militante, homem do Partido. Seu, rico apartamento em Copacabana, com um grande salo, uma beleza, foi posto  nossa disposio.
       
       
       O LEILO
       
       
       Amigo ntimo de Cndido Portinari, Guilln ia diariamente ao seu apartamento, no Leme, e, conversa vai, conversa vem, Portinari ficou a par da situao do Paratodos. Desejoso ele tambm de ajudar o jornal, resolveu fazer um desenho a ser leiloado na noite do recital.
       Tudo ficou combinado: quando Guilln terminasse a leitura dos poemas, faramos o leilo, Sinval Palmeira de leiloeiro buscaria, com sua simpatia e verve, conseguir o mximo pelo maravilhoso drago desenhado por Portinari.
       Grande poeta, bom declamador, charmoso e pcaro, Guilln abafou com: "Mi ptria es dulce por fuera y muy amarga por dentro...", encantando a platia que lotava o salo.
       O leilo comeou com lances tmidos, baixos para o valor da obra. Grande parte da numerosa assistncia partira aos ltimos aplausos ao poeta, mas restara ainda muita gente interessada no desenho; as ofertas porm no correspondiam  expectativa. Cansado de insistir, de bater sempre na mesma tecla, enaltecendo o artista e sua obra, sem muita esperana, Sinval repetia: "...Quem d mais, meus senhores? ...Quem d mais?" Ns do Paratodos ali na moita, na maior aflio, no vendo a coisa bem parada quando, de repente, veio a surpresa: na inteno de animar os concorrentes, Bulhes resolvera bancar o farol dando um lance altssimo.
       Doido por sair do impasse, acabar de vez com aquela agonia, Sinval no percebeu o golpe de Bulhes e nem sequer reparou que a oferta partira do funcionrio do jornal  na ocasio o mais duro dos duros  e sem perda de tempo bateu o martelo: "Vendido!" Bulhes e eu nos olhamos. Que fazer? Camos na gargalhada. "De qualquer jeito vai ser meu", disse ele  duro porm cavalheiro e fidalgo. Como conseguiu o dinheiro no  assunto meu, s sei que ele pagou ao Paratodos e ficou com o desenho. Creio que at hoje o doutor Antnio Fernando Bulhes de Carvalho possui o mais belo drago de Portinari.
       Nesse mesmo ano de 1958, o Paratodos foi fechado, irremediavelmente fechado!
       
       
       NA BOCA DO MUNDO
       
       
       Quando eu disse a Jorge que Gabriela e seus companheiros partiam para outros braos, iam correr mundo, no me enganara. S deixei de acrescentar que o romance ia cair na boca do mundo. E caiu. O que foi dito de Gabriela, Cravo e Canela de bem e de mal, no vou repetir. De bem foi tanto que at pareceria gabolice de minha parte ficar falando; ao que se falou de mal no dou confiana. Apenas sinto-me  vontade ao dizer que Gabriela foi um dos maiores lanamentos editoriais do Brasil, em todos os tempos. Os dados a esto: tiragens, tradues, adaptaes e apropriaes tais como nomes de bares e restaurantes, de licor, chocolates, molhos de pimenta, sucos de frutas, tudo Gabriela, e uma infinidade de coisas mais, sem contar as crianas que ao nascerem receberam o nome de Gabriela por causa do romance.
       Muitas edies foram vendidas rapidamente, e editores estrangeiros logo se interessaram pelo livro. Editado pela Knopf, Gabriela saiu nos Estados Unidos com apresentao, coisa rara, do prprio Alfred Knopf, diretor-presidente da editora, personalidade respeitada nos meios literrios; durante vrios meses esteve nas listas de bestsellers dos Estados Unidos. Paralela  edio de capa dura, a de bolso saiu com 150.000 exemplares a primeira; sucederam-se vrias, sucedem-se at hoje.
       Em seguida foi a vez da Frana; depois de falar ingls, Gabriela saiu falando francs numa edio de Pierre Seghers  editor e poeta. Aos poucos, a moa de Ilhus foi se tornando poliglota, falando trinta lnguas, as mais estranhas do mundo. Apenas um detalhe interessante: ela s chegou a falar polons depois que os soviticos, no dando bola ao que uns pequenos do Partido Comunista Brasileiro vomitaram contra o livro e seu autor, publicaram o romance. Em bela edio de Moscou, ilustrada por um artista brasileiro, Otvio Arajo, que na ocasio morava l, Gabriela saiu falando o russo. O tradutor do romance, Yuri Kaluguin, costumava levar visitantes brasileiros  Biblioteca Lnin de Moscou, para que vissem que o livro mais procurado, o mais lido, era o romance da moa Gabriela. Rapidamente ela chegou s Repblicas Soviticas, apresentando-se com o maior desembarao aos leitores lituanos, letes, ucranianos, usbeques e da por diante...
       
       
       GABRIELA NA TELEVISO
       
       
       Na onda do sucesso do livro, a TV Tupi interessou-se em fazer uma adaptao de Gabriela. Naquela poca os recursos tcnicos eram pequenos e as novelas televisivas comeavam apenas a engatinhar.
       Dirigida por Maurcio Sherman, a experincia no resultou, Sherman no podia fazer milagres. Do esforo salvaram-se a atuao de Grande Otelo no papel do moleque Tusca, num magistral desempenho, e a de Renato Consorte, um autntico Nacib. Apesar das deficincias, a novela, que entrava em horrio nobre, logo aps o Reprter Esso, teve grande sucesso, com audincia alta.
       Ao contrrio das falhas da novela da Tupi, a Gabriela da TV Globo, realizada em 1974, adaptada por Walter George Durst e dirigida por Walter Avancini, dispondo de tcnica avanada, a melhor que existia e timas condies de trabalho, foi de grande sucesso, marcou poca. Alm do mais, Durst e Avancini contavam com grandes atores, desde o menor coadjuvante at Paulo Gracindo e Snia Braga, todos excelentes, da melhor qualidade. Em matria de msica, era o que havia de melhor  a cano de Gabriela, por Dorival Caymmi, quem no a recorda? E os cantores? Entre tantas cantoras j famosas, estreava, lindamente, Faf de Belm. Tudo bom, tudo de primeira qualidade, porm um inimigo, o pior de todos, a censura da ditadura militar implacvel, castradora, surgiu numa evidente inteno de sabotagem, a obstruir-lhe os passos. A censura, fortalecida ao mximo pelo regime autoritrio reinante no pas, exigia a apresentao prvia dos captulos da novela e cortava-os, sem d nem piedade, s vezes por inteiro, da primeira  ltima linha, nas vsperas das gravaes: s de uma vez cortaram quinze. Batalha desigual, travada entre a fora e a razo, terminou depois de meses de uma luta sem trguas com a vitria da razo  verdade seja dita, escorada pela direo da Globo, que deu mo firme ao diretor e ao adaptador. Vitria que resultou, apesar dos pesares, numa das mais belas novelas de televiso at hoje realizadas. Ainda hoje, 16 anos passados, ela corre o mundo, e os que a assistem nunca a esquecem.
       Passevamos, certa vez, pelas ruas de Viana do Castelo, no norte de Portugal, quando vimos um menino de uns oito anos, correndo atrs de um gato: "Oh Nacib, anda c..." Achei graa e perguntei-lhe: "Diga-me, oh rapaz: por que deste o nome de Nacib ao teu gato?" Ele respondeu, prontamente: "Porque  macho, se fosse fmea seria Gabriela." Havia mais de dois anos que a "telenovela" Gabriela encantara os portugueses.
       Durante nossa primeira visita a Angola tivemos como acompanhante, em Luanda, uma jovem senhora, pessoa simptica e culta; mantinha certa cerimnia conosco, apesar de nos tratar de "camarada", tratamento, alis, adotado em geral: "...A camarada embaixatriz do Brasil, est aqui na recepo...", avisava, por exemplo, a telefonista do hotel. "O camarada Amado conhece o camarada Chico Buarque? E o camarada Roberto Carlos? E o camarada Dorival Caymmi?", perguntavam os aficionados da msica brasileira.
       A novela Gabriela terminara, os angolanos haviam assistido aos ltimos captulos, mas o entusiasmo perdurava. Em toda parte por onde andvamos, Jorge era crivado de perguntas sobre a camarada Gabriela, sobretudo acerca de um boato que corria de que a herona da novela havia morrido num desastre de caminho.
       A estada em Angola terminara, estvamos na vspera da viagem para Lisboa; nossa simptica acompanhante, quela altura, j se dera conta de que ramos pessoas simples, de pouca ou nenhuma cerimnia, e resolvera abrir o corao, satisfazer uma curiosidade: "Diga-me, camarada Zlia, a camarada sabe, por acaso, se aps terminar a novela o camarada Mundinho e a camarada Gerusa se casaram?" "Infelizmente no casaram", respondi contendo o riso, "o camarada Amado no permitiu que se casassem... eu at pedi..."
       "E por qu? indagou, penalizada. "Eles se queriam tanto..." Romntica, igual a mim, a moa angolana tambm desejara fazer esse casamento, como eu o desejei enquanto Jorge escrevia o romance.
       
       
       LANAMENTO NA BAHIA
       
       
       Por iniciativa do Professor Edgard Santos, Reitor da Universidade da Bahia, foi organizada uma festa cultural em Salvador, com a participao de intelectuais e artistas de vrios estados. Durante a semana do encontro, realizaram-se exposies de livros, mostras de pintura, conferncias literrias, e, numa tarde de autgrafos, no saguo do Teatro Castro Alves, Jorge assinou Gabriela.
       Do sul da Bahia chegaram amigos, sobretudo de Ilhus, onde o livro passava de mo em mo, folheado na curiosidade da busca do quem--quem, as pessoas se reconhecendo, encarnando-se nos personagens.
       Viajaram do Rio conosco, no mesmo avio, a convite do Reitor, Eduardo Portella, Jos Mauro Gonalves, Eneida, Jos Conde, Moacir Werneck e, entre outros amigos de So Paulo, o editor Diaulas Riedel.
       Pontual, pontualssimo  Jorge sempre chega adiantado aos encontros , nesse dia, mais do que nunca, ele saiu apressado enquanto eu ainda me arrumava: "Te espero l." L era o saguo do Castro Alves, onde deveria dar-se a tarde de autgrafos.
       O Teatro Castro Alves, novo em folha, fica pertinho do Hotel da Bahia, onde estvamos hospedados, o nico grande hotel de Salvador na poca.
       No fora somente Jorge quem se apressara naquele dia, pois, ao chegar quase em seguida ao Castro Alves, encontrei-o sentado entre Olga de Alaketu, esplendorosa na sua roupa de me-de-santo, e uma jovem bonita, que eu via pela primeira vez. J havia muita gente, e Jorge autografava sem parar. Fiquei alguns instantes parada diante dele, falei com Olga, elogiando a beleza de seu traje de baiana. Atarefado, Jorge nem levantou a cabea, no respondeu ao meu al. Quanto  jovem, no deu sinal de me conhecer, continuou onde estava. Ao ver-me ali parada como um dois-de-paus, Eneida no gostou e, num de seus arroubos habituais, resolveu tomar partido: "Se tu quiseres, tiro ela de l, agora mesmo!..." Eu no quis, embora tivesse vontade de querer. Meu amor-prprio mandava que eu me afastasse, e me afastei.
       Logo adiante encontrei Me Senhora e quase no a reconheo na sua roupa de passeio, pois sempre a vira no candombl usando seus trajes de me-de-santo. Rainha do candombl do Ax do Op Afonj, respeitada nos terreiros da Bahia, Me Senhora encontrava-se sentada num banco, longe do movimento. Amiga querida, filha de Oxum, como eu, irm de santo, ela me acompanhava com os olhos e fez-me sinal para que sentasse a seu lado.
         Quem  aquela junto de Jorge?  perguntou-me sem rodeios.
         No sei, Me Senhora, no conheo.
          amiga de Jorge?
         Tambm no sei, Me Senhora,  a primeira vez que a vejo...
       Embora eu tentasse disfarar, Me Senhora dera-se conta em seguida de que eu no estava contente; punha o dedo na ferida provocando um desabafo, querendo me ajudar. Assim como ela, eu tambm vira em seguida que Me Senhora estava contrariada, as duas na mesma situao. Me Senhora no confessava  uma senhora da sua dignidade no confessa , mas ela tambm devia estar magoada pelo que interpretava como ingratido. Devia estar sentada ao lado de Jorge. Seu lugar de amiga de toda a vida, de me-de-santo do candombl que fizera Jorge Ob de Xang. Sua cadeira tambm estava ocupada, posto que por direito lhe cabia.
         Jorge devia ver essas coisas... Devia te chamar para ficar junto dele...Tu no  a mulher dele? Ento!
         Jorge est distrado, Me Senhora... To ocupado que nem me viu e nem viu a senhora... no se deu conta...
       Eu procurava desculp-lo, mas me roendo por dentro. Me Senhora adivinhava meus pensamentos, ao dizer com todas as palavras o que por orgulho, amor-prprio, sei l!, eu calava.
         To ocupado? Distrado? Hum! Ocupado... Distrado...
         A senhora devia estar ao lado dele, minha me!... Por que no vai at l? Na certa Jorge nem sabe que a senhora est aqui...
         Me oferecer? Me mostrar? Hum! Sou uma pessoa de maior!
       A verdade  que nem Me Senhora nem eu nos chegaramos quela mesa onde ele se encontrava, rodeado de gente. De jeito nenhum!
       Ficamos conversando longamente, Me Senhora me dando conselhos e at uma reza me ensinou, orao tiro-e-que-da para amansar marido rebelde, avexado, nervoso, distrado, ingrato... Palavras "mgicas" que at hoje no esqueci: "So Amncio te amanso, manso cordeiro, meu marido e companheiro." A ser dita mentalmente  jamais em voz alta  para que o marido nem desconfie que a prece est em curso e repetida quantas vezes for preciso at obter seu resultado.
       No fosse ter encontrado, naquela tarde, a boa amiga, teria certamente voltado ao hotel, chorado, me massacrado, estragado a alegria de Jorge, acabado a festa.
         Oxum te proteja, minha filha  Me Senhora se despedia.
         Ax, minha me  beijei-lhe a mo.
       Me Senhora partia e eu me dispunha tambm a sair, andar um pouco, remoer pensamentos, pela rua, talvez repetir a orao a So Amncio, que acabara de aprender, quando chegou uma pessoa toda afobada me procurando, emissria de Jorge: "Ele est aflito..."
       Ao me ver chegar, Jorge levantou-se: "Onde foi que voc se meteu, minha filha?... Senta aqui, meu amor, junto de mim..." Sem fazer cerimnia, pediu licena  moa, que fosse desculpando, desocupasse a cadeira, o lugar era meu. Ai, Me Senhora! Eu no pedira tanto... que eb to forte era aquele?
       De longe Eneida mandou-me um beijo, ria satisfeita.
       
       
       FESTA DE ANIVERSRIO
       
       
       Joo completava 11 anos e eu convidei a turma. Chamei alm dos colegas de escola tambm as crianas do prdio, grandes e pequenas. Dessa vez, Paloma participou da festa, embora ouvindo provocaes do irmo: "Lugar de pirralha  na cama." Sendo festa de aniversrio, no houve aquela de: "Adulto no entra." Vieram, como sempre, os tios e alguns amigos e at Jorge, refratrio a aniversrios de crianas, fez uma concesso, pai  pai, participou e acabou se divertindo a valer.
       A pedido de Joo, no contratei o palhao Z Carioca, infalvel nos aniversrios das crianas. "J no tenho idade para isso... pega mal!..." Eu senti que meu filho, abrindo mo do palhao, fazia um esforo para firmar sua personalidade, sua condio de homem, abdicava daquilo que mais gostava. No insisti e resolvi ento substituir o pobre do Z Carioca, palhao modesto, esforado, por um programa diferente, completamente diferente, cultural; inventei fazer um concurso de discursos, do qual participariam os jovens convidados. Concurso como manda o figurino, com votao e prmios.
       Prevenidas de vspera, as crianas apareceram cada qual com seu discurso escrito. Janana queimara as pestanas sobre o papel branco para produzir uma obra-prima que comeava assim, se no me falha a memria: "Meus senhores, minhas senhoras, jovem aniversariante, jovens pais", aplausos de Jorge pela parte que lhe tocava. "Feliz foi o momento em que h onze anos passados o nosso aniversariante viu a luz pela primeira vez. Fnebre ser o momento em que o nosso aniversariante deixar de respirar o mesmo ar que ns..."
       Os irmos Mira y Lopez, Nuria e Rafael  Emilito ainda era pequeno para entrar no concurso  tambm haviam perdido algumas horas de sono, sobretudo Nuria, menina sria e compenetrada, na elaborao de sua exposio de idias. Aps os "excelentssimos", os "dignssimos" e os "ilustrssimos", que no devem faltar no incio de cada discurso que se preze, Nuria entrou na questo propriamente dita: "Quero parabenizar Joo, que hoje faz onze anos. Joo, voc hoje deixa de ser o menino bagunceiro e traquinas de outrora para ser, de agora em diante, um cavalheiro, um verdadeiro gen-tleman, para a alegria de todos ns."
       Paloma no quis ficar de fora. Com apenas sete anos, sem conseguir ainda escrever um discurso, dominou sua timidez e, quando menos espervamos, pediu a palavra, falou de improviso e, esquecendo o quanto Joo a arreliava, chamou-o de querido irmozinho, desejou que ele festejasse muitos aniversrios para que juntos comessem muitos docinhos gostosos e tomassem guaran. Fez uma pequena pausa antes de continuar: "Como no tenho mais nada a dizer, quero saber se voc gostou do meu presente. Gostou, Joo?" "Gostei, sim Paloma", respondeu ele num tom cerimonioso. O discurso de Paloma, surpreendente, nos deixou Jorge e eu babados, o achamos lindo.
       Os irmos Moreira, Renato e Ana Lcia, Yete, Robertino e Snia e ainda outros convidados chegaram com calhamaos escritos, dispostos a vencer, mas a vencedora, primeiro lugar, foi Nuria Myra y Lopez, segundo Janana, mas ningum ficou triste pois havia prmios para todo mundo.
       
       
       MOTORISTA DIPLOMADA EM SETEMBRO DE 1959
       
       
       Um dia, meu cunhado James Amado me perguntou se eu queria comprar um automvel. "Um arquiteto meu amigo, Marcos de Vasconcelos, quer vender o seu Renault, um renozinho jeitoso, um 'rabo-quente' bonitinho", me entusiasmava ele. At achei graa da idia. Possuir um automvel, eu? Jamais pensara nisso, nunca tivramos carro. Jorge no dirigia, nem eu tampouco. Andvamos de nibus, de bonde, quando ainda havia bondes, a p e, em caso de necessidade, de txi.
       O carro custava apenas 100 cruzeiros  seriam 100 cruzeiros mesmo ou mais? Como saber se no decorrer destes anos nossa moeda no fez outra coisa seno desvalorizar-se? De uma coisa, no entanto, estou certa: o carro era barato demais, uma pechincha, "dado", dizia James.
       Pensando bem, contando meus tostes guardados um a um, vi que tinha o suficiente para comprar o "rabo-quente", por cima cor de abacate, por baixo ferrugem pura. "Enferrujado mas com um motor excelente, uma beleza, tinindo de bom", me encorajava James, entendido em automveis. Nem precisaria incomodar Jorge pedindo-lhe dinheiro, nossas finanas apenas comeavam a melhorar, compraria o carro com as minhas economias. Ajudada por meu cunhado, aos poucos fui me entusiasmando: "Esse carrinho vai ser u'a mo na roda", pensava, "da maior utilidade para levar as crianas ao colgio..."
       Joo Jorge terminara o curso primrio no grupo escolar Marechal Trompowski em Copacabana e fazia, no momento, o ginsio no colgio Andrews, em Botafogo, bem mais distante de nossa casa, precisando tomar nibus e atravessar perigosas avenidas. Paloma ainda continuava no grupo escolar.
       Ao saber da minha pretenso, Jorge no achou graa, ficou assustado:
         Comprar um carro? Que idia mais maluca  essa? Ja imaginou voc dirigindo neste trnsito perigoso do Rio de Janeiro?  sem querer me proibir, Jorge resolveu se divertir, me assustando, para acabar de vez com a "idia mais maluca".  Est querendo me deixar vivo?... Eu no posso te impedir de ter um automvel, minha filha, mas quero que uma coisa fique bem clara: no vou pagar enterro e nem contas de hospital...
       No me deixei impressionar, no me dei por vencida e embarquei na brincadeira:
         Toca aqui  estendi-lhe a mo, rindo , vou comprar o carro, voc no vai ficar vivo coisa nenhuma, Deus me livre!, vire essa boca pra l, e prometo que no haver enterros nem contas de hospital a pagar, pode ficar tranqilo.
       Alarmado, vendo que eu no o levara a srio, ele voltou  carga:
         Ainda um aviso, nunca vou entrar num carro dirigido por voc. Depois no reclame...
       Dessa ameaa j no gostei, no gostei nem um pouco, fiquei queimada. Jorge exagerava, me ofendia, e ofendida ningum me segura.
       Naquele mesmo dia comprei o carro e entrei para uma auto-escola. Tinha pressa, tomava aulas dirias, levantava muito cedo, quando todo mundo ainda dormia, e me tocava para o Maracan, onde recebia lies no mesmo local onde seria feito o exame.  tarde, na garagem deserta, eu praticava as balizas, tendo Joo como orientador, orientador de meia-tigela, que mais se divertia do que orientava, me advertindo do perigo somente depois do estrondo da batida na coluna: "Bateu!", gritava rindo s gargalhadas, enquanto Paloma, ajuizada, sentadinha ao meu lado, no achava graa do comportamento do irmo.
       Na vspera da prova Jorge viajou para Recife, no queria nem saber... Excitadas, as crianas insistiam em me acompanhar, mas eu no era doida de lev-las, s iam me perturbar ainda mais do que j estava, morta de medo de ser reprovada, medo de me atrapalhar na hora, fazer um fiasco, coisa comum at com pessoas exmias no volante. No podia admitir a hiptese de um fracasso, no podia desapontar meus filhos e, afinal de contas, tinha a obrigao de passar no exame, pois nascera e fora criada entre automveis, filha de Ernesto Gattai, mecnico de profisso, dos primeiros campees de corridas automobilsticas em So Paulo, "s do volante" na dcada de 20; tinha responsabilidades, no havia dvida!
       Ao voltar do Maracan, de longe abanei o papelzinho que trazia na mo a Joo Jorge e Paloma, que, ansiosos, me esperavam na portaria do prdio; o papelzinho era o certificado de aprovao autorizando-me a retirar a carteira de motorista no Departamento de Trnsito. Sa na mesma hora, com os dois, diretos ao correio passar um telegrama para Jorge: "Motorista diplomada para servi-lo." A resposta chegou no fim da tarde: "Parabns. Todo juzo  pouco."
       
       
       O INESQUECVEL "RABO-QUENTE"
       
       
       O conselho que Jorge me passou por telegrama no serviu grande coisa pois dias depois, acompanhada de Misette, recm-chegada da Frana  a mesma Misette, Marie Louise Nadreau, mais do que amiga, uma irm, dos anos de Europa, de quem falo nos livros anteriores , parti dirigindo o carro para o centro da cidade a fim de apanhar minha carteira, j pronta.
       Na ida tudo bem, cheguei tranqila ao meu destino, no era hora de grande circulao, e, alm do mais, Misette ao meu lado me enchia de vaidade e coragem: elogiava exageradamente minhas qualidades de motorista, numa fartura de "trs bien' e "formidable!"...
       Esperei muito tempo na fila antes de ser atendida, tempo suficiente para que o rush tomasse conta do centro da cidade.
       Na volta, ao chegarmos  rua Uruguaiana, em pleno engarrafamento, parei num sinal vermelho e quando o verde apareceu, na afobao de engrenar a marcha, cometi uma barbeiragem e a "bagnole", como dizia Misette, empacou. O motor se recusava a pegar, vira a chave pra c, vira a chave pra l, afunda o p no acelerador mas, qual! Nada! Parecia morto para sempre. O sinal fechou e abriu novamente e eu continuava afobada sem saber o que fazer, pra que lado me virar, os carros de trs buzinando, os do lado passando rpidos antes que o sinal fechasse novamente... Misette, sempre solidria, me encorajava: "a va allef, "a va aller..." mas quem diz?... No ia. Enquanto isso eu ouvia as piadas dos curiosos, que adoram gozar a caveira dos outros, a se divertirem: "O que  que h, dona Maria?... a caamba no marcha?..." "D duro, boneca..." O jeito era pedir ajuda ao motorista de trs, se ele empurrasse com seu carro... o motor devia estar afogado. S ento me dei conta de que o vizinho de trs era um nibus enorme, nada mais, nada menos, e o motorista, com razo, temia amassar, desmontar, desintegrar o msero calhambeque agonizante ali em sua frente. Por fim, no vendo outro jeito, ele decidiu, ou vai ou racha, encostou de mansinho e foi empurrando com cuidado... S tive tempo de ouvir os aplausos da assistncia reunida na calada ao me ver partir feito uma bala, o motor roncando.
       Depois dessa experincia, quem  que ia acreditar que eu teria coragem de me meter noutra?
       Jorge chegaria no dia seguinte, s seis e meia da tarde, exatamente na hora do engarrafamento, e as crianas, no maior assanhamento, atrs de mim pedindo que fssemos busc-lo. "Deus me livre ir ao Galeo numa hora dessas, meninos! De jeito nenhum! No sou louca!" Mas resistir a apelos de crianas, quem pode? Eu pelo menos no pude. Joo e Paloma iam se sentir to infelizes se eu no fosse, podiam at perder a confiana em mim. Misette, sempre otimista, desta vez no deu palpite, ria apenas. Nem ela nem Janana iriam, se bem Janana, coitadinha, estivesse doida para embarcar na aventura, mas no pude lev-la, no haveria lugar na volta com Jorge e mais a bagagem.
       Irresponsvel total, louca, assumi a audcia, sem saber mesmo qual a reao de Jorge ao me ver motorizada.
       Metida no meu pobre carrinho, atravessei o cais do porto e entrei na avenida Brasil espremida, sumida entre nibus enormes e gigantescos caminhes de carga, me sentindo o prprio nufrago a se debater num mar encapelado. Suava em bicas, apavorada, temendo que o motor empacasse como na vspera. Ainda bem que criana no tem noo de perigo, e as minhas riam na maior descontrao, brincando de adivinhas: Joo perguntou: "Por que  que constroem sempre um morro em cima de cada tnel, hein, Paloma? Voc sabe?" Paloma se ofendeu: "voc pensa que eu sou boba?" Joo estava a fim de provocar a irm: "Ento me diga por que  que eu fui  Europa e voltei e voc s voltou?" Felizmente Paloma no topou a provocao: "Eu respondo s se voc me disser por que  que o azul  azul." Gostei de ver como a sabidinha aprendia a lidar com o irmo. Num dado momento, momento da maior aflio, quando eu repetia baixinho, sem parar, "ai meu Deus! Ai meu Deus do cu!...", Joo resolveu me fazer uma pergunta: "Me diga uma coisa, me, afinal de contas, voc acredita ou no acredita em Deus?" Sem desgrudar os olhos do volante, respondi: "A esta altura da situao, menino, no ponho em dvida a existncia de ningum!..."
       Esquecido da ameaa  ou, certamente, no querendo me desapontar , Jorge no disse nada quando, fingindo descontrao, pedi a ele que esperasse um pouco, ia encostar o carro.
       Sem dizer palavra ele embarcou com armas e bagagens, sentou-se ao meu lado e, com o mximo cuidado, devagarinho, chegamos em casa sos e salvos.
       Valera a pena a ousadia: daquele raid herico ao aeroporto do Galeo na hora do rush, conquistei para sempre a confiana de Jorge, que passou a ser desde ento meu co-piloto; inclusive nas longas viagens pela Europa.
       Alguns meses mais tarde, ele me ofereceu um Peugeot 403, carro de segunda mo mas em timo estado, o motor tinindo de bom  como diria James  e ausncia total de ferrugem.
       
       
       PASSAGEIROS ILUSTRES
       
       
       Vendi o renozinho pelo que paguei, no ganhei nem perdi. Antes de vend-lo, antes da chegada do Peugeot, tive a prova de coragem e de confiana de amigos que nele entraram sem hesitar: de Misette, j se sabe, j falei, mas no falei tudo, foi ela quem me encorajou a subir a serra de Petrpolis, chegar a Quitandinha motorizada; de Rosinha Casoy, que se aventurava ao meu lado por movimentadas avenidas e becos sem sada, nos meus primeiros treinos, antes de me brevetar; que dizer de Luisa Amado, minha cunhada, herica, que aceitou minha carona ao sair da maternidade com Fernanda nos braos, recm-nascida?
       Nesse carrinho, caindo aos pedaos, passearam e visitaram o Rio de Janeiro o escritor portugus Ferreira de Castro com Helena Muriel, sua mulher, numa temporada no Rio em 1959.
       At o fim de sua vida, Ferreira de Castro no esqueceu, recordava sempre nossos passeios no "rabo-quente". Costumava dizer, rindo divertido: "Com tal nome a parecer mais um brinquedo de criana..."
       Simone de Beauvoir e Sartre ainda alcanaram o valente carrinho e nele fizeram belos passeios, quando de sua estada no Brasil, em fins de 1959.
       Ao saber que Jorge no sabia dirigir, Simone pilheriou: "Somos mulheres de homens inteis. Sartre tambm no dirige, nunca se interessou. A nica experincia que ele teve com veculo de rodas foi com uma bicicleta: montou, partiu em frente e, completamente desgovernado, acabou se chocando contra um carrinho de frutas. Quem dirige sou eu."
       Em meu renozinho cor de abacate, subi muitas vezes a serra de Petrpolis. O pobrezinho chegava sempre  tenda do Alemo, l no alto, botando os bofes pela boca, envolto em nuvens de fumaa, morto de sede, pedindo gua. Enquanto nos regalvamos com os deliciosos cachorros-quentes e os tambm famosos doces do Alemo, o carrinho descansava, esfriava um pouco, tomava gua e depois nos conduzia, tranqilo, para o Hotel Quitandinha, nosso destino.
       
       
       ASSISTNCIA MDICA
       
       
       Com Misette me encorajando e as crianas insistindo, resolvi botar o renozinho na estrada e ir, pela primeira vez, a Quitandinha de automvel. Misette ainda no conhecia o hotel e eu queria mostr-lo  minha amiga. Jorge no embarcou na aventura, no era louco a esse ponto, tentou me dissuadir mas, vendo que no adiantava, desistiu.
       Chegamos muito tarde, a neblina na estrada e a pouca visibilidade na serra exigiam prudncia, marcha lenta, nada de correrias. Levamos mais de uma hora subindo e, l no alto, j encontramos a tenda do Alemo fechada.
       No apartamento havia novidade: um aviso colocado sob o vidro do criado-mudo, num carto com uma cruz vermelha, anunciava que fora instalado no hotel um servio mdico, com atendimento de urgncia a qualquer hora do dia ou da noite. At gostei da inovao e pilheriei: "J se pode adoecer  vontade..." Joo Jorge estava resfriado e, como l fazia frio, dei-lhe uma aspirina e tratei de mand-lo para a cama. Paloma chegara meio adormecida, foi s encostar a cabea no travesseiro e fechar os olhos. Apaguei as luzes, "fique quietinho, meu filho, v se dorme", recomendei a Joo, e sa com Misette para mostrar-lhe o hotel.
       Rodamos aquilo tudo, passamos pelos suntuosos sales desertos, pela piscina de gua quente, os antigos sales de jogos com roletas empoeiradas, abandonadas...
       Ao retornarmos ao quarto, tive a surpresa de encontrar tudo iluminado, Joo acordadssimo, na maior excitao, um mdico e uma enfermeira a seu lado. Ai, moleque! Ele os havia chamado, num SOS telefnico. O mdico pedira para falar com a me ou com o adulto responsvel, mas o menino "moribundo" estava sozinho, abandonado, dizendo que a me sara com uma francesa.
       O resfriado de Joo no piorara nem melhorara durante a minha ausncia. S a animao diminura, ficara encabulado ao saber que a visita mdica era paga e cara, no era grtis como imaginara em sua ingenuidade.
       
       
       A CASA DO ALEMO
       
       
       A Casa do Alemo, tenda ou quiosque, como queiram, onde eram vendidas, alm de doces e outras guloseimas, charcuterias de qualidade, ou delicatessen, no dizer do alemo, dono do negcio, era parada obrigatria dos viajantes que subiam a serra de Petrpolis. Enquanto Jorge trabalhava eu costumava sair com as crianas, ia at l, numa boa caminhada de quase um quilmetro, passeio agradvel de nossa preferncia. Nem sempre tomvamos a estrada asfaltada, nos divertia mais entrarmos por atalhos, embrenhar-nos no mato em busca de flores e amoras silvestres. Na tenda do Alemo eu me abastecia de salsichas, queijos e doces para o lanche da noite.
       Certo dia, enquanto passeava com Joo e Paloma, indo s costumeiras compras, pouco antes de l chegarmos fomos surpreendidos por forte temporal. A chuva cara de repente e o abrigo mais prximo, onde poderamos nos recolher, era um botequim repleto de homens bbados, as gargalhadas debochadas podiam ser ouvidas a distncia. Entrar naquele boteco? Nem pensar! O jeito era ficar do lado de fora, protegi dos por um toldo de lona,  espera de que o aguaceiro amainasse. Paloma deu uma espiada l dentro, bateu o olho num grande frasco de vidro, cheio de pirulitos coloridos, colocado sobre o balco. Cutucou meu brao: "Me, me compra um pirulito?" Respondi que no, no ia entrar naquele antro de tipos embriagados. Cutucou-me novamente: "Compra v, me..." "No insista, menina, no vou entrar a, j disse, e no me olhe mais l para dentro!" Falei sria para ser obedecida, no estava disposta a ouvir piadas e gracejos de bbados.
       A chuva continuava a cair, e Paloma cada vez mais inquieta. Num dado momento, no conseguindo conter-se, voltou-se para dentro do boteco e com sua voz grave chamou o rapaz que servia no balco: "Oh moo! O senhor tem a uma amostra grtis de pirulito?" A gargalhada foi geral, e o rapaz, gentil, veio at a porta trazer um pirulito grtis, certamente com pena da coitadinha da menina que devia estar com gua na boca. Adivinhei at seu pensamento: "J que a me  casquinha, toma l..!' Encabulada diante da gentileza do moo, quis pagar-lhe, insisti mas ele no quis receber, de jeito nenhum.
       Desde esse dia, para evitar a passagem em frente ao botequim, mudei o itinerrio de meus passeios, deixei de ir a p ao Alemo, nunca mais retomamos a agradvel caminhada. Em compensao, em dois minutos chegvamos ao nosso destino no "rabo-quente", o meu fiel renozinho, fiel at o fim. S me desfiz dele ao ganhar o Peugeot, presente de Jorge. Vendi-o de corao apertado. At hoje o recordo com carinho e saudades.
       
       
       PEO LICENA
       
       
       Com licena e me desculpo, no posso deixar de contar ainda um episdio de assunto na aparncia j encerrado, falo ainda uma vez de meu renozinho, no quero perder a oportunidade.
       No fim do ano passado, exatamente a 4 de novembro de 1991, estava eu muito na minha, em Roma, ouvindo Jorge falar no auditrio superlotado do Instituto talo-Latino-Americano quando, num pequeno intervalo, uma senhora acompanhada de um rapaz aproximou-se discretamente e, a meia-voz, em portugus, com forte acento italiano, me perguntou:
         Dona Zlia, creio que a senhora j no se recorda de mim... Faz tantos anos, mais de trinta... A senhora lembra de um renozinho que teve?... Lembra?
       O rapaz entrou na conversa para ajudar a me:
         Um rabo-quente, cor de abacate, lembra?
         Claro! Lembro, sim  respondi, surpresa.
       A lembrana de meu carrinho estava muito viva em minha cabea, estava mesmo presente pois, por incrvel coincidncia, a ltima coisa que escrevera antes de interromper meu trabalho neste livro para acompanhar Jorge na viagem  Itlia fora exatamente a histria de meu Renault, o inesquecvel "rabo-quente".
         A senhora sabia  continuou ela  que vendeu seu carrinho para meu marido? Eu fui com ele buscar o carro na garagem de sua casa. A senhora estava triste... nervosa... Nunca esqueci.
       Lembrava-me bem do jovem casal, compradores do carro, ele alto e forte. No momento da partida, o renozinho resolvera fazer birra, o diabo do motor se negava a pegar, e eu aflita, temendo que o comprador desistisse do negcio, aflita e ao mesmo tempo triste de v-lo partir para outros braos... Depois de empurra pra c, empurra pra l, o motor resolveu roncar e l se foram, Mariani e sua mulher, numa louca disparada, aproveitando o sinal verde na esquina da Atlntica.
       Curiosa, quis saber:
         Que fim levou ele?
         Ns o vendemos no momento de voltarmos para a Itlia. Em nossas mos foi muito bem tratado... meu marido vivia polindo ele... estava sempre brilhando...  disse-me a senhora Mariani, como se falasse a algum muito caro a ela e a mim.
       
       
       ESTAFETA COMPETENTE
       
       
       Chegara da Bahia um pacote contendo exemplares do volume Contos da Bahia, que vinha de ser publicado, de autoria do escritor Vasconcelos Maia. Jorge lhe mandara uma lista de nomes de pessoas s quais ele devia enviar livros autografados e, no desejo de prestigiar o amigo, dissera-lhe que os remetesse para nosso apartamento no Rio, ele prprio, Jorge, se encarregaria de entreg-los. Assim fazia, no seu hbito de dar o maior apoio aos lanamentos de livros de amigos. Jorge admirava e estimava Vasconcelos Maia. Somente no caso do destinatrio morar em bairro distante, Zona Norte ou subrbio, Jorge mandava o livro pelo correio acompanhado de uma recomendao de prprio punho. Se o fregus morasse muito perto, ele encarregava as crianas de deix-lo na portaria do edifcio. Foi o que aconteceu com Mcio Leo, residente a dois passos l de casa. Paloma fora a mensageira do livro de Vasconcelos Maia.
         Entregou o livro?  perguntou-lhe o pai ao v-la de volta.
         Entreguei nas mos dele mesmo.
         Mcio Leo estava na portaria?  quis saber Jorge.
         No, o porteiro  que no estava, a eu subi at o apartamento. Foi ele quem abriu a porta.
         Voc tem certeza de que no deixou em apartamento errado?
         No, pai. Era Mcio mesmo...
         E como era ele?  quis testar Jorge.
         Velhaco  respondeu ela, prontamente.
         Velhaco?  assustou-se o pai.  O que foi que ele te disse?
         Ele disse muito obrigado, mandou um abrao para voc.
         E por que velhaco?
         Velhaco porque  velho, ora! Ele tem a cabea toda branca...
       No domingo pela manh samos com uma ruma de livros, eu no volante, Jorge a meu lado dirigindo as manobras, Paloma e Joo de auxiliares. O carro chegava ao endereo indicado, eu encostava, os meninos saltavam e iam deixar o livro com o porteiro do prdio.
       A peregrinao comeou pela casa de Antnio Olinto, no Leme. Ele daria uma nota em sua coluna diria, no O Globo, "Porta de Livraria"; em seguida rumamos para a casa de Jos Mauro Gonalves, o Pepe  apelido dado por Eduardo Portella , que redigia coluna diria, "Hora H", na ltima Hora; seguimos para o Jardim Botnico onde morava Waldemar Cavalcante, colunista do O Jornal; no Jardim de Al, morava Mauritnio Meira, colunista do Jornal do Brasil; em Copacabana passamos pela casa de Eneida, do Dirio de Notcias, de Jos Conde, cronista do Correio da Manh, de Elysio Conde, diretor do Jornal de Letras, e demos uma parada na rua Baro da Torre, onde morava Srgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, humorista que fazia furor nas pginas da ltima Hora.
       De todos os colunistas procurados naquela manh, apenas Srgio Porto no era de nossa intimidade. Muito o admirvamos, mas no o conhecamos pessoalmente.
       Da porta do edifcio, as crianas voltaram com o livro. No havia porteiro para receb-lo. "Me d aqui", disse Jorge saltando do carro e subindo ele prprio ao apartamento do cronista. Tocou a campainha, ningum atendeu, voltou a tocar, nada! Quando j ia tentar uma terceira vez, antes de desistir, a porta se abriu e uma empregada, a mentira estampada no rosto, declarou que seu Srgio no estava. Jorge deixou o livro e desceu.
       O resto da histria foi-nos contado pelo prprio Srgio Porto, alis ele a repetia como a coisa mais inacreditvel que j vira, Jorge Amado, escritor badaladssimo, dando uma de estafeta, distribuindo de casa em casa o livro de um colega.
       Ao ouvir a campainha da porta, naquela manh, no estando a fim de receber ningum, Srgio mandara a empregada despachar o importuno. Nem quis acreditar quando a moa lhe disse que Jorge Amado, em pessoa, lhe deixara o livro. No podia ser, Maria no entendera nada. "Como era ele?", quis saber. "Um senhor forte de cabelos meio brancos..." Srgio Porto correu  janela ainda a tempo de v-lo quando entrava num renozinho.
       
       
       SRGIO PORTO
       
       
       Logo depois desse desencontro Srgio telefonou para Jorge e da nasceu uma grande amizade, amizade que durou at a morte prematura daquele que foi um extraordinrio mestre da crnica, do humorismo, da literatura colocada a servio do povo. Servia-se do humor para denunciar as mazelas da vida poltica brasileira.
       Os personagens das histrias de Srgio Porto, criaturas de carne e osso, tia Zulmira, a sbia, o primo Altamirando, o Mirinho, o mau-carter, Rosamundo, o distrado, Bonifcio Ponte Preta, o patriota, movimentavam, alegravam e engrandeciam diariamente o jornal de Samuel Wainer.
       Alm das peripcias da famlia de tia Zulmira, narradas com enorme graa, Stanislaw Ponte Preta estampava diariamente a foto de uma jovem em trajes sumrios, a certinha do Lalau, diminutivo de Stanislaw, Srgio Porto em pessoa. Essas "certinhas", cada qual mais bela e perfeita do que a outra, ele as escolhia a dedo nos shows de Carlos Machado, no teatro rebolado, sem contar as que iam procur-lo espontaneamente oferecendo-se candidatas, desejosas de aparecer. Pela manh, antes de ler as notcias, abramos o jornal na pgina do Lalau, assim comevamos o dia de bom humor.
       
       
       
       
       FEBEAP
       
       
       Srgio inventava coisas que na aparncia poderiam parecer brincadeira mas que, em realidade, eram srias, inteligentes. Criou, por exemplo, o Trofu Frescura, que premiava os eleitos do FEBEAP  outra inveno sua , Festival de Besteira que Assola o Pas.
       Lembro-me bem de um dos agraciados desse Festival, nos anos de 64, um certo poltico, na poca Ministro do Exterior do Governo Castello Branco, autor da declarao merecedora do prmio: "O que  bom para os Estados Unidos  bom para o Brasil." Por essa frase lapidar, o ilustre chanceler conquistou o Trofu Frescura, discernido pela famosa coluna, e durante dias e dias foi malhado em bom estilo.
       
       
       OS AMIGOS
       
       
       Quem pensar que Jorge  pessoa de amizade fcil, ao v-lo sempre rodeado de gente, engana-se redondamente. Os amigos do peito no so tantos assim, e ele os escolhe a dedo.  gentil e amvel com os que o procuram, porm facilmente esquece nomes e fisionomias, o que por vezes lhe causa embaraos, sobretudo em tardes de autgrafos.  comum aparecer uma pessoa que lhe pede, sorridente:
        Oi, Jorge, ponha a um autgrafo para mim! Dedicatria bem ntima...
       Jorge d tratos  bola para descobrir quern  o cidado que o trata com tanta familiaridade, recorre ao golpe.
         Em nome de quem?  pergunta.
         No meu mesmo, ora! No acredito que voc no esteja lembrando...
       Muitas vezes a pessoa  conhecida, at muito conhecida, mas como se chama mesmo? O nome no vem. Um vexame.
       Sentada a seu lado na inteno de ajud-lo, nem sempre consigo, pois comigo tambm acontece esquecer, d-me um branco de repente.
       O pior  quando uma pessoa o aborda com intimidade, relembrando fatos que ele absolutamente no recorda. Incapaz de desapontar quem quer que seja, deixa que o papo se estenda na maior camaradagem e depois da despedida me pergunta curioso:
         Quem ? Me esclarea, por favor!
       Certa vez Jorge descia no elevador de um arranha-cu, em So Paulo, quando, alguns andares abaixo, o elevador parou e nele entrou um senhor que lhe abriu os braos, "Oh! meu querido!..." Jorge no teve dvida, atirou-se. O abrao, melhor dito, o amplexo, durou at o trreo. Ao se separarem, depois de fit-lo, encabulado, o cidado lhe disse: "Me desculpe, me enganei... no era o senhor..."
       
       
       COMPANHIA PARA O JIL
       
       
       Com Srgio Porto a amizade foi fulminante. S podia ser. Afinidade perfeita, admirao mtua. Srgio era amigo de nossos amigos Vincius de Moraes, Aloysio de Oliveira, de Cyva, a valente comandante do Quarteto em Cy, de Antnio Maria, Caymmi, Joo Gilberto e de tantos mestres da msica popular brasileira, ele tambm compositor, pleno de graa popular, autor de duas composies carnavalescas: a. Marcha da Bicha Louca ou Sonata Opus 24 para Pederasta e Orquestra e O Samba do Crioulo Doido.
       Srgio passou a freqentar nossa casa e sempre que vinha filar o almoo no esquecia de telefonar antes me pedindo que lhe preparasse jil, "jil de qualquer jeito", dizia, "porm prefiro em rodelas finas, frito com alho". Com o novo comensal, passei a ter companhia, alm da de dona Eullia, a nica na famlia a gostar do amargo legume, para o meu jilzinho, vilipendiado, repudiado por todos os demais da casa.
       
       O MISTRIO DA CONTA DE CORAL
       
       Dorival Caymmi chegava sempre com a maleta onde costumava carregar seus pertences: carteiras de notas e de nqueis, talo de cheques, documentos de identidade, pente, chaves, lpis, caneta, blocos de papel, etc, j que no usava palet nem bolsos. Nessa maleta, verdadeiro cofre que ele no largava por nada deste mundo, havia ainda lugar para as prendas que ia ganhando aqui e ali. Eu tinha sempre uma coisinha para lhe dar, coisas que trazia das viagens, desde marcadores de livros, tesourinhas, escovas e carteirinhas a tecidos africanos e bubus. Dava gosto oferecer um presentinho a Dorival, ver como o valorizava elogiando, fosse ele o mais banal e insignificante.
       Naquele dia ele foi chegando e, como de hbito, insinuando: "Uma prendazinha, minha comadre?" Paloma estava pelas cercanias e disse: "Tenho uma coisa pra voc, Caymmi, e sei que vai gostar. Espera a." Subiu para seu quarto e voltou com uma conta de coral que havia ganhado do antiqurio Manolo, da Casa Moreira, na Bahia, em viagem recente. Ao mostrar uns colares, uma conta cara no cho e, procura daqui, procura dali, quando j havamos desistido de procurar Paloma a encontrou. Manolo deu-lhe a conta de presente.
       Ao receber o mimo das mos da menina, Dorival assombrou-se, no podia acreditar no que acontecia. Sem dizer palavra, abriu a maleta e dela retirou uma pulseira de coral, o fio partido. Ao romper-se, havia meses, uma conta rolara pelo cho, ele a procurara exaustivamente sem conseguir encontr-la. Era exatamente igual, formato, tamanho e cor da que Paloma lhe oferecia. Mistrio ou coincidncia? Preferimos  Caymmi e eu  optar pelo mistrio, mais sedutor, sem comparao.
       
       
       JANTAR BAIANO
       
       Foi Dorival Caymmi quem nos contou nesse dia que Aloysio de Oliveira trabalhava na montagem de um show para o Quarteto em Cy, o conjunto das irms mais afinadas do planeta, segundo voz geral, que cantariam o Samba do Crioulo Doido, de Srgio Porto. Falou-nos tambm na nova composio de Srgio, a Marcha da Bicha Louca, ".. .uma graa...", dizia Caymmi, encantado. Vincius e Caymmi participavam do projeto de Aloysio.
       Combinamos fazer um jantarzinho para reunir a turma: Srgio Porto, Caymmi, Aloysio, Vincius, Joo Gilberto, Astrud, Antnio Maria. Roberta faria pratos baianos, sem esquecer o jil para Srgio. Haveria violo, como de hbito, e, aps o jantar, ouviramos as novidades.
       Vincius, que fazia temporada na boate do Beco das Garrafas, poderia voltar depois de seu nmero.
       Eram quase onze horas quando, com evidente m vontade, Vincius abandonou a animada companhia, um copo de usque na mo. Voltou uma hora depois: "...Aproveitei o intervalo..." Assim como todos ns, Vincius queria ouvir a badalada Marcha da Bicha Louca, que Srgio prometera cantar naquela noite.
       Dos convidados, apenas Antnio Maria no chegara a tempo para a moqueca e o vatap. Havamos demorado o mximo para servir o jantar, mas ele s apareceu depois de meia-noite. Para compensar, trazia pela mo Amlia Rodrigues.
       Vincius entusiasmou-se com a chegada da fadista portuguesa, figura de seu encanto, mas tinha que partir para a lida, cantaria novamente  uma da madrugada e j estava quase na hora. Serviu-se de usque e de copo em punho saiu apressado: "Volto daqui a pouco..."
       Antnio Maria tirou da algibeira um frevo novo de sua autoria, um regalo de frevinho que, interpretado por ele, ficava ainda mais saboroso. Todo mundo cantou e at nosso pssaro sofre, que dormia entre as folhagens de uma cantoneira, na sala, despertou alvoroado e num trinado afinadssimo passou a imitar Joo Gilberto, sem dvida, entre os cantores presentes, o seu preferido.
       A noite se estendia pela madrugada, mais uma vez Vincius apareceu e s ento, encostada a uma coluna da sala, Amlia cantou o fado como s ela sabia cantar.
       
       
       FOTGRAFO A DOMICLIO
       
       
       A feijoada no fogo recendia pela casa. Caryb e Nancy, Jenner Augusto e Luisa, chegados da Bahia, viriam almoar conosco naquele domingo.
       Dessa vez o almoo era feito por Iracy, moa mineira, minha nova e tambm eficiente auxiliar. Roberta nos deixara, fora morar com a filha que sara do colgio interno, se tornava mocinha.
       Teramos um dia alegre, viriam para a feijoada Eneida, Portella, Z Mauro, Gerusa e Waldemar Cavalcante, Jos Conde e Beatriz Costa, todos eles amigos dos artistas baianos.
       Os homenageados chegaram logo cedo, havia muito assunto a pr em dia, conversa fiada sem compromisso, boa para divertir e fazer esquecer as mgoas.
       Por volta de onze horas bateram na porta. Um homem de trinta e poucos anos, moreno, carregando uma enorme pasta de papelo grosso, disse-me bom-dia, dona Zlia, como se me conhecesse. Sua fisionomia no me era estranha. A seu lado uma jovenzinha loura, fina, frgil, carregando duas pesadas bolsas de couro, que a faziam curvar-se.
         Desejo falar com o mestre  foi dizendo e abrindo passagem para entrar:  com licena, esta pasta est muito pesada...
       Dei um passo atrs , na inteno de barr-lo, mas ele foi em frente, adentrou: "Venha, Ana...", a moa obedeceu. Sem ouvir o que eu dizia, abriu a pasta, de onde surgiram enormes fotografias coloridas, verdadeiramente espetaculares, fotos de Picasso, de Brigitte Bardot, de Rosselini, da Rainha da Inglaterra, de meio mundo.
       Jorge havia subido com as visitas para cumprimentar os velhos e ao voltar encontrara a feira armada.
         So fotos minhas, mestre  disse o tipo , estou de passagem pelo Rio e preciso fotograf-lo, figura to ilustre no pode faltar na minha coleo.
       Falava portugus com ligeiro acento espanhol. Era simptico e resoluto, no respondia s perguntas que lhe faziam, ia em frente. Voltando-se para a jovem, que j havia depositado os pesados fardos no cho, com um estalo de dedos ordenou-lhe: "Vamos, Ana!" Ana era bonita, beleza simples, sem maquiagem, cabelos lisos, longos, cados nos ombros... O nico artifcio de Ana  se  que se pode chamar isso de artifcio  era a camisa de homem que usava sobre a pele, alguns botes abertos permitindo vislumbrar-se dois pequenos seios rosados e firmes.
       Ana no falava mas, obediente, agia. Foi tirando da sacola, primeiro de uma, depois da outra, um trip, o aparelho fotogrfico, alis, dois aparelhos, fotmetro, um gravador, um guarda-chuva branco... armou o circo direitinho, cada coisa em seu lugar.
       Jorge apresentou ao fotgrafo Jenner e Caryb, que apreciavam com interesse o movimento, entusiasmados com a novidade  ou com a ajudante do fotgrafo? , assunto para muita conversa mais tarde: "O senhor est com sorte", disse Jorge ao introduzi-los, "aqui esto dois dos maiores pintores do Brasil que vo enriquecer sua galeria... eles, sim, so importantes..."
       Com muita competncia, Ana armara o picadeiro. Guarda-chuva branco aberto para a perfeio da luminosidade, mquina enrascada no trip, tudo a contento mas, "no  fcil obter uma foto perfeita do mestre se faltar-lhe a alma...", explicou o artista. Era preciso pacincia, um pouco de convivncia, intimidade... para descobrir os melhores ngulos... Se no houvesse objeo ele nos faria companhia nas batidas e nos usques e, por que no?, nos croquetezinhos que chegavam quentes l de cima...
       Enquanto os homens se entusiasmavam com a pantomima, e, sobretudo, com a ninfeta Ana, trunfo do malandro, Nancy, Luisa e eu olhvamos aquilo tudo com a maior desconfiana; o sexto sentido feminino, arma que os homens no possuem, e por isso o chamam de m vontade, estava ali de prontido, de olho vivo.
       Impaciente, eu desejava que o raio do fotgrafo compreendesse a alma de Jorge de uma vez e se despachasse, desse o fora antes que chegassem os outros convidados, mas qual! O homem era poderoso ou, melhor dito, era um cara-de-pau.
       A situao no atava nem desatava, os homens dando corda, quando, num dado momento, nosso heri, segurando delicadamente meu brao, olhos splices, disse: "Dona Zlia, estou sentindo um cheiro delicioso de feijoada. Suponho que a senhora esteja oferecendo um almoo hoje... Quero lhe pedir um favor, nos convide a comer sua feijoada..." Dizendo isso, caiu de joelhos, as mos postas. O que eu podia responder? Nada, nem precisou. Ele j agradecia, beijando-me as mos.
       Almoo garantido, arregaou as mangas, voz de comando, comandou: Vamos comear!" Pediu a Jorge que sentasse na poltrona vermelha. Novo estalo de dedos: "Ana!" Ana ligou o gravador e ouviu-se em seguida uma suave melodia, hindu ou rabe? Msica prpria para encantadores de serpentes ou para meneios de ancas de odaliscas? "Fazer ambiente  fundamental!", ensinava o especialista. Outro estalo de dedos acompanhado do clssico "Ana!" A moa acocorou-se diante de Jorge, desabotoou mais um boto da blusa: "Inspirao!", prosseguiu o doutor, "olhe para a musa, mestre!"
       Percebendo que quase morramos de rir com aquela palhaada, ele no gostou e em tom enrgico pediu "silncio, por favor!" Impossvel no rir ao ver a cara de desnimo de Jorge ali crucificado  ou estaria inspirado? chi lo as? , doido por acompanhar Caryb e Jenner na galhofa.
       Os cliques da mquina em ao, verdadeira metralhadora... "Mais inspirao, por favor..." Ana abrindo a camisa listrada, boto por boto, os peitos cada vez mais  vista...
         Porreta!  dizia Caryb a meia-voz.
         Porreta!  repetia Jenner, tambm a meia-voz. Chegara a vez de Caryb ser fotografado. Tambm ele tinha direito  msica, porm no  musa a seus ps. Ana fora deslocada, no continuava acocorada mostrando os peitos. De p atrs do artista, sobre sua cabea despejou os cabelos, loiros de seda, deixando a descoberto apenas o rosto ornado pela peruca improvisada. "Ridculo!", disse Nancy, meio a srio, meio en broma, "no quero nem ver...", e saiu de perto.
       Com Jenner Augusto, os cliques no foram muitos porm suficientes para esgotar um rolo de 36 poses, rolo que, segundo me parecera, no existia na mquina. Chamei a ateno de Jorge para o fato e ele riu, talvez julgando que eu estivesse enciumada: "...Voc viu tudo isso?" ironizou. "Que bobagem! Voc est de p atrs..." "Vi tudo isso e muito mais!", disse e encerrei o assunto. Claro que eu estava de p atrs, nem podia deixar de estar, danada com toda aquela pataquada.
       Trabalho encerrado, Ana voltou a guardar os aparelhos, os amigos comeavam a chegar. Cabia-nos agora esperar pelas fotografias que ele ficara de mandar da Europa, para onde partiria no dia seguinte.
       
       
       COM A BOCA NA BOTIJA
       
       
       Alguns dias haviam decorrido do movimentado domingo da feijoada e a conversa ainda perdurava, prosseguiam as discusses sobre a seriedade ou o charlatanismo do fotgrafo, os homens o defendiam, as mulheres na oposio, atacavam, no o fotgrafo que at poderia ser muito bom, mas sua maneira de agir. Apenas numa coisa a opinio era unnime: as fotografias deslumbrantes, maravilhosas que mostrara no deviam ser dele, pois como conseguira ele atingir tantas e tais personalidades?
       Um dia, l ia eu pela avenida Copacabana quando dei de cara com o fotgrafo. Passou por mim, belo e formoso, e eu tive vontade de abord-lo, mas ele fingiu no me ver e rapidamente entrou num edifcio onde havia uma vitrine com fotografias na porta e uma placa indicando o ateli em cima, no primeiro andar. Quebrara a cabea para recordar de onde conhecia o tipo e agora lembrava: eu o conhecera havia muito tempo, quando fora tirar fotografias para o passaporte. No havia dvida, era ele mesmo.
       Ao saberem da descoberta, no sei se Jenner ou Caryb, creio que os dois juntos, resolveram botar as coisas em pratos limpos e passaram pelo ateli fotogrfico de Copacabana. L estava a figura atendendo um cliente. Recebeu-os com frieza, tratou-os como se os visse pela primeira vez. Caryb ainda espichou um olho l para dentro dos cmodos, mas nem sinal da moa. A escrava Ana sumira do mapa, ningum mais a viu. Quanto s fotos... ora, as fotos... que fotos?
       At hoje paira o mistrio. Por que teria o diabo do homem armado aquela historia? Com que inteno? O encontro comigo teria posto por gua abaixo algum plano? A verdade  que ele no pediu dinheiro a ningum; pelo seu trabalho recebeu apenas um almoo, batidas de limo e usque, nada mais.
       
       
       P.S.
       
       
       Histrias do mesmo gnero costumam acontecer conosco. Nossa casa  um reduto de surpresas, de casos extraordinrios. Ao escrever sobre as artimanhas do fotgrafo e Ana, a bela acompanhante, lembrei-me de outra histria parecida mas, como diria meu av Eugnio, completamente diferente. No vou narr-la aqui, pois  histria longa e aconteceu na Bahia, alguns anos mais tarde. Peripcias de um francs ma-neiroso, gordo, ruivo, sardento, feio como a necessidade, e sua acompanhante, lindinha, quase menina, simples, sem artifcios, angelical, que carregava pesada tralha do dito cujo e encantava os homens em geral. Fica para outra vez, quer dizer, para outro livro, se houver.
       
       
       BEATRIZ COSTA
       
       
       Conheci Beatriz Costa quando menina. Conheci  modo de dizer, eu a assistia representar no Teatro Santana quando das temporadas em So Paulo de sua companhia de revistas. A chegada da Companhia Beatriz Costa era um acontecimento, a colnia portuguesa se alvoroava, e as colnias no portuguesas tambm.
       Ver Beatriz Costa com sua graa, sua alegria, seus repentes era um prmio para mim. Prmio bem merecido pois durante anos e anos eu cumprira a tarefa, melhor dito, fizera a penitncia, de acompanhar minha irm mais velha no namoro pelas ruas, com chuva ou frio. Ir ao teatro acompanhando os noivos era, pois, a minha recompensa. Naquele tempo os namorados tinham apenas o direito de conversar na rua e olhe l! Andavam pra cima e pra baixo, na mesma calada, um c, outro l, nada de cheganas, nada de mozinhas dadas e beijinhos, nem falar! Eram acompanhados por um pau-de-cabeleira, quase sempre um irmo mais moo que garantisse a integridade moral e a virgindade da moa. Esse era meu papel, o de pau-de-cabeleira ou o de segurar a vela, como se dizia antigamente. O rapaz recebia permisso de entrar na casa da moa s depois de oficializar o noivado, de ter-lhe pedido a mo em casamento.
       Aps vrios anos de namoro de rua, minha irm Wanda ficara noiva, e o noivo era filho de portugueses, fantico por Beatriz Costa. Mesmo aps o noivado, minha funo de fiscal no terminara, continuaria at o dia do casamento. Fiscal, diga-se de passagem, muito camarada, sempre disposta a fechar os olhos em momentos necessrios. Com muita razo merecia a estima dos noivos.
       Jos do Rosrio Soares, meu futuro cunhado, no dormia no ponto e,  primeira notcia da chegada da companhia portuguesa, tratava de entrar na fila, comprar os ingressos, pois as sesses lotavam, no dava pra quem quisesse. Z Soares gramava com quatro entradas que lhe levavam parte do minguado salrio de empregado de banco, pois mame tambm gostava de ir: "No fica bem chegarem os dois sozinhos, s tantas da noite", dizia ela, "o que  que o povo vai dizer? A Zlia? A Zlia  criana, no conta..." Aos preconceitos de dona Angelina somava-se o desejo de ver Beatriz Costa, de quem era f incondicional. Acompanhar os noivos era sua chance, pois o marido no a levaria de jeito nenhum, seu Ernesto s se amarrava em peras e operetas, no ia nem a cinema. Vera reclamava, queria tomar meu lugar mas eu me defendia: " bebe! Mamar no boi voc no quer?..." Vera jamais se prestara ao papel de pau-de-cabeleira mas na hora de ir ao teatro bem que ela queria! Eu tinha conscincia dos meus direitos, no deixava que me passassem para trs, por nada no mundo eu cederia meu lugar.
       Encantada com a artista extraordinria, nica no gnero, em pleno palco a puxar um burro pelo rabo... a cantar o burri, a dizer coisas to engraadas que me faziam morrer de rir... nem podia imaginar que um dia seramos amigas e at comadres.
       Quando conheci Jorge, em 1945, ele me convidou para ver Beatriz Costa no teatro . Assistimos  representao e depois fomos ao camarim: "Vou te apresentar a uma pessoa extraordinria!"
       H muito conhecia a atriz sensacional, passei a conhecer a pessoa, amiga de Jorge. Amiga de Jorge e, desde ento, tambm minha amiga.
       
       
       QUEM TEM MEDO DE BZIOS?
       
       
       Falando em Beatriz, aproveito para contar a histria do bzio que Wilson Lins lhe ofereceu de presente. Muita gente acredita que um bzio possa trazer azar, outros colecionam bzios. Beatriz Costa no est no rol dos que os colecionam. Muito pelo contrrio.
       Depois de abandonar o teatro, a atriz passara a dividir sua vida entre Portugal e Brasil, mais precisamente o Rio de Janeiro, onde hospedava-se no Hotel Glria.
       Enquanto moramos no Rio, Beatriz almoava conosco todos os domingos. Ela nunca chegava de mos abanando, comprava, no carrinho da esquina, as melhores frutas que havia. Levava caramelos e chocolates para os meninos.
       Ao mudarmos para a Bahia, de quando em vez Beatriz ia passar uma temporada em nossa casa no Rio Vermelho, tornando-se amiga dos baianos, seus admiradores.
       Naquele ano ela fora para o Natal. Dois ou trs dias depois das festas apareceu l em casa o escritor Wilson Lins, velho amigo nosso e grande f da artista portuguesa, trazendo-lhe uma lembrana: um caramujo espetacular, enorme, cor-de-rosa, aba larga... Colocando-o no ouvido, podia-se ouvir o marulho das ondas, o ronco do oceano.
        Para voc, Beatriz...  disse, estendendo-lhe a prenda.
       Eu sabia da cisma de minha amiga contra os bzios, de seu horror pelas desgraas que eles podiam trazer, fossem bonitos ou feios, grandes ou pequenos. Tomei-o das mos de Wilson para evitar o vexame de v-lo cair ao cho e espatifar-se, pois, pela expresso de pavor que Beatriz esboara, conclu que ela no ia ter condies de segur-lo, mesmo que se esforasse. A muito custo, por muito favor conseguira balbuciar umas palavras de agradecimento, e olhe l! Tratei de levar o presente para longe de seus olhos.
       Ainda perturbada, depois que Wilson partiu ela nos pediu que dssemos o rumo que bem entendssemos ao que ela chamava de "asa negra", no queria nem ver... Que fazer com o maldito caracol?
       
       
       VODCA PARA O EMBAIXADOR SOVITICO
       
       
       Acontece que estava anunciada para o dia seguinte a chegada a Salvador do Embaixador sovitico, recm-credenciado no Brasil, que, a convite do Embaixador Assis Chateaubriand, proprietrio dos Dirios Associados, vinha conhecer a Bahia.
       Por telefone, Chateaubriand pedira a Odorico Tavares, diretor do Dirio de Notcias, rgo baiano dos Associados, que fizesse um grande almoo para homenagear o ilustre visitante, recomendando-lhe que no deixasse de ter vodca para brinde especial. Odorico cocou a cabea, "cad a vodca? No a tinha em casa e, na poca, era impossvel encontr-la  venda na cidade. No foi preciso, no entanto, pensar duas vezes para encontrar a soluo: a nica pessoa capaz de tir-lo do aperto era Jorge, com certeza devia ter em sua casa a bebida russa. Telefonou em seguida para o Rio Vermelho e foi logo propondo trocar uma garrafa de vodca por duas de vinho, alemo ou francs,  escolha. Jorge no titubeou: "Feito! Mande o vinho!" Contente, Odorico mandou em seguida seu chofer l em casa levando duas garrafas de vinho do Reno, com um bilhete pedindo a Jorge que mandasse a vodca pelo portador. Em vez da vodca, Jorge mandou-lhe um bilhete que dizia mais ou menos isso: "Obrigado pelo vinho,  exatamente o que pedi. Infelizmente no posso mandar a vodca agora pois ela ainda no chegou. Quem a vai trazer  o Embaixador da URSS. Assim a tenha mandarei levar. No se afobe, voc a ter a tempo..."
       Os telefonemas se sucederam pelas vinte e quatro horas que se seguiram, ameaas e gargalhadas de no acabar, Odorico querendo o vinho de volta, Jorge se recusando a devolver... prometendo a vodca antes do meio-dia.
       s onze em ponto, apareceu l em casa o Embaixador sovitico para uma visita de cortesia. Trazia para nos oferecer alguns tarros de caviar e duas garrafas de vodca. Sem perda de tempo, Jorge entregou uma das garrafas a Aurlio, nosso motorista, que saiu  toda para a casa de Odorico, j cansado de esperar.
       Durante a visita do Embaixador, Jorge lembrou-se que nosso amigo, o jornalista sovitico, Oleg Ignatiev, era um apaixonado por caracis e bzios, to doido que cravara na porta de entrada de seu apartamento, em Moscou, caracis de toda a espcie, de todos os tamanhos, formatos e cores, coisa extraordinria! Talvez pudesse mandar-lhe o caramujo de Beatriz atravs da Embaixada da URSS.
       Ao ver a pea, os olhos do diplomata brilharam, nunca vira nada mais belo; revelou-se tambm um apaixonado por conchas do mar. Claro que enviaria aquela raridade ao jornalista! Ele prprio se encarregaria de fazer-lhe chegar s mos, "mando sem falta", disse. Naquela noite, o caracol longe de casa, Beatriz dormiu sossegada.
       Semanas depois tivemos a triste notcia: o Embaixador sovitico morrera afogado na Barra da Tijuca. Oleg, segundo ele prprio nos contou mais tarde, jamais recebera o bzio, possivelmente o portador preferira enriquecer sua coleo particular.
       As coisas a gente vai sabendo aos poucos, vai de surpresa em surpresa: pois no  que Wilson Lins tambm era supersticioso e tinha horror a caracis? Sem supor que Beatriz Costa fosse de seu time, tratara de passar adiante a urucubaca que um amigo querido, o mdico David Arajo, outro apavorado, acabara de lhe ofertar. David, por sua vez, o recebera como presente de Natal de um cliente. Do cliente, at agora, nada se soube, se era cismado ou no. Dessa histria resta uma dvida: qual o responsvel pelo fim trgico do Embaixador? Quanto a mim, lavo as mos... "eu no creio em bruxas... mas..."
       
       
       MARIA FARINHA
       
       
       Costumvamos passar nossas frias, todos os anos, em Pernambuco, na praia de Maria Farinha, onde nossos amigos Dris e Paulo Loureiro possuam uma casa. Os velhos tambm viajavam na mesma poca, iam para a fazenda em Pirangi, o apartamento ficava fechado.
       Praia deserta, de pescadores, lugar de preguia, de conversa solta, de muita risada, Maria Farinha nos restaurava, desanuviava a cabea...
       Calo de banho, p no cho, l se ia Jorge  procura de um papo com Amaro Amarelo, o que se cansava s de ver o outro Amaro trabalhar... Quase todos os viventes daquela praia chamavam-se Amaro e eram aposentados.
       Raramente amos  cidade e quando o fazamos nos hospedvamos com Rui Antunes, professor da Faculdade de Direito, e Las, famlia numerosa, casa imensa  beira do rio Beberibe  ou seria o Capiberibe? , mangueiras frondosas, cho forrado de mangas de tudo quanto era qualidade... As mangas cadas espontaneamente perdiam a graa, rachadas, amassadas, ningum as queria. Era preciso colh-las na rvore, e o especialista no assunto era Black-Boy, empregadinho da casa. Difcil de ser pronunciado pelos demais domsticos, o apelido que lhe dera o patro, Black-Boy, fora abreviado para Breque, simplesmente.
       Certa manh, desejosa de me regalar com uma bela manga-rosa, pedi a Black que trepasse na mangueira e escolhesse uma no ponto. Foi a que surgiu a cozinheira  sua procura:
         O que tu t fazendo a, Breque?  perguntou-lhe a moa, cansada de procur-lo.
         Aquela mul pediu pra eu cole manga...  respondeu Black.
         Aquela mul? Que mul, Breque?
         Aquela l...  apontava-me sob uma das mangueiras onde, rindo, eu acompanhava a cena.
         E dona Zlia  mul, Breque?  repreendeu-o a cozinheira.  Mais respeito!
         xente! Ento ela  hme?
       Era correr a notcia de que Jorge estava na terra para chover convites para almoos e jantares, apareciam amigos para os papos, para as rodadas de pquer, Carlos Pena Filho, Benaia, Marcos... e Pelpidas, Ascenso Ferreira, Hermilo Borba Filho, Paulo Cavalcante para conversas polticas e literrias.
       Na casa do poeta Carlos Pena, os almoos comandados por dona Otlia, sua sogra  irm de Odorico Tavares , eram magnficos e copiosos e a companhia tambm era da melhor qualidade. L encontrvamos, com freqncia, Ariano Suassuna, Chico Brenand, Otvio Freitas Jnior, Lula Cardoso Aires, Cristina Tavares, s vezes Miguel Arraes aparecia, papo de no acabar. Sendo que Carlos Pena sozinho bastava para fazer a festa. Quem no se encantava com ele? Com ele, com Tnia, sua jovem e bela mulher, com sua filha Clarinha?
       Visitvamos Gilberto Freyre no Solar dos Apipucos, bebamos a cachaa de pitanga, almovamos com ele e Magdalena.
       
       
       QUITRIA
       
       
       Quitria era a costureira da casa dos Pena, passava os dias ali sentada a fazer suas costurinhas, os olhos apertados, dois fios de linha, inacreditvel que conseguisse enxergar algo, mesmo que fosse um foco de luz, atravs de to estreitas brechas. Mas nem culos usava. Rosto largo, redondo, achatado, tipo estranho de mestia, no era mulata nem cafuza, tambm no era branca, pele morena rosada com sardas, cabelo espichado preso num coque ao alto do cocuruto. Alta, corpo tipo balde, como ouvi dizer na Bahia, largo em cima, fino embaixo. Personagem singular!
       O sonho de Quitria era morar no Rio de Janeiro, a cabea voltada para a filha que sumira, cismara que talvez a encontrasse no Rio.
       Um belo dia, Quitria apareceu de surpresa na Rodolfo Dantas. Hospedara-se com um pessoal conhecido, num subrbio distante, e andava atrs de trabalho. Trabalho de costura era o que no faltava l em casa, porm quarto para Quitria no havia. Nem para Misette tivramos um quarto; Misette chegara da Frana e dormira por algum tempo no diva da sala, at mudar-se, aproveitando o oferecimento de Clara e Nissin Castiel, que, de partida para o sul, puseram o apartamento em Copacabana  disposio da amiga francesa.
       Falei com Glauce Castro, mulher de Josu de Castro, pernambucanos como Quitria. O apartamento de Glauce, prximo ao nosso, era enorme e talvez sobrasse um quartinho para a costureira. Por sorte sobrava, e foi assim que Quitria passou a dormir na casa de Glauce e a trabalhar para as duas famlias. Entre Quitria e Milu no saberia dizer qual a mais surpreendente e divertida, ambas gentis e educadas, ambas faziam companhia aos velhos, ambas nos prestavam servios, ambas alegravam a casa.
       
       
       VASCO MOSCOSO DE ARAGO
       
       
       Nas andanas por Pernambuco, sobretudo em Maria Farinha, onde a preguia era a me de todos os prazeres, nas conversas de sotaque com os Amaro em geral, nas pescarias com Paulo Loureiro, foi que comeou a reinar na cabea de Jorge, a crescer com fora e a se desenvolver a histria do Capito Vasco Moscoso de Arago.
       Caladinho, sem dizer nada a ningum, ele comeou a trabalhar, s vezes em Quitandinha, a maior parte das vezes no Rio mesmo.
       O livro j estava bem adiantado quando surgiu um dia Carlos Scliar, vinha cobrar uma promessa de Jorge que se comprometera a escrever uma histria para a revista Senhor, cuja parte artstica e grfica ele dirigia.
       Jorge no sabe dizer no a ningum, sobretudo em se tratando de um amigo como Scliar. Afinal de contas, ele havia prometido, Carlitos no abria mo e no houve jeito. Deixou de lado o Comandante com suas verdades e suas fantasias, partiu para outra.
       Ao me ver desanimada guardando o texto na gaveta, aquelas pginas que ele escrevera com tanto gosto, tanto entusiasmo, Jorge me tranqilizou: "No se preocupe, eu escrevo a historinha num instante..."
       Foi para a mquina, novas idias, novo entusiasmo, trabalhou dia e noite e no fim de dois dias nasceu Quincas Berro d'gua, inteiro, de carne e osso, comandando sua vida, comandando sua morte. Quitria apareceu levando-lhe um copo de suco de laranja sem nem sequer imaginar que naquele momento, inspirado com sua presena, o escritor batizava a amante de Quincas com seu nome e ainda por cima lhe escancarava os olhos. Assim nasceu Quitria do olho arregalado.
       Dois dias certinhos, nem mais, nem menos. Nem deu tempo pra curtir. Quando recebi os originais para passar a limpo a histria j estava pronta, inteira. Dentro de Jorge ficara o que ouvira em Pernambuco nas conversas de sotaque, conversas sem compromisso, conversa de quem no tem o que fazer, conversa de preguia... Da sara A Morte e a Morte de Quincas Berro D'gua, em dois dias, nem mais, nem menos.
       
       
       VALENTIM APARECE
       
       
       O Coronel Joo Amado, de natural vibrante, enrgico, andava jururu, recolhido no seu canto, o olhar perdido voltado para o nada... "Joo no anda bem", repetia dona Eullia, preocupada, "est dizendo tanta besteira... falando que v espritos ..."
       Inclinado ao espiritismo, seu Joo, no entanto, no fazia alarde de suas suspeitas  ou certezas?  sobre os mistrios do alm, talvez receoso de que no o levassem a srio, acanhado diante dos filhos, os trs materialistas, que talvez no gostassem da conversa. Preferia engolir em seco.
       Homem duro, jamais dava o brao a torcer, o velho Joo Amado dessa vez se entregava. Queixava-se de dor horrvel na virilha, dor que queimava, mo de fogo a apertar-lhe as carnes, a massacr-lo.
       Convocada por Joelson uma junta mdica, o Coronel foi hospitalizado para submeter-se a uma srie de exames, anlises de toda espcie, e nada foi encontrado, nenhum indcio do que pudesse causar-lhe as dores.
       O velho, paciente, um sorriso de ironia: "No vo encontrar mesmo... eu  que sei do que se trata... podem at pensar que estou mentindo..."
       Um dia, ele me perguntou se eu estava vendo um vulto a seu lado. Olhei com ateno, no vi vulto nenhum mas no o desanimei: "s vezes so coisas que nem todos podem ver..." O velho criou coragem:
        Pr a mim  o esprito do Negro Valentim...
       O Negro Valentim fora seu companheiro de lutas desde o incio da conquista da mata, no sul da Bahia, homem de confiana, co-de-fila. Mesmo nos maus tempos, quando o Coronel perdera a fazenda, no abandonara o amigo, se mantivera a seu lado. Com o Coronel veio para o Rio de Janeiro, onde, sob a batuta de dona Eullia, aprendeu a cozinhar e tornou-se cozinheiro da famlia.
       Como de hbito, uma vez por ano, seu Joo e dona Eullia viajavam para o sul da Bahia, passavam dois ou trs meses ausentes, deixando a casa aos cuidados de Valentim.
       Na volta de uma dessas viagens os velhos no o encontraram mais. O Negro havia morrido. Na ausncia dos patres, sentira-se mal, fora recolhido  Santa Casa, onde morrera, sendo enterrado como indigente.
       Da a cisma do Coronel, que nunca se conformara com isso e justificava-se: "...Estava eu mais Lalu na roa, longe de telefone, de telegrama..." Embora consciente de no ter tido culpa, o fato do velho amigo ter sido enterrado como um co transformara-se num fardo a pesar-lhe na conscincia. Carregava consigo aquela mgoa, quase remorso...
       
       
       DONA RAIMUNDA
       
       
       Confiante na minha compreenso, o Coronel perguntou-me se eu no conhecia um centro esprita com o qual pudesse entrar em contato. Lembrei que Beatriz, mulher de Alcedo Coutinho, era esprita e tinha ligaes com um centro.
       Mulher de mdico comunista, pessoa de forte personalidade, Beatriz acreditava nos poderes do sobrenatural e deles se servia. "Dona Raimunda" , disse-me, ao inteirar-se do assunto, " a pessoa indicada: mdium competente, pessoa direita, confivel. No cobra nada e caso queiram lhe dar qualquer coisa ela aceita para as suas caridades. Pode ter certeza de que se dona Raimunda no der jeito, ningum mais d!"
       De aparncia modesta, cabea branca, dona Raimunda me recebeu ao procur-la em sua residncia, dois pequenos quartos impecavelmente limpos, nos fundos de uma casa na Glria.
       Fui direto ao assunto: havia uma pessoa sofrendo e eu ia em busca de ajuda. Dei-me conta em seguida de que estava diante de uma pessoa de muita dignidade, figura igual s que eu conhecera na Bahia, mes-de-santo dos candombls, gente simples, de trato requintado, inteligncia aguda.
       Dona Raimunda no quis saber detalhes. Surpreendeu-me ao declarar que tratando-se de casa de incrdulos a corrente para livrar meu sogro do encosto devia ser forte e para isso necessitava da presena de, no mnimo, oito irmos, no caso, irms, pois s trabalhava com mulheres. Essas irms eram pessoas humildes, que labutavam o dia inteiro e s dispunham da noite para suas aes de caridade. Moravam em lugares distantes, seria preciso ir busc-las em suas casas. Esse era o nico problema. Felizmente eu estava de carro novo, o meu Peugeot era bastante amplo, e se as moas fossem midas e magras como dona Raimunda, no ia haver problema, podia carregar at dez. Estaria na casa de dona Raimunda, firme,  hora que ela marcasse e juntas apanharamos as oito pessoas.
       Antes de procurar dona Raimunda, havia consultado Jorge, e ele tambm era de opinio de que tudo que se pudesse fazer para agradar o pai, alivi-lo de seu sofrimento, devia ser feito. Mas me preveniu de que no estaria presente  sesso.
       Entusiasmado com a minha demarche, seu Joo criou alma nova, passou a se distrair contando os dias que faltavam para o encontro e contava em voz alta: "Faltam quatro dias!... Faltam trs!... Faltam dois!... Falta um!..." Finalmente o dia chegou e desde cedo o velho comeou a contagem regressiva das horas.
       Sa para a casa de dona Raimunda antes do tempo, morta de pena de ver a agonia do velho a me perguntar a todo instante: "No est na hora, no, filha?"
       
       
       SESSO ESPRITA NA RODOLFO DANTAS
       
       
       Cheguei em casa mais tarde do que previra, no fora fcil enfrentar o trnsito por bairros populosos: Alto da Tijuca, So Cristvo, Vila Isabel... De pijama branco, estendido na poltrona reclinvel, seu Joo gemia. Dessa vez queixava-se em voz alta: "Hoje ele est danado!" O atraso o afligira demais, deixara-o agoniado.
       Milu fazia companhia  dona Eullia na descrena e Quitria se desmanchava em prstimos, enquanto esperava que o milagre acontecesse.
       Joo Jorge ficou no maior assanhamento ao ver-me entrar comboiando o bando de mulheres. Na sua maioria, as irms eram moas de maior, pessoas simples, vestidas modestamente, de branco, um branco impecvel. Paloma mantinha-se calada, sentadinha, s observando.
       Dona Raimunda cumprimentou o paciente.
        Est doendo muito?
         Muito!  respondeu ele.  E fogo, a mo de brasa me aperta aqui  mostrava-lhe a virilha.
       Dona Eullia postara-se atrs do Coronel, vigilante, e no gostou quando dona Raimunda apalpou a virilha do marido:
         Epa!  reclamou.  T danado! Chiii...
       Aflito, seu Joo olhou para mim, como a me suplicar que a afastasse da sala, temeroso de que, "descrente como ela s", viesse a entornar o caldo. Ele bem que lhe pedira para no aparecer mas ela, teimosa, no arredava p.
       Corrente feita, as irms de mos dadas repetiam em coro preces, palavras simples, improvisadas, bonitas, orao diferente das oraes catlicas que eu sabia, decoradas na ponta da lngua.
       Dona Raimunda comandava a ciranda docemente quando, num dado momento, transfigurou-se, deixou de ser a frgil criatura de fala mansa, delicada, dbil, tornou-se forte, altiva, enrgica, e at a estatura parecia ter aumentado. Voz de comando, dirigia-se ao invisvel, a algum que somente ela enxergava:
         Larga o mdium! Suma daqui! Voc j no  da terra! Larga o mdium!...  repetia com veemncia.
       Passava a mo sobre o corpo do mdium como se tentasse afastar algo e com gestos largos atirava o algo para longe...
       As exclamaes de dona Eullia prosseguiam entre dentes. Milu a seu lado fazia-lhe eco, resmungava palavras sacras, formavam um curioso dueto.
       Dona Eullia:
         Eta ferro! Milu:
         Ave Maria! Dona Eullia:
         Chiii! Milu:
         Cruz credo! Dona Eullia:
         Eta!
       Milu:
         Valei-me, Nossa Senhora!
       Ainda bem que seu Joo, concentrado, j no prestava ateno s duas, ainda bem pois o esbregue que elas iriam levar seria daqueles que s o Coronel era capaz de dar.
       A reza prosseguia, as irms lavadas em suor, dona Raimunda, encharcada, discutia com o esprito do Negro Valentim, teimoso, grudado no mdium feito carrapato, sem querer desgrudar, sem ouvir seus conselhos e seus ralhos repetidos ora mansamente ora aos gritos: "Larga o mdium, j disse! Voc j no pertence  terra!..."
       Tudo indicava que o teimoso, por fim, cedera, aos poucos dona Raimunda ia voltando ao seu normal.
       Ainda uma vez ela dirigiu-se ao paciente:
         Est doendo ainda?
       Para surpresa e alvio de todos, o velho respondeu:
         No, no est doendo mais. A dor passou. Dona Eullia no era de dar o brao a torcer:
         V atrs...
       Desta vez no houve eco, Milu engasgara-se.
       Ao despedir-se, dona Raimunda explicou a situao:
         Preciso vir aqui ainda duas ou trs vezes para terminar o trabalho. Ele  capaz de voltar...  teimoso...
       Falava com tanta naturalidade sobre o ser do alm que eu at cheguei a visualizar o Negro Valentim, pessoa que no conhecera, no fora de meu tempo.
       Arteiro mas cuidadoso, filho atento, Joo Jorge no abriu mo de me acompanhar, pois no queria que a me voltasse sozinha quela hora tardia da noite.
       No Peugeot, como sardinhas em lata, espremidas uma sobre a outra, as irms ouviram minhas palavras de gratido enquanto eu as ia deixando uma a uma em suas casas. Deviam levantar muito cedo no dia seguinte a fim de pegar no batente.
       
       
       ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
       
       
       Morrera o acadmico Octvio Mangabeira, ex-Governador da Bahia e, no mesmo dia do falecimento, comearam os telefonemas.
       "Rei morto, rei posto", a lei da Academia entrava em funcionamento. Os amigos de Jorge, Peregrino Jnior  frente, querendo v-lo no Petit Trianon, tentavam convenc-lo a se inscrever. A cadeira que vagava devia ser sua, nada mais normal do que um baiano substituir outro baiano. Argumentos diversos pesavam na balana: um, de ordem literria por tratar-se da cadeira 23, cujo fundador fora Machado de Assis, que escolhera Jos de Alencar como patrono, ou seja, tratava-se da cadeira do romance brasileiro; outro, de ordem pessoal, a velha amizade que ligava Jorge aos irmos Joo e Octvio Mangabeira, e, se isso no bastasse, um terceiro, de ordem poltica, falava alto: a possibilidade de que pela primeira vez chegasse  Academia um comunista.
       Jorge fora, na juventude, membro da Academia dos Rebeldes, integrada por um grupo de candidatos a escritor, sublevados e sectrios, que se julgavam donos da razo e do mundo, intolerantes e agressivos com os que no rezavam pela mesma cartilha. Eram contra tudo que cheirasse a acadmico.
       Jamais Jorge pensara entrar para a Academia Brasileira de Letras, nunca estivera nos seus planos vestir um dia o pomposo fardo, embora h muito estivesse libertado do dogmatismo da juventude e da estreiteza poltica.
       Em eleio anterior, ele fora pressionado a se candidatar: Peregrino Jnior, Viriato Correia, Antnio da Silva Melo e outros haviam insistido mas ele resistira. Estvamos na ocasio na praia de Maria Farinha, em Pernambuco, e Jorge no se disps a abandonar seu refgio, sair  luta por uma vaga na qual j havia candidato inscrito, Augusto Meyer, que na sua opinio merecia ser eleito.
       Os funerais de Mangabeira foram realizados em Salvador. Jorge estivera no velrio e, no aeroporto, na hora do embarque do corpo para a Bahia, Austregsilo de Athayde, Presidente da Academia, sussurrara ao seu ouvido ser chegada a sua hora.
       Nem a opinio do Presidente da Academia nem a presso dos amigos foram determinantes para que Jorge se inscrevesse. Decidiu-se ao saber por seu amigo Wilson Lins, amigo tambm de Mangabeira, a quem visitara dias antes de sua morte, que manifestara o desejo de que Jorge ocupasse sua cadeira.
       Eleito por unanimidade em abril de 1961, Jorge convidou para receb-lo na cerimnia da posse, em julho, um amigo muito querido, amigo da juventude, escritor e jornalista de sua grande admirao, o acadmico Raimundo Magalhes Jnior.
       
       
       SERIA REI?
       
       
       Dentro do vistoso fardo de feltro verde com bordados a ouro, espada, capa, chapu bicorne ornado de arminho, o filho foi despedir-se dos pais antes de sair para a posse. O padecimento do Coronel j no existia, as dores haviam cessado, porm ele continuava muito fraco, em repouso. No poderia ir  Academia na noite da festa de Jorge, e isso o entristecia. Perdia a grande oportunidade de brindar, dar vazo ao seu orgulho de assistir  posse daquele filho que s lhe dava satisfaes. Dona Eullia faria companhia ao marido, ela tambm perderia a ocasio de constatar que, apesar de no ter ouvido seu conselho, de no ter querido ser mdico para levantar o nome da famlia, como ela dizia, Jorge no o desmerecia.
       Ao verem o filho assim paramentado, os velhos no esconderam seu entusiasmo, "Coisa mais linda!..!', exclamou dona Eullia. "Uma beleza!", sentenciou o pai, na maior vaidade. Waldomiro, nosso jovem faxineiro baiano, no pde esconder seu espanto: "E eu que no sabia que doutor Jorge era rei!..!'
       Acostumado a andar  vontade, short e sandlias, Jorge sentia-se pouco  vontade no fardo bordado a ouro, e, alm do mais, havia qualquer coisa que o incomodava terrivelmente. J estvamos de sada, esperando o elevador, quando ele resolveu voltar. "Depressa, uma tesoura!", pediu. " Uma tesoura? Para qu?" No obtive resposta. Preocupado em desabotoar a casaca e despi-la, impaciente, ele voltava a me apressar: "Depressa, a tesoura!"
       Descobrira a tempo o que o incomodava: o diabo do colarinho engomado, duro feito celulide, lhe entrava pelas carnes, um horror! De tesoura em punho, sem dizer palavra, nem tampouco me ouvir  eu poderia facilmente tirar os pontos que prendiam o incmodo colarinho ao feltro , ele no quis conversa, foi cortando, cortando at separar de vez a parte alta que o martirizava.
       
       
       UMA VELA PARA TONHO
       
       
       O ano de 1961 fora um ano de grandes acontecimentos, marcado por um fato histrico da maior importncia e tambm de grande poesia: o cosmonauta sovitico, Iuri Gagarin, o primeiro homem a efetuar um vo espacial a bordo do foguete Vostok 1, voltara de sua faanha com a revelao de que a Terra era azul. Vira o globo terrestre a distncia, do tamanho de uma bola de futebol.
       Interessada pelo fato, dona Eullia se admirou: "E ele foi at o cu, hein?" Passou a ler nos jornais tudo o que se relacionasse com o acontecimento e tirou suas concluses:
        Tu sabia, fia, que ele foi at o cu e no viu santo de espcie nenhuma?
         Sabia  dei-lhe corda , nem santos, nem anjos.
         No viu nem Deus!  continuava dona Eullia.  Tu no acha que ele est mentindo?
         No acho, no, dona Eullia, o rapaz  srio, gente direita...
         Chii! Ento quer dizer que no existe nada disso? T danado! E eu que acendo toda noite uma vela pra Tonho  referia-se a Santo Antnio, a quem tratava com intimidade , rezo um padre-nosso...
         Se existem santos e anjos ou no existem, no posso jurar, quem sou eu? Gagarin no viu eles pelo cu, mas isso no quer dizer nada. Uns vem, outros no vem... A senhora por acaso viu naquela noite o Negro Valentim? No viu. Eu tampouco, mas dona Raimunda e seu Joo viram.
       Dona Eullia revidou:
         Viram coisa nenhuma!  dando-se conta de que eu prendia o riso, ela no gostou:  Eta sujeitinha pedante!
       Desconfiada, desconfiana inerente a seu sangue indgena, dona Eullia suspendeu a discusso, preferiu meditar sozinha, pois Zlia no dava soluo s suas dvidas, ficava debicando...
       Refletiu durante o dia inteiro, imagino, sobre a vida eterna. Chegada a noite, por via das dvidas, no deixou de acender uma vela para Tonho.
       
       
       AMIGA FIEL
       
       
       Paloma chegara em casa aos prantos. O que foi? O que no foi?
         Meu amigo morreu...  chorava sentida.
         Qual amigo, Paloma?  perguntei pensando tratar-se de um colega de colgio.
         Narclio...
       Eu nunca soubera de um colega chamado Narclio...
         Narclio? Que Narclio?  perguntei curiosa.
         Narclio de Queirs, meu amigo...
         O marido da Dinah?
       Eu me assombrava. De onde vinha essa intimidade com o eminente jurista, marido da escritora Dinah Silveira de Queirs? Velhos conhecidos e vizinhos, moravam num edifcio ao lado do nosso, vamos Dinah com freqncia, a Narclio raramente.
          ele mesmo, me... To bonzinho, todos os dias, quando eu voltava da escola, ele me chamava no bar onde tomava seu aperitivo, conversava comigo, me pagava Coca-Cola...
       Dias depois da morte do amigo, Paloma pediu-me  j que me negara a lev-la ao enterro  para ir  casa de Dinah, tambm sua ntima, queria fazer-lhe uma visita. Dei-lhe dinheiro para comprar flores, "talvez um buquezinho de violetas", sugeri. L se foi ela em companhia de Janaina. Ao voltarem, mais tarde, perguntei-lhe se Dinah havia gostado das flores. "No comprei flores no, me, resolvi outra coisa, achei melhor levar para ela uma calcinha V8, preta." Notando meu assombro, explicou: "Preta porque ela est de luto, no ?"
       Bobagem me impressionar com a intimidade da menina de nove anos com pessoas ilustres. Os maiores amigos de Paloma alm de Renato, nosso vizinho, e Janaina, os demais eram adultos e com eles a menina mantinha um relacionamento de igual para igual. Amiga de Antnio Olinto e Zora, que, entre outras consideraes, a convidaram, certa vez, a integrar um jri de escritores conhecidos, entre os quais Viriato Correia, para julgar e premiar peas infantis. Amiga de Eduardo Por-tella, de Eneida, de Myriam e Pedro Bloch, que incluiu histrias de Paloma e de Joo num de seus livros.
       Havia pouco tempo minha filha passara por outro desgosto com a morte de um amigo  dela e nosso , o poeta Carlos Pena Filho, que perdera a vida num acidente de automvel. Ao completar oito anos, em Recife, haviam trocado versos, Carlinhos escrevera poema para ela: "...S para Paloma este verso  feito/ pois s ela entende um verso desfeito..." Ela retrucara, na hora: "...Para Carlos Pena/ uma pluma, uma pomba, uma pena/e para Tnia e Clarinha uma peninha azulzinha..."
       No dia da morte de Carlinhos, curtida em tristeza, eu no sabia a quem consolar, se a Jorge ferido com o fim trgico do amigo ou a Paloma desfeita em prantos, inconsolvel. Dia de luto, o rdio e a televiso repetiram muitas vezes, em homenagem ao grande poeta que partia, "Rosa Amarela", poema de Carlos Pena musicado por Capiba.
       De Vincius de Moraes, outro amigo ntimo, ela tambm ganhou um versinho: "Vai e voa Palomita / voa e volta a me dizer/ se eu vou merecer a dita/ de viver para te ver/ ficar moa e bem bonita/ assim como deve ser/ uma linda Palomita."
       Assim cresceu Paloma cercada de amizade e poesia.
       
       
       JNIO QUADROS
       
       
       Escolhido Presidente da Repblica em 1960 pela maioria esmagadora dos eleitores, Jnio Quadros tomou posse em 1961. Empunhando a vassoura, smbolo da sua campanha, vassoura para varrer a corrupo, Jnio iniciou seu governo no maior entusiasmo.
       Nem precisou arregaar as mangas pois, para comeo de conversa, aboliu palet e gravata, liberou o funcionalismo pblico dos trajes formais, ele prprio dando exemplo, usando leve e confortvel safri de mangas curtas, "traje adequado para nosso clima". Adotou o sistema de estabelecer contatos atravs de bilhetinhos, um verdadeiro Presidente bossa-nova, de cabea voltada para os problemas do Terceiro Mundo.
       Um dia Jorge foi procurado pelo escritor Raimundo de Souza Dantas, oficial-de-gabinete de Jnio, que lhe trazia um recado: o Presidente o esperava no dia seguinte, sem falta, s 6 horas da manh, em Braslia, em seu gabinete no Planalto. O que seria, o que no seria? Ningum tinha idia. O prprio emissrio, velho conhecido de Jorge, no soube ou no quis dizer.
       Na hora marcada, s seis em ponto, Jorge foi recebido pelo Presidente Jnio Quadros e teve a surpresa de saber que ele decidira nome-lo Embaixador. Oferecia-lhe a misso diplomtica do Brasil junto  Repblica rabe Unida (Egito e Sria). No era convite nem pedido, era uma ordem, j mandara, inclusive, pedir o agrement.
       Jnio necessitava do apoio da inteligncia brasileira para ajud-lo em seu projeto de reformulao da poltica externa. Dava o devido valor  fora da intelectualidade e a queria como aliada. J havia convocado o escritor Rubem Braga, que aceitara, para o cargo de Embaixador do Brasil em Marrocos; o pintor Ccero Dias para o Senegal, e vinha de nomear o prprio Raimundo de Souza Dantas, seu oficial-de-gabinete, para Gana, primeiro Embaixador negro do Brasil. Outros escritores estavam sendo cogitados.
       Apanhado de surpresa, Jorge agradeceu a confiana e a honra mas disse que no podia aceitar, no nascera para Embaixador. Sua formao e seu temperamento jamais lhe permitiriam exercer tal misso. Precisava dispor de tempo integral para seu trabalho criador e, alm do mais, a diplomacia no era sua vocao. O Presidente ouviu atento as consideraes mas no aceitou a recusa, no abriu mo da deciso. O impasse se manteve, Jorge pediu-lhe tempo para pensar, a questo ficou em aberto.
       
       
       ANNA SEGHERS
       
       
       Ao ser convocado para a audincia com o Presidente da Repblica, Jorge se entusiasmara com a possibilidade de resolver um assunto que o afligia. Havia convidado a vir ao Brasil a escritora alem Anna Seghers, autora de A Stima Cruz, romance sobre o qual fora feito um filme americano, de grande xito, durante a guerra, livro traduzido com sucesso no Brasil. Anna era nossa amiga queridssima, e seu marido, professor de economia poltica na Universidade Karl Marx de Berlim, dr. Rodolfo Schmidt, fora, inclusive, convidado a realizar uma conferncia no Rio. Naquela poca no havia ainda representao diplomtica da Repblica Democrtica da Alemanha no Brasil, nossos convidados estavam tendo dificuldades para obter o visto de entrada. Na audincia com o Presidente, Jorge pleitearia e certamente obteria os vistos necessrios, pois sabia da ateno especial que Jnio Quadros dedicava  cultura. Jorge no se enganara e ao sair do Planalto deixava o problema encaminhado. Deveria procurar seu amigo, o escritor Afonso Arinos de Melo Franco, Ministro do Exterior, a quem Jnio ordenaria tomar as medidas necessrias.
       
       
       EMBAIXADOR ITINERANTE
       
       
       Diretor Presidente do Instituto Afro-Asitico, organismo do Governo Jnio Quadros, para apoiar a poltica de intercmbio econmico e cultural com os pases da frica e da sia, Eduardo Portella teve longa conversa com Jorge sobre a proposta de Jnio. Portella era de opinio de que, embora no aceitasse o cargo de Embaixador, Jorge no devia ficar  margem do projeto pioneiro do novo presidente. Nem mesmo Juscelino, que fizera um governo progressista e democrtico, ousara mexer com os problemas da poltica externa, falar em Terceiro Mundo, tirar o Brasil da dependncia dos Estados Unidos. Sua poltica externa fora tmida e conservadora, como a dos governos anteriores.
       Dessa conversa com Eduardo Portella veio a idia de sugerir-se ao Presidente a criao de uma Embaixada itinerante que percorresse os pases da frica negra em misso de intercmbio cultural, ligando o Brasil s jovens naes independentes africanas, numa afirmao de nossas razes negras. Jorge  frente, Embaixador. A idia entusiasmou-o, sentia-se capaz de levar o projeto avante, aceitaria encabear tal misso com entusiasmo e prazer, estava dentro de sua linha de pensamento.
       Na audincia com o Chanceler Afonso Arinos, para tratar dos vistos de nossos amigos, Arinos lhe transmitira um recado do Presidente: no aceitava, de jeito nenhum, recusa a seu convite, mas lhe oferecia ainda uma opo: a Embaixada na ndia, em lugar da Repblica rabe Unida.
       A proposta de Jorge sobre a criao de uma Embaixada itinerante interessou a Arinos, achou-a excelente, iria transmiti-la em seguida ao Presidente. Quanto aos vistos pleiteados, tudo estava resolvido: o casal no somente receberia os vistos como seria hspede oficial do Governo.
       Ainda uma vez convocado a Braslia, Jorge ouviu de Jnio Quadros elogios  idia da misso itinerante, projeto que aprovava com entusiasmo. Ficou combinada nova audincia para a concretizao do plano e acerto de detalhes. A terceira audincia no houve porque aconteceu a renncia do Presidente Jnio Quadros.
       Muitos anos depois, Jorge seria novamente convidado para exercer as funes de Embaixador num posto dos mais cobiados, talvez o mais: a Embaixada do Brasil na Frana. Quem o convidou foi o Presidente Jos Sarney, ele prprio escritor, voltado para a cultura. Mais uma vez Jorge recusou a honraria, e, apresentando ao amigo razes idnticas s que apresentara a Jnio Quadros, agradeceu: "Quero ser apenas um escritor, no nasci para Embaixador."
       
       
       INVERNO CARIOCA
       
       
       Viajando num cargueiro polons, que parava de porto em porto para carregar e descarregar, Anna Seghers e o professor Rodolfo Schmidt chegaram ao Rio de Janeiro com Jnio ainda no poder.
       Ao receber o convite oficial para conhecer o Brasil, Anna se entusiasmara e, como boa alem, passara a estudar tudo sobre o pas que ia conhecer. Ela at nos escrevera querendo saber quem fora Rodolfo Dantas, que dera nome  nossa rua. Nem Jorge nem eu sabamos, nunca tivramos essa curiosidade, mas, graas a Anna Seghers, acabamos descobrindo que Rodolfo Dantas fora um mdico eminente.
       Hospedados no Hotel Novo Mundo, na praia do Flamengo, Anna se encantou com a paisagem em seu redor, o Po de Acar, o mar imenso povoado de pequenas ilhas, o jardim da Glria arborizado, tudo verdinho de fazer gosto. Rindo ela me disse apontando as rvores: "Se fosse na Europa elas estariam completamente peladas, pois  inverno." Ao deparar-se com um grupo de amendoeiras quase nuas, as folhas antes verdes, agora vermelhas, forrando o cho, Anna no se conteve: "Essas sim! Essas tm carter!... respeitam o inverno, embora tropical, fiis  tradio dos ancestrais europeus."
       
       
       NOTCIA BOMBA!
       
       
       A notcia explodiu como uma bomba: o Presidente Jnio Quadros renunciara. O pas inteiro perplexo, atnito, ns tambm. Anna e o professor, sem nada compreender, a querer saber o que se passava, os motivos de tal gesto do Presidente da Repblica... Ningum era capaz de responder, todo mundo ignorava, ningum podia entender, quanto mais explicar... De seu isolamento, Jnio falava em "foras ocultas..." A preocupao estampada em cada rosto... A boataria e as anedotas corriam de boca em boca... "Afinal de contas, a situao  grave ou no?", queria saber o professor. "Se  grave como afirmam, por que riem e contam anedotas?..." Desanimado, ele percebia cada vez menos, no chegava a penetrar no esprito brasileiro, sobretudo na malcia do carioca, gozador mesmo nos piores momentos. "E a conferncia?", preocupava-se o Professor, que devia falar no auditrio da ABI, naquela mesma noite da renncia... "Sua conferncia, Professor, v me desculpando, foi para a cucuia, entrou pelo cano, babau!..." Foi o que Jorge esteve tentado a lhe dizer mas no disse, no lhe falou nesses termos, fez-lhe apenas compreender que sua conferncia j era, perdera a vez.
       Nesse "surpreendente pas surrealista"  assim Sartre denominara o Brasil em sua recente visita  aconteciam coisas que mexiam com a cabea do professor Schmidt mas no com a de Anna, criatura tambm surpreendente, que as podia assimilar; o Brasil para ela no era to estranho e absurdo como o era para seu solene marido.
       
       
       
       A RENNCIA
       
       
       O Professor Schmidt no deixava de ter razo ao no entender o que estava acontecendo. Reinava grande confuso em torno da renncia de Jnio Quadros, e no se descobria a razo de seu gesto. Mesmo preocupado, mesmo dando-se conta da gravidade do momento, o povo contava anedotas e ria.
       At hoje no se apurou devidamente a causa da renncia. As interpretaes so muitas, mas a que prevalece, para mim,  a de que Jnio no desejava realmente deixar o poder.
       Enganara-se ao pensar que a sua renncia deveria ser objeto de longa discusso parlamentar, o que lhe daria tempo para arregimentar foras, possivelmente levantar a massa, como acontecera por ocasio da campanha eleitoral, quando ameaara renunciar  sua candidatura e obtivera do povo resposta imediata.
       Durante sete meses Jnio governara no grito. Por detrs dele no havia nada, no havia outra fora poltica alm da presso para derrub-lo. As chamadas "foras ocultas" no podiam admitir um Presidente da Repblica to independente e audaz, que tivera inclusive o topete de condecorar um guerrilheiro, "comparsa" de Fidel Castro, o polmico e temido Che Guevara! As foras ocultas no podiam admitir um Presidente encampando uma poltica terceiro-mundista, cercando-se de intelectuais prestigiosos, governando por sua cabea, irreverente, disposto a no acatar ordens, viessem de onde viessem.
       Os entendidos em leis que o assessoravam no o alertaram, possivelmente no eram assim to entendidos, ignoravam que a renncia do Presidente da Repblica  um ato unilateral, no d lugar a discusso: renunciou est renunciado! Jnio cara, vtima de seu prprio estratagema. Enganara-se, ou fora enganado?
       
       
       
       OS PROGRAMAS DE ANNA
       
       
       O roteiro estudado e traado no papel por Anna, acrescido de programas organizados por ns, foi cumprido na ntegra, no houve renncia de presidente que atrapalhasse.
       Anna partiu conosco, em viagem de automvel, para a Bahia. O Professor Schmidt ficou no Rio, cumprindo alguns compromissos, encontros com economistas e professores universitrios.
       A longa viagem do Rio a Salvador encantou Anna. Assombravam-na a imensido do Brasil, a exuberncia de suas matas, suas terras ricas em minrios, as pedras semipreciosas vendidas por quase nada nas ruas de Tefilo Ottoni...
       A cada parada nas pequenas cidades, nosso carro era cercado por mendigos: crianas esfarrapadas, cegos, aleijados, pedintes de todo tipo em busca de esmolas. Anna no conseguia entender a existncia de tanta misria num pas to rico.
       Chegamos  tardinha a Jequi, onde pernoitaramos. No podamos ter escolhido melhor pouso. Um "fakir"  fakir com ka, conforme a tabuleta do anncio , nada mais nada menos, exibia-se na cidade estendido sobre um leito de pregos enormes. Segundo apregoavam, o homem no comia havia uma semana. Pagava-se uma pequena soma para v-lo em plena funo, quer dizer, inerte, sob a tenda de lona armada na praa principal. Anna jamais vira um faquir em carne e osso, esse primeiro que viu era s osso, e isso a penalizava. Sua curiosidade era grande: "Ser que esses pregos tm pontas? Ser que ele no come, mesmo? No lhe do comida, s escondidas?..." Ela bem que gostaria de puxar uma conversinha com o falso hindu, ora se gostaria! Se pudesse lhe escorregaria um sanduche, s escondidas, na calada da noite. Quantas perguntas adoraria fazer... mas o diabo da urna de vidro atrapalhava, impedia o contato do pobrezinho com o pblico, em realidade um pblico reduzido a ns mesmos e quase mais ningum, naquela hora da tarde.
       Anna nunca pde esquecer o faquir. Autntico ou falso, a havia impressionado, e depois de voltar  Alemanha ainda falou nele em suas cartas. Sua cabea de ficcionista trabalhara a mil, armara todo um romance no qual o heri de Jequi no passava de um pobre-diabo desempregado, pai de famlia numerosa que, no encontrando outra maneira de ganhar o po para os filhos, optara por aquela profisso que o matava de fome.
       
       
       O AMIGO VINITCIUS
       
       
       Vinitcius, com t antes do c, era assim que Anna chamava o poeta Vincius de Moraes. Ele lhe dizia Aninha, no diminutivo, na sua maneira carinhosa de tratar as pessoas. Era um amor recproco, ele curtindo seus romances, ela sua poesia. Antes da partida de Anna, Vincius convidou um grupo de amigos para homenagear a amiga, em sua casa, no Parque Guinle.
       Naquela noite, conhecemos Tom Jobim.  a tal histria, conhecer, admirar e amar uma pessoa a distncia, sem nunca t-la visto pessoalmente. Ali estava Antnio Carlos Jobim. Apaixonados por suas msicas, fomos conhec-lo somente naquela noite em casa de Lucinha e de Vincius. "Vocs e Tonzinho no se conhecem?", assombrara-se Vincius, "nunca se encontraram antes?..." Conhecemo-nos nessa noite e desde ento nos tornamos amigos, para sempre: amizade iniciada no encantamento de Lcia e do poeta, amizade que se enriqueceu, anos depois, ao conhecermos Ana, sua mulher, a Aninha do Tom, segundo Vincius.
       Ao embarcar no navio, de volta para a Alemanha, Anna MIOS deixou mortos de saudades. Ela havia gostado tanto do Brasil que partia querendo ficar. Ela e o Professor Schmidt se iam com saudades, tantas que voltaram dois anos mais tarde para serem nossos hspedes, na Bahia.
       
       ASUNCIN FLORES
       
       
       Dessa vez eu no acompanhara Jorge em sua viagem  Europa, onde, em Viena, ele assistiria a uma reunio do Bureau do Conselho Mundial da Paz e esticaria a viagem  URSS e  Tchecoslovquia antes de regressar ao Brasil. A viagem de Jorge coincidia com a poca de provas na Aliana Francesa, e eu no podia faltar. Tambm em provas no colgio, os meninos precisavam de mim. Vera, minha irm, mudara-se para Minas Gerais e eu j no podia contar com sua ajuda. Iracy casara, esperava beb, partira, e eu novamente vivia s voltas com empregadas incompetentes.
       Jorge me escrevera contando as novidades. Encontrara-se com Asuncin Flores. O compositor paraguaio, autor de ndia, guarnia que me encantava e ao Brasil inteiro, vivia exilado na Argentina. Fazia a mesma viagem que Jorge, embora sua passagem por Viena no estivesse ligada  reunio do Conselho. Iria  Unio Sovitica para a apresentao de suas msicas e, na volta para Buenos Aires, pretendia desembarcar no Brasil, onde contava encontrar  sua espera dinheiro grande da arrecadao de direitos autorais. Sabia do sucesso de suas msicas no Brasil, mas nunca lhe haviam prestado contas. Estava certo de que, pessoalmente, conseguiria receber a bolada que os produtores lhe deviam.
       Conhecramos Asuncin em Goinia por ocasio do Congresso Nacional de Cultura e depois estivramos juntos em Sri Lanka, quando do Congresso da Paz em Colombo. Personalidade forte, compositor marcante, suas msicas eram, na ocasio, coqueluche no Brasil.
       Flores chegaria em breve ao Rio e Jorge me incumbia, em sua carta, de receb-lo e ajud-lo durante sua estada. Avisava-me tambm que mandaria pelo compositor um jarro de cermica, presente que lhe haviam oferecido.
       
       
       ASUNCIN NO BRASIL
       
       
       Convoquei um amigo que conhecera Asuncin Flores em Goinia, o advogado Letelba Rodrigues de Brito, dirigente do Partido, pessoa das mais prestativas.
       O avio chegara havia muito, os passageiros j despachados passavam por ns com suas bagagens, e nada de Asuncin aparecer, no dava sinal de vida! O que teria acontecido? Letelba foi se informar na alfndega. Antes que voltasse, vi surgir ao longe Flores todo sorridente, rotundo e rubicundo, sobraando a indefectvel pasta de couro onde carregava suas partituras. Na outra mo segurava pelo bocal o bojudo jarro tcheco do qual no se separara a viagem toda, como me contou depois, temeroso de que se partisse. L vinha ele tranqilo, o sorriso aberto no rosto redondo, a calva reluzente. A demora para ser liberado? Bobagem! Detalhe sem importncia: ele simplesmente no tinha visto de entrada no Brasil. Nunca lhe passara pela cabea que isso fosse necessrio. Na falta de um documento legal, no entanto, possua outras credenciais e virtudes to boas quanto, vlidas para o Brasil, onde o impossvel no h: sorriso, graa, simpatia e o sucesso de suas guarnias. Bastara declinar sua condio de compositor amado no Brasil: "Soy Asuncin Flores, autor de ndia." Quanto ao jarro, lanou um chiste gracioso: "Un regalito para una morenita que me espera..." "Autor de IndiaV O policial tremeu nas bases, chamou o chefe da alfndega para lhe apresentar "o homem de ndia" e, em pouco tempo, Asuncin virou vedete, cercado de admiradores, deu-se o "jeitinho" e as portas do Brasil se abriram para ele.
       
       
       EM COPACABANA
       
       Asuncin Flores chegara sem um tosto furado no bolso, sem ter com que pagar hotel, nada! Conseguimos hosped-lo, provisoriamente, no apartamento de uns amigos, em Copacabana. Dormida e caf da manh, mais nada, pois os donos da casa atravessavam um momento de aperto, no podiam ir mais alm. Ficou acertado ento que, enquanto ele no entrasse em contato com as gravadoras responsveis pelas edies de suas msicas, no recebesse os milhes que lhe deviam, faria as refeies em nossa casa.
       Na manh seguinte, Clara, hospedeira de Flores, apareceu alarmada: "...Desculpem, mas o amigo de vocs no vai poder continuar l em casa. Impossvel! Ele come demais!..."
       Asuncin acordara cedssimo e devorara tudo que encontrara sobre a mesa posta com o caf da manh e a comida da vspera, na geladeira... mais houvesse!
       Meu cunhado James Amado aparecera atrs de notcias do ilustre recm-chegado; eu pedi-lhe que fosse busc-lo na casa de Clara e o trouxesse na hora do almoo. Um arquiteto paraguaio, seu amigo, que vivia no Rio, encarregar-se-ia de p-lo em contato com os editores de msica. Enquanto esperava resolver os problemas profissionais, Asuncin aproveitaria para conhecer o Rio de Janeiro.
       Apaixonado por "mosto", nome dado ao caldo de cana no Paraguai, acompanhou James  Galeria Cruzeiro, na avenida Rio Branco, onde havia uma casa especializada em sucos de frutas frescas e caldo de cana espremida na hora. Asuncin adorou o mosto brasileiro, tomou um litro, "bueno para hacer pipi...", disse e pediu ainda um litro para levar. Na base da educao, "deixe que eu pago", James adiantou-se e, mesmo sem estar em condies de fazer despesas extras, desembolsou o dinheiro, bancou o consumo.
       Ainda era cedo para o almoo, quando voltaram dava tempo para uma andada pela avenida Copacabana, movimentada e alegre. Flores encantava-se ao ver as banhistas passando em direo  praia, meio desnudas, sobraando esteiras e guarda-sis, "son Ias muchachas ms bellas dei mondo..." Entusiasmou-se tambm com as carrocinhas de frutas estacionadas em algumas esquinas, frutas tropicais, brasileiras, frutas estrangeiras, importadas, umas e outras perfumadas e coloridas, verdadeiras tentaes.
       -  Vamos comer unas frutitas?  convidou Asuncin.
        No, muito obrigado  disse James, cauteloso.
       Sabendo o preo das frutas, ele se abstinha, embora tentado pelas uvas argentinas arrumadas em cascata  enxames de abelhas sobrevoavam-nas em busca de mel , ...ai, como deviam estar doces! James no se dispunha e nem podia arcar com tais despesas. Por mais que o amigo insistisse a acompanh-lo, ele ficou firme, irredutvel. gua na boca, assistia ao compositor deliciar-se  farta, saboreando uma fruta atrs da outra, o sumo do caqui e o da manga a escorrerem-lhe pelo queixo, a ameixa negra, depois a branca, agora eram as uvas, trs, quatro bagos de vez, estalos de lngua, exclamaes... "...ai que dulces, ai que buenas..." James engolindo em seco. Finalmente, o papa-frutas pareceu satisfeito. Enxugou as mos e o rosto com o leno e, voltando-se para o amigo, com a maior tranqilidade, disse: "J termine... pague!" Pague? Por essa James no esperava. O que  que podia fazer? Sem tugir nem mugir, contou os caramingus. Apresentaria a conta a Jorge, acrescentaria a despesa do mosto, Asuncin no era seu convidado e sim de Jorge, a ele cumpria aliment-lo de frutas e de mosto. No estava a fim e nem em condies de alimentar o Pantagruel a frutas, por mais o admirasse.
       Prevenida com a inesperada visita de Clara pela manh, eu reforara o almoo. Alm do almoo trivial, dirio, mandara preparar uma frigideira de camaro.
       Sentado  cabeceira da mesa, Asuncin lanou uma mirada nas travessas. Apontou a frigideira e, antes que algum se servisse, no fez cerimnia, afastou seu prato, substituiu-o pela travessa da apetitosa frigideira e a devorou inteirinha. Lambeu os beios, voltou-se para mim: "Mi querida Celita", era assim que me chamava, "tu comida es muy buena pero tiene un defecto: es poa."
       
       CALOTEIROS EM GRANDE ESTILO
       
       
       Asuncin Flores no havia resolvido seu problema de dinheiro quando Jorge chegou, dias depois. Ramiro, o amigo paraguaio, no conseguira contactar as gravadoras. Os responsveis tiravam o corpo fora, no querendo conversa com o compositor que lhes dava a ganhar rios de dinheiro, dispostos a pregar-lhe um calote. A pedido de Jorge, um advogado de confiana foi encarregado de tratar do assunto mas ele tambm viu a coisa malparada: os homens eram osso duro de roer, diziam, para assombro do autor, no ter nada a pagar. Como no tinham nada a pagar se jamais lhe haviam prestado contas das edies de suas msicas no Brasil? Nunca se deparara com gatunos to cnicos.
       Enquanto prosseguiam as demarches, Flores continuava no Brasil, j havia mudado duas vezes de casa, encantavam a todos a simplicidade de um artista to importante, sua simpatia, suas histrias divertidas. Casos pitorescos e surpreendentes sucediam-se, tendo o compositor de ndia como personagem principal.
       
       
       OS TURISTAS
       
       
       Asuncin esquecera o calo de banho na casa de Pita Pinheiro, que o convidara a almoar, num domingo. Antes do almoo ele fora  praia e deixara o calo secando em casa do amigo. Querendo voltar novamente ao banho de mar, convidou James a ir com ele busc-lo no apartamento onde ficara. Sem lembrar-se o andar do apartamento, ao chegarem ao segundo Asuncin declarou: "es ac", desceu e tocou a campainha. Foram atendidos por um senhor idoso. "Est Pita?", perguntou Flores. " Vengopor mi traje de bano." O velhinho no entendeu patavina mas, educado, mandou-os entrar. "Es ei padre de Pita", informou a James.
       O "pai de Pita" apanhou o jornal que abandonara sobre a mesa para atender a porta, sentou-se numa cadeira de balano, um rdio ao lado, ouvido na msica, um olho no jornal, outro nos visitantes. La mujer de Pita, tampoco est?" O velhinho sorriu, corts. Sem dizer mais nada, Asuncin resolveu procurar o calo, ele prprio, entrou num quarto, abriu vrias gavetas, revolveu as roupas, nada de encontrar. Num segundo dormitrio, repetiu a operao, tambm sem resultado. O velhinho o acompanhou nas buscas, em silncio, apenas observando. Decidiu ento esperar por algum da casa, algum que soubesse do paradeiro da pea procurada. O "pai de Pita" retornou  cadeira de balano e ao rdio. Na fruteira sobre a mesa, uma penca de bananas madurinhas chamara a ateno de Flores: "Que tal comer unas bananitas, James?" James no queria saber de comer bananas, s tinha vontade de dar o fora, preocupado com a baguna que o "compadre" deixara l por dentro, na busca infrutfera. J que James no queria acompanh-lo, " como puedes no gostar de frutas?!...", ele comeou, tranqilamente, a devorar as bananas, uma, depois outra, at chegar ao fim da penca. O velhinho s olhava.
       Um rudo de chave na porta animou-os, finalmente Pita chegava. Mas no era propriamente Pita quem entrava, surgia diante deles um senhor desconhecido, o dono do apartamento que era  souberam depois  nada mais, nada menos que um delegado de polcia. Ao ver os dois estranhos refestelados em sua sala, o monte de cascas de bananas sobre a mesa, mosquitinhos sobrevoando, a fruteira vazia, intrigado com a invaso de sua intimidade, cara amarrada, perguntou ao velho:  
         Quem so?                                                      
         Turistas!  respondeu o velhinho, sorridente.       
        Ao mesmo tempo em que informava ao genro sobre os
       gringos, o rdio comeava a tocar sua msica preferida. Aumentou o volume, e a ndia invadiu a sala com sua nostlgica melodia.                                                                         
        India, mi msica!  anunciou Asuncin, pondo-se de p, apontando o rdio.
       Foi o quanto bastou para salv-los do aperto. Salvaram-se as almas do purgatrio.
       Compromissos urgentes aguardavam Asuncin Flores em Buenos Aires, e ele teve que partir. Chegara ao Brasil sem um tosto furado no bolso, se fora sem um tosto furado no bolso: deixou uma quantidade de amigos que se somaram  multido de admiradores do autor de ndia.
       
       
       JOO GOULART, PRESIDENTE
       
       
       Joo Goulart fora vice-presidente no Governo Juscelino Kubitschek e voltara a ser no de Jnio Quadros. Quando da renncia de Jnio, Goulart encontrava-se em visita  China e teve que voltar s pressas, pois armava-se no pas um compl militar para impedi-lo de assumir o poder.
       Diante do perigo de um golpe, manifestaes populares brotavam por toda a parte exigindo a posse do vice-presidente. Corajosos, os manifestantes enfrentavam a polcia, que os atacava espancando-os sem d nem piedade, prendendo-os, usando gs lacrimogneo para dissolver as manifestaes. Nada, porm, os intimidava, continuavam nas ruas.
       Anunciava-se para aquele dia a chegada ao Brasil do futuro Presidente. Num clima carregado de apreenses, a boataria corria solta, comentava-se a iminncia de golpe de estado militar, com a priso de Joo Goulart assim pisasse os ps no pas, a boca do lobo aberta  sua espera...
       Alerta, naquele dia decisivo o povo se manifestaria por todo o pas, em toda parte, aglomerado em comcios e percorrendo ruas em passeatas, exigindo o cumprimento da lei, a posse a quem de direito.
       No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola comandava a "rede da legalidade", movimento de resistncia para garantir a posse de Jango e derrotar o golpe em andamento, lutando sem trguas pelo cumprimento da lei. Ao lado do governador, o povo gacho clamava pelas ruas seus anseios de democracia, liberdade e ordem, repudiando a tentativa de golpe, preparado pelas foras mais retrgradas do pas.
       Um comcio estava marcado para aquela tarde, na Cinelndia. Ns no podamos deixar de participar, e Joo Jorge gritou que tambm iria. Prevendo a violncia da polcia, que naquela tarde estaria mais feroz do que nunca, Jorge me pediu que no fosse devido ao meu estado. Eu me encontrava no segundo ms de gravidez, no devia me expor. Seria prudente tambm deixar Joo em casa, o menino era novo demais para comear a levar cassetete da polcia.
       Ficara acertado que nosso amigo Letelba viria nos apanhar para a manifestao. Ao ver-me triste e frustrada, ele tratou de me animar, no havia nada que me impedisse de ir, assistiria ao comcio da janela de seu escritrio de advocacia, na Cinelndia, no correria risco nenhum. Joo poderia ir conosco.
       Chegamos cedo, muito antes da hora marcada, e ainda assim tivemos dificuldade para entrar no prdio. Cercada pela polcia civil e militar, a Cinelndia transformara-se em praa de guerra. Fileiras de cambures estacionados em frente ao Teatro Municipal esperavam os manifestantes, intimidando-os.
       Aos poucos o povo foi chegando, invadindo a praa por todos os lados, ostentando faixas de boas-vindas ao novo Presidente, palavras de ordem sem provocao. No era preciso, no entanto, que houvesse provocao para que a polcia atacasse, pois l estava para dissolver a massa. Tinha ido para isso.
       Batalha de armados contra desarmados, naquela praa repleta, repetiam-se antigas cenas de violncia: o povo indefeso, jovens imberbes, homens e mulheres levando empurres e pontaps, os cassetetes baixando, tirando sangue... Gs lacrimogneo sufocando, cegando... Diante de meus olhos um jovenzinho, quase menino, era arrastado por dois brutamontes: enquanto um lhe torcia o brao a ponto de parti-lo, o outro dava-lhe murros e pontaps... Impotente para impedir tamanha barbaridade, revoltada, desesperada, no me contive e, debruando-me na janela, comecei a gritar com toda a minha fora, a cham-los de covardes, bandidos, assassinos... Joo Jorge me acompanhava nos brados de protesto.
       Voltei para casa sentindo dores e naquela mesma noite fui internada no hospital. Perdi a criana.
       
       
       ASTROJILDO PEREIRA
       
       
       O Coronel Joo Amado andava de repouso depois de ter sido atropelado por uma bicicleta. Machucara-se pouco, nenhuma gravidade, porm devia ficar em casa devido ao ferimento na perna que, apesar de superficial, custava a cicatrizar.
       Em sua poltrona reclinvel, o Coronel recebia amigos e parentes que iam v-lo. Naquela tarde seu Joo recebera a visita, muito especial, de um velho conhecido, Astrojildo Pereira, fundador do Partido Comunista Brasileiro, homem da velha guarda, escritor, crtico literrio especialista em Machado de Assis. Fora Astrojildo quem fizera, na dcada de 20, o necrolgio de meu av anarquista, Francisco Arnaldo Gattai, numa revista da poca.
       Conversa vai, conversa vem, o Coronel mostrava-se interessado em saber sobre a situao poltica, vendo no dirigente comunista boa fonte de informaes, curioso por detalhes sobre a posse de Joo Goulart, novo Presidente, posse que se dera apesar dos pesares. A razo vencera a fora, excepcionalmente, mas ningum sabia por quanto tempo. A inquietao perdurava.
       Junto ao rdio, Quitria costurava prestando mais ateno  visita do que  costura. Num dado momento, largou seu trabalho bruscamente, levantou-se e, rpida, correu para meu quarto, no fim do corredor. Ouvi ento um grito agudo de socorro. Quitria me chamava aflita: "Dona Zlia!!!..." Corri assustada para ver o que se passava.
       De p, no meio do quarto, vermelha, esbaforida, Quitria soltava o coque, libertando uma basta cabeleira crespa.
         Dona Zlia, dona Zlia!  repetia aflita.  O senhor que est na sala  vivo?
         No  vivo, no  respondi-lhe.
       Astrojildo no era vivo, tinha certeza. Essa curiosidade de Quitria me surpreendia e intrigava. Que se passava com ela?
         Mas eu vi atrs dele o esprito de uma mulher loira...
         Esprito de mulher loira?  me assombrei.
         Loira e de nariz comprido, com a mo no ombro dele... Ela est l na sala...
       Nem mal terminara de falar, vapt-vupt, aplicou-se, ela prpria, duas valentes bofetadas no rosto. Quitria rodopiava, gemia, entrava em transe.
       Diante de tal situao, no tive dvidas, no vacilei, tratei de empregar os ensinamentos de dona Raimunda, aprendidos nas trs sesses a que assistira, em torno de seu Joo. Berrei alt e, com vigor, dei a ordem: "...Larga o mdium!" No foi preciso uma segunda vez. Quitria voltava a si, como se despertasse de um pesadelo, esfregando os olhos, passando a mo no rosto, acabrunhada, sem lembrar-se do que havia sucedido. Nem mesmo das bolachas que se auto-aplicara, causando-lhe incmodo ardor, queimando-lhe as faces, ela recordava. Sua amnsia, no entanto, no era total, pois continuava a insistir na viso da loira nariguda, a mo pousada no ombro do homem que se encontrava na sala.
       Vieram me chamar, a visita se despedia. Acompanhei Astrojildo ao elevador e enquanto espervamos resolvi contar-lhe a histria de Quitria. Imaginei que ele, comunista, marxista, materialista, fosse achar graa mas, para surpresa minha, no achou.
         Mulher loira, de nariz adunco?  monologou, repetindo o que ouvira.
         Isso mesmo, e com a mo em teu ombro...  ri, esperando que ele tambm risse.
       Ele no riu, ao contrrio, ficou srio, e at achei que ficara plido. O elevador chegou e sem nenhuma palavra, apenas um aceno de mo, ele desceu.
       Eu no podia nem de longe supor o que s vim a saber dias depois: uma senhora alem, ligada por laos afetivos ao velho dirigente, falecera recentemente. Nariz adunco, confirmaram-me.
       
       
       GAGARIN NO BRASIL
       
       
       Aps um ano da sensacional proeza, do vo solitrio na nave espacial Vostok 1, o cosmonauta Iuri Gagarin, primeiro homem a efetuar um vo espacial, viria ao Brasil. Os jornais no falavam noutra coisa, as estaes de televiso disputavam a prioridade de transmitir em primeira mo a palavra do pioneiro do espao.
       Jorge fora procurado por Alcino Diniz, diretor da Tv Tupi, que, sabendo de seu prestgio com os soviticos, pedia-lhe para intervir junto  Embaixada, no Rio: a Tupi queria prestar uma homenagem a Gagarin e precisava do apoio dos soviticos. A recepo ao astronauta se daria nos seus estdios, no antigo Cassino da Urca, em seguida ao seu desembarque, de l seria feita a transmisso das primeiras palavras do astronauta ao povo brasileiro. Para receb-lo e saud-lo, a Tupi convidaria intelectuais dos mais representativos.
       Antes de falar com Jorge, a Tupi fizera vrias demarches, sem resultado, junto  Embaixada, e no lhe haviam dito se sim ou se no. No fora fcil tambm para Jorge obter o acordo dos diplomatas soviticos, que, em realidade, no tinham autonomia para resolver o assunto e no ousavam tomar decises sem antes consultar os canais competentes. Finalmente, j na vspera da chegada de Gagarin, foi dado o sinal verde: do aeroporto ele iria direto  televiso, combinado de pedra e cal.
       O avio que traria o cosmonauta devia chegar ao Rio ao entardecer e desde a vspera a Tupi repetia flashes anunciando a presena, nos seus estdios, do primeiro homem a efetuar um vo espacial...
       Guardada desde cedo, com reforo policial para impedir a invaso de penetras, a entrada da Tupi se tornara inexpugnvel.
       Com Joo e Paloma, munidos de convites especiais, tivemos, ainda assim, dificuldade para entrar, multido de curiosos se aglomerava em torno do antigo Cassino da Urca.
       L dentro, j instalados, encontramos Di Cavalcanti, Raimundo Magalhes Jnior, Vincius de Moraes, Silveira Sampaio e outros, todo mundo de planto. No esqueci de levar minha mquina fotogrfica: chegara o dia de fazer a foto de minha vida.
       No estdio da Tupi passamos horas e horas de espera, assistindo aos flashes chamativos e repetidos: "Dentro em pouco o homem da Vostok 1 estar entre ns......chegar aos nossos estdios..."
       Mas Iuri Gagarin no chegou aos estdios da Tupi. Desembarcou no Rio no horrio previsto e simplesmente no parou na Urca, seguiu direto para a Casa das Pedras, na Gvea, onde ficaria hospedado. No foi  televiso e ningum avisou que no ia. Um mandachuva que viera na comitiva dissera "niet" ao saber do acordo, no e fim de papo.
       Quanto  foto de minha vida, a que ainda espero fazer um dia, no a fiz daquela vez. Em compensao, fotografei Gagarin de todo jeito,  vontade, num almoo na Casa das Pedras, a convite dos anfitries, o casal Drault Ernanny. Na bela festa reencontramos nossos amigos que haviam estado nos estdios da Tupi e ainda outros, entre os quais Samuel Wainer, levando os filhos Pinky e Samuca. No s fotografei Gagarin como, em meu pauprrimo russo, fiz-lhe perguntas, queria que me falasse sobre a cor da Terra, se era azul mesmo, curiosidade tola, pois eleja havia feito tal declarao, devia estar farto de repeti-la, mas repetiu ainda uma vez, sorridente, os dentes alvos, perfeitos, olhos de contas, brilhantes, num rosto de menino inocente: "da, ana golubai..." sim, ela  azul... com as duas mos mostrou-me o tamanho de uma bola de futebol, como ele a vira pela vigia da incmoda cabina da nave espacial, a Terra distante.
       Joo e Paloma s no ficaram frustrados porque, convidados dias depois a um coquetel na Embaixada polonesa, puderam estar ao lado do super-heri e at mereceram um sorriso dele. Viram, inclusive, o to falado Sputinik, em realidade o Vostok 1, quando em exposio no Rio de Janeiro. O povo teimava em identificar a famosa nave espacial pelo nome do primeiro satlite artificial colocado em rbita pelos soviticos em 1957: era o Sputinik e acabou-se!
       
       
       ADEUS, QUITANDINHA
       
       
       A convocao pedia ao proprietrio do apartamento situado no Hotel Quitandinha sua presena para uma reunio de condomnio a fim de tratar de assuntos de seu interesse. Surpreendemo-nos, pois essa era a primeira vez que nos convocavam para uma reunio desse tipo. Glorinha tambm a recebera e no estava satisfeita. "A tem coisa!...", dissera.
       Jorge sempre teve horror a essas reunies e pediu-me que o representasse, fosse com as crianas: "V ver o que eles esto tramando", pressagiou. Convidei Misette, funcionria, na ocasio, da Livraria Francesa, e s pudemos pegar a estrada depois de seu trabalho. A reunio estava marcada para o sbado, mas fomos j na sexta-feira, assim as crianas aproveitariam o fim de semana.
       O movimento era grande, proprietrios dos apartamentos l estavam, no faltara ningum para a misteriosa reunio de condminos e, mesmo assim, a grande sala de reunio no estava cheia, os proprietrios de apartamentos eram minoria, a maioria das quotas, de propriedade do hotel, estava representada por um procurador.
       Primeira a chegar, mesmo antes de saber o que nos esperava, Glorinha no se mostrava tranqila, pois, como boa comerciante, no se enganava e repetia: "Neste mato tem dente de coelho..."
       No demorou sabermos qual o assunto que nos levara at l: o Hotel Quitandinha fora arrendado a um clube. Da por diante as despesas do hotel, incluindo as de escritrio e de tudo enfim, seriam divididas com os proprietrios dos apartamentos. Deveramos, pois, pagar todos os meses um condomnio altssimo, impossvel! Isso ainda no era tudo: os condminos ficariam proibidos de circular pela parte social do hotel, de freqentar seus sales, a piscina, o playground etc. e, caso quisessem gozar dessas regalias, bastaria associarem-se ao clube que arrendara o hotel.
       Tudo bem explicadinho: "...Quem estiver de acordo com as modificaes levante a mo." Ningum levantou. "Aprovado!" O presidente da sesso mostrou o mao de procuraes, a maioria vencera.
       Glorinha saltou indignada: ".. .Isso  chicana! Isso  chicana!...", repetia, gritando a plenos pulmes. Joo delirou; mesmo no sabendo o que significava chicana, adorou a expresso.
       Eu tambm no resisti, embora sabendo que meu desabafo de nada adiantaria, fui em frente: "... J que os senhores esto com a faca e o queijo na mo, fazendo o que bem entendem, por que essa falta de respeito de nos tirar de nossos afazeres? Por que essa palhaada de nos trazer at aqui para fazer papel de idiotas?" Fui muito aplaudida pelos colegas, donos de apartamentos, e, se no consegui coisa alguma junto aos "chicanistas", ganhei alguns pontos no conceito de meus filhos.
       "No havendo mais nada a discutir, a sesso est encerrada."
       Encerrada a sesso, encerradas as idas e vindas a Petrpolis. Quem tivesse juzo que tratasse de passar o apartamento adiante o mais depressa possvel, e foi o que fizemos, morrendo de pena.
       
       
       QUANDO O NO QUER DIZER SIM
       
         Al!
          Zlia? Aqui  o Marcelo.
         Marcelo Reis?
         Que Reis, o qu! Figueiredo!
       Pela impetuosidade, vi logo que s poderia ser mesmo o menino de Alba e Guilherme Figueiredo, nossos amigos.
         Como vai, Marcelo? O que  que manda?
         Paloma est a?
         Aqui ao meu lado. Quer falar com ela?
         No.  com voc mesma. Quer me fazer um favor, Zlia?
         Diga...
         Pergunte a Paloma se ela quer namorar comigo. Fiz-me de desentendida:
         O qu?
          isso mesmo. Se ela quer namorar comigo.
         Marcelo, voc est brincando?  resolvi me divertir.  Quer que eu, a me, pergunte  minha filha se ela quer namorar voc?
         Vambora, Zlia, pergunte logo, no seja chata! A meu lado, Paloma seguia interessada a conversa.
         Ento eu sou chata?  continuava a dar corda.  Que ousadia!
         V, v depressa, no perca tempo!
       Se era para no perder tempo, tranqilizar o apaixonado, tratei de no perder tempo. Dando uma de postillon d'amour, ou seja, de cupido, o prprio correio sem selo, perguntei solenemente a Paloma o que ela j estava farta de saber, pois no perdera uma nica palavra do que eu dissera ao pretendente:
         Paloma, o Marcelo Figueiredo quer saber se voc quer namorar com ele.
       A resposta veio gritada:
         No!
       Repita aqui no fone:
         No!
       Do outro lado da linha, uma gargalhada de satisfao:
         Oba! Se ela disse no  porque quer dizer sim. Vou j a.
       Marcelo Figueiredo se bandeara l para casa, amigo das crianas, mais de Paloma do que de Joo, devido  diferena de idade. Um menino de quinze anos que se preze no enturma com um de doze, dificilmente com um de treze. O outro Marcelo, o Reis, por exemplo, da idade de Joo, nunca pensaria em namorar Paloma, jamais esticou-lhe um olho, pirralha de onze anos, beb de mamadeira!... Bonites de barba despontando, Joo, Marcelo Reis e companhia, tinham outros planos, andavam em altas cavalarias, buscavam gatinhas mais velhas, de quinze para cima, quanto mais velha melhor, maior era o sucesso. Eu acompanhava o desenvolvimento desses meninos e sentia que j estava chegando a hora em que no mais me seria possvel segurar as rdeas de Joo. Por quanto tempo ainda, por quanto tempo poderia exercer controle sobre ele?
       Estava eu nesses devaneios quando a campainha da porta tocou.
         Deve ser Marcelo  disse a Paloma ; se voc no quer v-lo, suba logo que eu vou abrir a porta.
       Ela no subiu e eu me dei conta de sua perturbao, ficara vermelha, os olhos brilhando.
       Marcelo mais danado! Pensei: no  que ele tem razo? O mundo anda to virado que no entender dos meninos de hoje o no quer dizer sim...
       
       
       COROA OU MUSEU?
       
       
       Um dia Joo chegou do colgio entusiasmado: "Se voc quiser, me, pode ficar esperando at acabar o 'arrasta' na casa do Miranda... ele me disse que tem uma sala s para 'coroas'."
         Sala para "coroas"?  fingi me ofender.  "Coroa", eu? Ora veja! Mais respeito, menino!
       Joo se torcia de rir diante de minha reao, mas Paloma, que ouvia a conversa, no achou graa, ofendeu-se de verdade e revoltada reclamou:
         Olha, Joo, minha me no  coroa, no... Muito na dele, o moleque continuava provocando:
         Eu nem chamei ela de museu...
         Museu?  quando se zangava de verdade Paloma enrubescia, os olhos rasos d'gua.  Se minha me  museu, seu burro, s pode ser museu de arte moderna, viu?...
       A verdade  que, "coroa" ou no, eu preferia mil vezes ir buscar meu filho, longe ou perto, cedo ou tarde,  hora que fosse, a ter que ficar de planto em casa estranha a conversar, sem assunto, com outras mes ali tambm na penitncia.
       
       
       SEARA VERMELHA NO CINEMA
       
       
       Trs engenheiros santistas (um deles portugus de nascimento) fundaram uma empresa cinematogrfica destinada  produo de bons filmes brasileiros, a Proa Filme. Desejavam comear filmando o romance de Jorge Seara Vermelha, cujo tema os apaixonava. Juntamente com Alberto Daversa, puseram de p um projeto que Jorge aprovou.
       A direo de Alberto Daversa era uma credencial para a qualidade do filme, o diretor italiano radicado no Brasil gozava de prestgio nos meios teatrais. Atores como Sady Cabral, Mauro Mendona, Nelson Xavier, Jurema Pena, Esther Melinger, entre outros, garantiam o sucesso de pblico. S faltava encontrar quem interpretasse a principal personagem feminina do romance, quem vivesse a figura de Marta. Jorge achou que Marilda Alves, jovem baiana, de grande beleza, quinze anos inocentes, preenchia os requisitos: adolescente, igual  Marta na graa e na pureza. Sobrinha de um amigo, Moiss Alves, conhecamos Marilda desde pequena. A moa nunca pensara ser estrela de cinema, mas no custava nada fazer um teste. Teste feito, foi contratada, pois alm dos dotes fsicos possua qualidades e talento para contracenar com atores j consagrados.
       A equipe partiu para Juazeiro, acampou na propriedade de um dos maiores fazendeiros da regio, Nilo Coelho, que anos depois foi Governador de Pernambuco e morreu Presidente do Senado.
       No Rio de Janeiro, varando as noites em nosso apartamento, Joo Gilberto comps a msica para o filme, Lamento de Marta, Jorge fez a letra, sob as vistas e os trinados do pssaro sofre que vivia em liberdade no apartamento.
       A histria dos retirantes contada em Seara Vermelha devia ser rodada em plena caatinga, e a equipe teve que marchar muitos quilmetros at encontrar o local ideal para a filmagem, a seca desoladora descrita no romance. A locao foi feita em meio  vegetao crestada pelo sol causticante, em terra castigada, esturricada pela ausncia absoluta de gua. Havia meses no chovia, e tudo que restara das plantas eram galhos secos, hastes e espinhos... Ali armaram as tendas e iniciaram o trabalho.  	                                                             
       Tudo ia muito bem quando um dia, de sbito, o cu comeou a escurecer e aos poucos foi ficando negro, um raio seguido pelo estrondo do trovo anunciou o temporal que desabava. Choveu trs dias e trs noites sem parar. No quarto dia o sol voltou a brilhar, brilharia, segundo os entendidos, por alguns meses, sem interrupo.
       A claridade voltara, a terra gretada absorvera por completo a gua mandada do cu, por trs dias e trs noites ela sara do castigo, matara a sede, sorvera a gua toda de vez, no sobrara nada, nem lama onde sujar os ps. A terra que parecera fraca e estril revelara-se poderosa e frtil: as hastes secas das plantas transformavam-se em galhos verdes, cobriam-se de folhas com uma rapidez alucinante! O cho morto ressuscitava, vitorioso. Em pouco tempo a tromba-d'gua conseguira transformar o inferno em paraso.
       Um paraso que assombrava a todos que assistiam ao milagre, um paraso que os colocava em maus lenis, num impasse: como recomear a filmagem? Onde encontrar outro cenrio de seca igual ao anterior  chuva? Deviam esperar que o sol voltasse a queimar tudo novamente? Demoraria muito, impossvel interromper a produo. Precisavam descobrir um jeito a dar.
       O jeito no demorou a ser bolado: deveriam pelar galhos e hastes das plantas, despoj-los das folhas recm-nascidas, eliminar o verde. A equipe inteira, inclusive os atores, foi convocada para iniciar, em seguida, um trabalho engenhoso e eficaz: recriariam o cenrio da seca, da desolao, tarefa do sol, que desta vez seria passado para trs.
       Foi assim que, com eficincia e muito trabalho, o mutiro conseguiu vencer a natureza: o paraso voltou a ser inferno...
       Daversa pedia silncio: "Vamos recomear... ao!..."
       Em fins de 1963, houve a pr-estria de Seara Vermelha no Rio de Janeiro. Valeram a pena o esforo e o sacrifcio, o filme agradou a todos que a ele assistiram, foi aplaudido pela crtica. Entraria em circuito, em vrios estados, somente em maro de 1964, deviam fazer cpias.
       Estreado havia uma semana, casas cheias, o filme foi proibido. Condenado pela ditadura instalada no Brasil com o golpe militar de 31 de maro, que, entre outras misrias, tornava a censura implacvel. Para eles um filme de seca e de retirantes, de misria, tirado de um livro de Jorge Amado, s podia ser subversivo! Pau nele!
       A Proa Filmes encerrou suas atividades e nunca mais tivemos notcias do filme. Apenas h uns poucos anos, fomos rever, com grande emoo, no Museu de Arte Moderna de So Paulo, uma cpia conseguida e restaurada pela Cinemateca.
       
       
       BIG PARTY
       
       
       A turma dos meninos se ampliara nos ltimos tempos com a criao de um clube recreativo, o Big Party Association, Joo de secretrio geral. Esse Big Party em realidade cuidava mais de reunies de trabalho, de elaboraes de atas, de comunicados, d,.cartazes, do que de eventos propriamente ditos. Todo o material era impresso em tipografia e enviado pelo correio, o que custava aos pais dos "bigpartistas" um dinheiro danado. Paloma, em geral ignorada pelos mais velhos, sentiu-se lisonjeada ao ser admitida como scia fundadora do clube, com a funo especfica de estafeta. Cabia a ela levar a correspondncia ao correio, tarefa que executava com a maior eficincia, a ponto de um dia receber, trazido pelo carteiro, um envelope para "Paloma Jorge Amado", postado pela prpria, dois dias antes. O grupo da direo do Big Party podia at ganhar o prmio de campeo da burocracia.
       As reunies de trabalho eram sempre realizadas em nossa casa, onde Joo instalara seu escritrio, a papelada transbordando das gavetas, espalhando-se por toda parte. Quanto  parte festiva, "arrastas" com comes e bebes, gargalhadas de no acabar, davam-se ora na casa de um, ora na casa de outro.
       
       
       A GATINHA DO LEME
       
       
       Joo crescia a olhos vistos, barba e bigode despontando, voz de falsete engrossando a cada dia; ansioso, comeava a descobrir os segredos e os encantos das mulheres, namorador como ele s!
       Um dia ele me confidenciou que andava s voltas com uma certa "Gatinha do Leme", menina de uns 15 anos  calculava ele  que favorecia Joo e vrios colegas de colgio, iniciando-os nos mistrios do amor. Os meninos faziam fila para receber os carinhos da dadivosa que, por uns trocados, abria-lhes as portas de um mundo de emoes, nas pedreiras do Leme, no lado oculto, sobre o mar aberto, onde as ondas violentas estouravam na pedra.
       Quem era louco de dar conselhos a meninos daquela idade? Eu era, dava conselhos e tratava de me informar: "Cuidado, meu filho, voc conhece bem a menina? Ela tem boa sade? Tem pai e me? Voc j imaginou se o pai descobre?..." No parava a, quanto mais conselhos melhor, e me  para isso: "Faa ateno, menino, no v escorregar nas pedras... se algum cair naquele mar violento, nem a alma se salva... cuidado!"
       Joo s faltava morrer de rir com as minhas preocupaes: "Voc est por fora, me, aqui  Rio de Janeiro, em Copacabana tudo  permitido... Sai dessa, me...!"
       
       
       PLEASE
       
       
       De volta da praia, esfogueado, o rosto iluminado de satisfao, Joo sorria enigmtico.
         O que foi que aconteceu, menino? Diga logo!
         Diga o qu?  fazia-se de desentendido.
         Ora, se no te conheo!...
       Joo devia ter um segredo, a lngua cocando, vontade louca de contar mas, como de hbito, fazia suspense. Tnhamos a maior intimidade, ele me fazia confidencias. Suas histrias, mesmo as picantes como a da Gatinha do Leme, ele contava em doses homeopticas, em frases arrastadas, longas pausas, espicaando minha curiosidade.
       Agora ele chegava do banho de mar com novidade, no havia dvida.
         Passei leo nas costas de uma garota na praia, lambuzei ela todinha...
         Todinha?
         S as costas, me. Foi ela quem me pediu. Me chamou, "vem aqui oh gato, vem me dar uma ajudinha..."
       No consegui saber mais nada, a no ser que a moa lhe dera o nmero do telefone e nosso telefone, sempre ocupado, passou a ficar mais ocupado ainda.
       Certa manh Joo amanheceu com febre. Ameaa de resfriado, placas na garganta, nada de grave, mas, por prudncia, ficaria um dia de molho, no iria  escola.
       S me dei conta de que ele estava no telefone quando me chamou, aflito:
         Me, vem c. Estou pedindo para Wilma vir aqui e ela no quer, est dizendo, "o que  que tua me vai pensar?" Diga pra ela, me, por favor, que voc no vai pensar nada...
       Wilma? S podia ser a moa da praia, e eu ficava sabendo seu nome. Pensando bem, no havia nada de mal convid-la, ia at matar uma curiosidade. Tomei do fone e a chamei para tomar um cafezinho.
       No demorou muito ela chegou encabulada, desculpando-se: "... Foi Joo quem insistiu, no queria incomodar..."
       Bati o olho e fiz meu diagnstico: nem feia nem bonita, engraadinha, uns 25 anos, no mais... No era a vamp que eu imaginara, apenas uma moa simples, sem maquiagem.
       Deixei a visita na cabeceira do paciente e fui  cozinha preparar o caf. Voltei em seguida, antes mesmo que a gua fervesse, pois pareceu-me que a coisa fervia no quarto de Joo. A moa reclamava aflita, to alto que eu podia escutar: "...Pare com isso, Joo!... Tire a mo da... Tenha modos! Tua me j vai chegar, menino!......"
       Quanto  me chegar de repente, no preocupava nem um pouco o dom-juan que, precavido, tomara providncias: na porta do quarto, presa com uma tachinha, uma folha de papel rabiscado a lpis, um aviso: "PLEASE, DON'T DISTURB!"
       
       
       DUAS CONQUISTAS
       
       Joo virar, mexera, acabara descobrindo a identidade do pianista que habitava o apartamento da avenida Atlntica cujos fundos davam para o nosso prdio. Em realidade, tratava-se de uma pianista, da seu interesse.
       Ele a vira debruada na janela, moreninha bonita, quase menina. "Oba! T pra mim!", entusiasmou-se. A menina olhou para ele, entrou e em seguida ecoaram os primeiros acordes de uma valsa de Chopin. Voltou  janela, a msica parou, novamente levantou os olhos para o menino que a mirava, fascinado, sorriu. Seria ela quem tocava peas to difceis?
       Saiu correndo em busca do nmero do edifcio na Atlntica e com a ajuda da lista telefnica e do porteiro do prdio chegou ao que desejava, ficha completa: era pianista, se chamava Rosana, filha de um coronel do Exrcito, menina-prodgio, preparava-se para dar um concerto.
       Paloma me chamou: "Me, vem ver uma coisa..." Joo, na janela de Rosana, me deu adeus. O moleque j tinha se bandeado e tomara conta da casa.
       A menina dispunha de poucos momentos para o namoro. Entre as lies de colgio, aulas de msica com professor e os exerccios dirios de horas e horas no piano, sobravam migalhas para matar a fome do jovem enamorado. Felizmente para Joo, aquelas visitas no significavam uma perda total de tempo, pois, se no dava para namorar tanto quanto desejava, tinha a compensao de outro prazer que tambm o exaltava: discutir poltica. Conseguira como parceiro, ou antes, como adversrio, o pai da menina, oficial da linha dura, anticomunista figadal, que encontrara no menino interlocutor atrevido e com ele entabulava um bate-boca sem fim.
       Por vezes a discusso, interrompida por um motivo qualquer, era retomada ao telefone, num tratamento de igual para igual, o menino com seu sectarismo de esquerda a provocar, o militar a revidar com provocaes de direita... s vezes eu acompanhava a discusso e ficava pasma de ver at onde pode ir a paixo poltica: um militar graduado levando a srio os argumentos de um garoto, quase uma criana, criana que, em realidade, devido ao meio em que vivia, sabia mais que muita gente adulta.
       Um dia aconteceu, coisas que acontecem, Joo conheceu outra menina que o encantou, desinteressou-se das visitas ao apartamento na avenida Atlntica. Mais cativa de sua msica do que do namorado, Rosana pareceu no se abalar, continuou a nos deliciar todas as manhs com Mozart, Beethoven, Chopin... Creio que o coronel, seu pai, foi o nico a sentir falta do menino, parceiro to bom para as discusses polticas.
       
       
       AINDA UM CURTO NAMORO
       
       
       Desta vez Joo parecia apaixonado de verdade. A menina era Rosinha, filha de Magalhes Jnior e Lcia Benedetti. Amor  primeira vista, comeou numa festa de aniversrio e em seguida Joo se passou de armas e bagagens para a rua, Mascarenhas de Morais, onde morava a bela.
       Amor fulminante, "amor louco dura pouco", segundo um provrbio de dona Angelina, esse at que durou, rendeu poesia escrita no auge da paixo. Joo estava fadado a namorar filhas nicas, e Rosinha no escapava  regra: cercada de cuidados especiais, sobretudo da vigilncia do pai que no facilitava  experimentado, Raimundo Magalhes no dormia no ponto. Convid-la para um "arrasta"? Nem pensar! No adiantava Joo ser filho de um amigo de toda a vida. E da? No os deixava a ss nem mesmo para as despedidas no elevador: "...Assim no d, me ...no d p...", dizia-me desconsolado. "Na sada vai a famlia toda: Raimundo, Lcia, Zez, a empregada e at o cachorro..."
       
       
       
       
       ANIVERSRIO DO BARULHO
       
       
       Vinte e cinco de novembro se aproximava, dia do aniversrio de Joo.
         Se voc no se incomoda, me, eu gostaria de ter um aniversrio do barulho! Uma festa de arromba! Eu fao os convites, chamo a turma do Big Party. Que tal?
          teu aniversrio, Joo, voc chama quem quiser  me fiz de desentendida , Tio James, tia Luisa, tio Joelson, tia Fanny, tia Vera, tio Paulo e Fbio, que vm de Minas para teu aniversrio, estaro aqui, como todos os anos, vai ser timo!... Quitria at fez uma blusa para Milu brilhar na festa...
         Quitria e Milu na festa? Voc est brincando?
       Encabulado, Joo estava sem coragem de dizer que "negcio de tios e tias nos aniversrios j era, pai e me tambm j era... irm pirralha nem se fale... Milus e Quitrias, ento, passavam da conta..."
       Tratei de poupar-lhe a explicao apresentando uma sada: festejaria o seu aniversrio no dia 25, com toda a famlia, e anteciparamos o "aniversrio do barulho" com "festa de arromba", para o dia 22. Satisfeito, sem discutir, Joo aceitou a proposta, gostava dos tios, gostava de estar com os pais e com a irm, gostava tambm de bolo com velinha, porm, misturar velho com moo no dava certo, ia pegar mal.
       O dono da festa deu as ordens: "Nada de refrescos de frutas, minha turma gosta  de cuba libre, a bebida da moda... nada de brigadeiros, nem de olho-de-sogra, docinhos para festas de crianas e muito menos bolo com velinhas..."
       Seria uma festa de "frangotes de butica", como se dizia nos meus tempos, em So Paulo, dos rapazinhos com voz engrossando, barba rala entre espinhas e de meninas de 14, 15 anos. As convidadas da "festa de arromba" foram chegando, lindas de morrer, vaidosas, peitinhos empinados... Embora da mesma idade, os rapazinhos no possuam, no entanto, a maturidade, a sutileza, a malcia e a picardia das meninas, eram uns toles a se exibir, a contar anedotas picantes, a estourar de tanto rir, fazendo estardalhao...
       O nico adulto admitido no "arromba" dessa noite fui eu, e assim mesmo porque me impus como "garonete", fornecedora dos*comes e bebes, da famosa cuba libre  um dedinho de rum num copo de Coca-Cola, muito gelo e limo , num vaivm sem parar.
       No andar de cima, Jorge assistia televiso na companhia de James e de Luisa, enquanto eu, l embaixo, "agentava as pontas", na penitncia, a ouvir msicas estridentes, a ver os jovens danar rocks e twists, as meninas em meneios de cadeiras, os meninos executando verdadeiras acrobacias, atirando-se ao cho no compasso da dana, num salve-se quem puder e o que estiver pela frente!
       Jorge me telefonava de vez em quando, "por que voc no sobe um pouquinho?" Bem, vontade eu tinha de subir, mas fiquei firme no meu posto. Tive juzo em no abandonar o leme do barco, pude evitar estragos irreparveis.
       A festa prosseguia animada quando me afastei para ir buscar sanduches. Ao voltar, bandeja em punho, s tive tempo de desviar o corpo, uma almofada passava rente  minha cabea  petardo da batalha travada entre dois grupos, na evidente inteno de se exibirem s meninas , quase me atinge e manda os sanduches pelo ar. Usavam bombas coloridas e macias porm perigosas: ameaadoras, poderiam destruir vasos e cermicas de estimao, peas trazidas de toda parte do mundo. Proibida aquela brincadeira, os beligerantes partiram para outra, a de tiro ao alvo, ainda mais perigosa e absurda, que me obrigou a dar-lhes dois berros mandando parar: utilizavam croquetes e empadas  guisa de seta e como alvo as figuras  sobretudo os rostos  do painel pintado por Djanira, numa parede inteira do bar.
       Esse foi o primeiro e ltimo "aniversrio de arromba" acontecido l em casa. Joo festejaria seu prximo aniversrio, tranqilamente, na Bahia.
       
       PROPOSTA DA METRO
       
       
       Chegava dos Estados Unidos proposta da Metro Goldwyn Meyer, interessada em filmar Gabriela. Pediam uma opo, pagariam alto, talvez o suficiente para concretizarmos nosso plano de comprar uma casa na Bahia, nos mudarmos para l.
       Vivamos h dez anos no Rio, desde a volta da longa permanncia na Europa. Os meninos, chegados pequenos, Paloma com apenas dez meses, Joo com cinco anos, j estavam grandes, Joo criava asas, e o ambiente no Rio de Janeiro, sobretudo em Copacabana, no era dos mais recomendveis para rapazes de sua idade, vulnerveis a tantos e tamanhos descaminhos. O caso Ada Curi, em 1958, a jovem atirada do alto de um edifcio durante uma festa de meninas e rapazes, comovera, revoltara e continuava em pauta apesar dos anos passados.
       Chocara-nos e entristecera-nos a morte violenta do filho de um amigo querido, o notvel educador Ansio Teixeira, Jos Maurcio Teixeira, Juquinha, 19 anos, estudante de medicina, rapaz tranqilo, inteligente. Juquinha voltava, tarde da noite, de uma festa de aniversrio, quando seu carro espatifou-se contra uma rvore. Ningum pde explicar a causa do desastre, como aconteceu. Ansio foi despertado de madrugada para reconhecer o corpo do filho, na morgue.
       Abalara-nos tambm a morte da colegial encontrada morta com a cabea dentro de uma gaveta, o nariz enfiado na cola que costumava cheirar, s escondidas dos pais.
       Toda a prudncia era pouca naqueles dias de incerteza e violncias, as mes que cuidassem de seus filhos. E adiantava muito, cuidar? Infelizmente, pouco ou nada adiantava. Mais cuidado do que Nazareth e Odylo tinham com os filhos, adiantara?
       O segundo dos nove filhos de Nazareth e Odylo Costa, filho, Odylinho, fora assassinado. Ao regressar do cinema com a namorada,  noite, em Santa Teresa, onde moravam, o casal de jovens sofrer um assalto a mo armada, Odylinho morto a tiros de revlver por um pequeno delinqente, de onze anos.
       A morte brutal do filho de Odylo Costa, filho, escritor, poeta, jornalista dos mais queridos e conceituados, repercutira, chocara, cobrira de tristeza o Brasil inteiro, deixando seus amigos, os inmeros amigos do casal, entre os quais ns, perplexos, traumatizados.
       Deparvamo-nos, assustados, Jorge e eu, com um novo problema a enfrentar: a proteo de nossos filhos contra a violncia que se alastrava, o fantasma da droga que surgia, ameaador, em grande parte responsvel pelo nmero de assaltos e crimes. A maconha andava na moda e era oferecida aos meninos nas portas dos colgios. Hoje  a cocana que se impe e assusta, vcio que sempre existiu para uma elite que podia pagar, agora usada tambm por aqueles que assaltam, esfolam e matam, a fim de obt-la. Para as crianas pobres e miserveis, muitas delas utilizadas e exploradas pelos traficantes na distribuio da droga, para elas existe coisa mais barata, o cheiro de cola a embriag-las, levando-as aos roubos, aos assaltos,  morte.
       O choque com a morte violenta de Odylinho fora decisivo para ns: acabaramos de criar nossos filhos em Salvador, na Bahia, onde todo mundo se conhecia, onde o vcio e a delinqncia ainda no haviam tomado vulto. Para Joo e Paloma mais liberdade, Joo j no precisaria discutir com a me, recusando-lhe a tutela, coisa que comeara a acontecer; poderia sair e voltar sozinho  noite, sabendo que ao chegar em casa no encontraria,  sua espera, a me aflita, angustiada... para o pai tambm menos preocupaes, paz e cabea leve para escrever seus romances. Faltava apenas encontrar uma casa que nos agradasse e o dinheiro para compr-la. A proposta da Metro, pois, vinha a calhar.
       
       
       JORGE RECUPERA O TEMPO PERDIDO
       
       Jorge recupera o tempo perdido, pensei quando ele me confidenciou estar doido para sentar-se e escrever um novo romance. Ainda uma histria da cidade do Salvador fervilhava em sua cabea. Impossvel, no entanto, trabalhar no Rio de Janeiro, em meio ao burburinho de fatos e boatos que corriam prevendo um golpe de Estado. Tudo indicava que Joo Goulart seria derrubado e uma nova ditadura instalada.
       Depois de tantos anos sem escrever, Jorge voltara com Gabriela, que tantas e tantas alegrias lhe dera e continuava a dar: traduzida para o ingls, encabeava listas de bestsellers, nos Estados Unidos; mesmo a lngua francesa a moa j falava, passeando pelas ruas de Paris. Agora, generosa, oferecia-lhe uma casa na Bahia.
       Seguira-se Quincas Berro d'gua, editado em livro e, por indicao de Jean-Paul Sartre, j circulava em francs com o ttulo de Quinquin la Flotte. Ao mesmo tempo escrevera Os Velhos Marinheiros, histria do romntico e sonhador Capito Vasco Moscoso de Arago, provando que o nico bem inalienvel que o homem possui  o direito ao sonho, nesse ningum bole, esse ningum tira. Sementes de romances, plantadas em sua cabea  por quem? Sei l! , por tanto tempo abafadas, comeavam a germinar, uma atrs da outra... Nossa mudana para a Bahia vinha na hora certa. Chegara a vez de escrever Os Pastores da Noite, onde contaria histrias passadas na cidade do Salvador, entre "putas e vagabundos", seus personagens, seus velhos e fiis amigos que o acompanhavam desde o primeiro livro, quando era ainda quase um menino. Voltariam ainda uma vez com seu charme e sua sabedoria, a povoar um novo livro. No havia tempo a perder, Jorge devia andar ligeiro, pois Dona Flor estava na fila, de tocaia, aguardando vez.
       
       
       UMA CASA NO RIO VERMELHO
       
       No fora fcil descobrir casa de nosso agrado, na Bahia. Rodamos aquilo tudo sem sucesso e; quando j comevamos a desanimar, encontramos uma que pertencia a um pianista austraco, Jean Sebastian Benda, que partia com a famlia para a Europa. No era a casa ideal, a que sonhramos, pois necessitava ser reformada, em realidade devia ser reconstruda. Tinha a vantagem de ser situada no alto de uma ladeira com surpreendente vista sobre o bairro do Rio Vermelho e o mar. Nossos amigos viviam nas imediaes, e isso nos entusiasmava. O terreno era grande porm minado de formigueiros e as nicas rvores que havia era um velho sapotizeiro, um p de manga-carlotinha e um p de jambo do Par, ainda novos.
       Dona Eullia no gostou nem um pouco da conversa de mudana, seu Joo tambm no gostou mas ficou calado, no disse nada. Ao saber que j havamos comprado a casa, dona Eullia no se conformou:
        Menina! Tu mais Jorge vo embora mesmo? O que  que vo fazer l na Bahia? Que graa vocs acham naquilo?
         A Bahia  mais tranqila, dona Eullia, vai ser melhor para as crianas e para ns tambm... A casa  grande, tem um quarto para a senhora e seu Joo. Vamos morar todos na Bahia...
         Morar na Bahia, eu? Deus me livre! Tu t doida? Aquilo  s mato... Joo mais eu gostamos de cidade... L no tem divertimento... Qual  o divertimento que tem? Diga!  voltava-se para mim.  Tu que gosta tanto de festa! L no tem Embaixador que convida pra festas... Como  que tu vai te arranjar?...
       As perguntas e as respostas dadas por ela prpria e suas afirmaes me faziam rir. Vivera infncia e juventude em fazendas de cacau, em meio a jagunos e tiroteios, ficara traumatizada para sempre. Da Bahia ela guardava apenas as antigas lembranas, tristes. Sem coragem de dizer diretamente ao filho que no se fosse... tentava pression-lo por meu intermdio.
         No bastava Joelson ter arribado com a famlia para So Paulo?  prosseguia ela.  Que necessidade tinha ele de ir?  Segundo dona Eullia, no Rio tinha muito mais gente doente precisando de mdico do que em So Paulo, "terra de pessoal estrangeiro como tu, filha de italianos, gente forte... Agora d essa maluquice tambm em Jorge..." James e Luisa moravam no Rio, em Copacabana, estariam sempre com os velhos, lhes fariam companhia... Mas para dona Eullia era pouco, no queria saber de conversa, pusera trs filhos ao mundo, penara anos de saudades do filho andejo... "...j est na hora de Jorge se aquietar, tu no acha, Zlia? Filho deve ficar junto dos pais quando ficam velhos..." Tentava me comover, e eu morta de pena procurava convenc-la a ir conosco para a Bahia. Mas isso ela no aceitava.
       De passagem pelo Rio, Caryb, que pintara uma srie de azulejos para a casa do Rio Vermelho, nos desanimara, as obras estavam atrasadas: "longe dos olhos do dono o gado no engorda", dissera, e resolvemos ir a Salvador, dar uma espiada, dar um empurro, acelerar a marcha dos trabalhos.
       Seu Joo me pedira que no esquecesse de deixar escrito num papel o telefone de dona Raimunda, j que eu telefonara para sua casa sem encontr-la, ela viajara para Minas, certamente em misso de caridade. Ele j no sentia dores, mas tinha grande desejo de rev-la. Deixei com James seu telefone. O Coronel ficara tranqilo.
       
       
       ENCONTRO HISTRICO
       
       
       Um telefonema de Di Cavalcanti nos convocava para uma reunio naquela noite em seu apartamento, no Catete. Encontro muito importante, dizia, um tom de mistrio na voz, mistrio em seguida desvendado: tratava-se de um encontro de intelectuais com o Presidente Joo Goulart.
       Desde que tomara posse, o Governo democrtico de Goulart sofria presses, boatos sobre golpe de Estado era o que mais se ouvia de Norte a Sul do pas, Jango apoiando-se cada vez mais nas foras de esquerda, piorando cada vez mais sua situao diante dos conservadores. O ambiente no Brasil era de inquietao permanente. Quem, como ns, conhecia de perto ditaduras passadas j no podia dormir tranqilo...
       Joo Goulart buscava o apoio dos intelectuais, por isso a reunio em casa de Di Cavalcanti, naquela noite. Di estava satisfeito: apaixonado de Paris onde vivera, fora convidado pelo Presidente a ser adido cultural na Embaixada do Brasil na Frana. Preparava-se para viajar.
       As pessoas convocadas para a reunio l estavam todas: o dono da casa, claro, Antnio Callado, Paulo Francis, Alex Vianny, Mrio Pedrosa, Adalgisa Nery, Mrio Gruber, Joaquim Pinto Nasrio, Samuel Wainer, Moacir Werneck de Castro e ns.
       Era a primeira vez que eu via Joo Goulart de perto e o achei muito bem-disposto, risonho e alegre, quando eu imaginara encontr-lo acabado, triste, devido  carga atirada contra ele... Confiante, Joo Goulart contava vitrias, exibia fora: "...promovi quarenta generais, gente minha, da mais inteira confiana..."
       De nada adiantaram o apoio dos intelectuais e o dos sindicatos, de nada adiantara o apoio das esquerdas, de nada adiantara o apoio firme de Brizola no Rio Grande do Sul, de nada adiantaram os quarenta generais promovidos que, ao contrrio do que pensara, no eram gente dele; em 31 de maro de 1964, seria dado o golpe militar, Joo Goulart, deposto, partiria para o exlio, no Uruguai.
       Mais uma ditadura se instalaria no Brasil. Di Cavalcanti viajara para Paris, mal deu tempo de tomar posse. Foi adido cultural por um dia.
       
       
       DESPEDIDA
       
       
       Acordei num pulo, sobressaltada com o toque do telefone. Por que tanto susto se estava ali  espera da chamada? Recostada na poltrona enquanto aguardava, adormecera. Que horas podiam ser? Quanto tempo dormira? No devia ter sido muito, ainda no dera meia-noite.
       Do outro lado do fio, Joo Jorge me falava: "Me, pode vir..." Ainda bem que eu no devia ir longe para apanh-lo, ainda bem. Estava morta de cansao, trabalhara o dia todo na arrumao de malas... O carro ficara em frente ao edifcio, me pouparia de manobr-lo na garagem sempre repleta quela hora. O apartamento do colega onde se dera a festa de despedida ficava logo ali no Leme, a dois passos do nosso. Tratei de recomendar: "Aguarde dez minutos antes de descer, meu filho, no fique esperando na rua..." Pela ltima vez iria apanhar Joo  noite, dava adeus aos sobressaltos.
       Os meninos partiriam para Salvador no dia seguinte, Jorge e eu iramos quando a casa estivesse pronta. J fora tudo acertado: Paloma e Joo passariam as frias na Bahia, providenciariam as matrculas no colgio. Enquanto no mudssemos definitivamente, Paloma ficaria com Dorothy e Moiss Alves, Joo com Norma e Mirabeau Sampaio, amigos de confiana, podamos dormir tranqilos.
       Aquela era a ltima festa, o "arrasta" de despedida, derradeiro evento do Big Party, que se dissolvia com a partida do secretrio-geral, a bem dizer a alma do negcio. Joo se despedia do Rio de Janeiro, das gatinhas, as do Leme e adjacncias. Despedia-se tambm dos cabulosos cuidados da me, que no abria mo de ir apanh-lo  noite nas festinhas  rapaz de barba despontando  por mais ele reclamasse.
       Joo Jorge se iniciava no prazer da leitura, descobrira os livros do pai. Comeara por Capites da Areia, que o fascinara, prosseguira a ler com avidez os outros romances, passou a conviver com os personagens: Pedro Bala, o Sem-Pernas, Antnio Balduno, Guma, Vasco Moscoso, Quincas... as mulheres romnticas e sensuais: Rosenda Rosed, Lvia, Rosa Palmeiro, Ester, Gabriela. A acreditar no que sobre elas o pai escrevia, na Bahia ele no iria ficar desamparado, bem ao contrrio! Ao v-lo comentar, entusiasmado, as mulheres baianas, a sonhar com elas, av Angelina, que viera de So Paulo para as despedidas, aplicara em seguida um de seus provrbios preferidos: "Tem? Procura e acha. No tem? Procura no acha..." Ao que a av Eullia acrescentou: "Esse moleque na Bahia vai estar de grande!" No s Joo, tambm Jorge e eu amos estar de grande. Teramos na Bahia um cho menos violento, menos ameaador, mais seguro para os nossos meninos.
       
       
       INCIO, MEIO, FIM
       
       Em verdade este livro termina ao sairmos do Rio de Janeiro. No posso, no entanto, despedir-me dele sem antes concluir uma histria que ficaria apenas com incio e meio, pois que o fim se deu quando estvamos em Salvador: falo da enfermidade do Coronel, do mistrio de suas dores, s voltas com dona Raimunda e o velho Valentim.
       "At breve, seu Joo", dissera-lhe ao beij-lo na despedida, "s vamos dar uma olhada na casa, ver se j est em condies de hosped-lo..." O velho riu: "Fale isso com Lalu..." "Logo estaremos de volta, meu pai", despediu-se Jorge; mas, poucos dias aps nossa chegada a Salvador, recebemos um telefonema com a notcia.
       O Coronel dera pressa a James, rogara-lhe que chamasse sua amiga Raimunda. James a buscara insistentemente, ela no se encontrava no Rio, mas, eis que de repente, o telefone respondeu, dona Raimunda acabara de chegar. A viagem de nibus a cansara demais, porm, sendo caso de urgncia, iria ver seu Joo naquele dia mesmo.
       Os velhos dormiam a sesta depois do almoo e foi Milu quem abriu a porta  dona Raimunda. A anci entrou, foi diretamente ao quarto, parou, silenciosa, junto  cama, ao lado do Coronel, que ressonava: ele abriu os olhos e a fitou. "Est me conhecendo, seu Joo?" Com a voz quase apagada, ele disse: "Dona Raimunda..." Sorriu, voltou a fechar os olhos. O Coronel Joo Amado estava morto.
       
       Paris, outubro de 1991 Monte Estoril, maro de 1992
       





Esta obra foi digitalizada e revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles que no podem compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer contraprestao  totalmente condenvel em qualquer circunstncia. A generosidade e a humildade  a marca da distribuio, portanto distribua este livro livremente.
Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure :

http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.











http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups.google.com/group/digitalsource
       
       
       
       

